
O New Order sempre foi uma banda paradoxal. Para começar, nasceu de uma morte: o suicídio de Ian Curtis (1956-1980), vocalista do Joy Division, o grupo que legou ao mundo Love Will Tear Us Apart (1980), um hino do pós-punk britânico.
Remanescentes, Bernard Sumner (guitarra, teclados e, a partir de então, voz), Peter Hook (baixo) e Stephen Morris (bateria) recrutaram a namorada deste último, Gillian Gilbert (sintetizadores), e estabeleceram a nova ordem. Sob influência do quarteto alemão Kraftwerk e do produtor e compositor italiano Giorgio Moroder, o grupo da cidade de Manchester trocou a sonoridade soturna de canções como New Dawn Fades, Shadowplay, She's Lost Control (todas de 1979) e Atmosphere (1980) pelas batidas dançantes de Blue Monday (1983), The Perfect Kiss (1985), True Faith (1986) e Bizarre Love Triangle (1987); as sombras pelas luzes das boates. Mas se as músicas passaram a convidar o corpo a sacolejar, as letras continuavam expressando angústia, melancolia, solidão, rejeição.

Outra incongruência: o New Order sempre investiu na imagem — tornaram-se clássicas as capas de disco criadas pelo designer Peter Saville —, mas seus integrantes nunca gostaram de ser "a" imagem. Aparecem em fotos em um único álbum, Low-Life (1985), mas com os rostos distorcidos pelo uso de lente grande angular.
As contradições se somam às controvérsias: tanto Joy Division quanto New Order são nomes associados ao nazismo e ao Holocausto.
O primeiro nome foi pescado por Ian Curtis do livro House of Dolls (1953), escrito por um judeu sobrevivente dos campos de concentração chamado Ka-tzetnik 135633, pseudônimo de Yehiel De-Nur (1909-2001). Joy Division — em português, Divisão da Alegria — designava os bordéis onde as prisioneiras eram obrigadas a se prostituírem.
— Sabíamos que esse nome tinha implicações, mas pensamos: "Bem, não somos nazistas, então, dane-se, continua sendo um ótimo nome". Na nossa cabeça, foi uma espécie de "foda-se, faremos o que quisermos" — disse certa vez Bernard Sumner.

A capa do primeiro disco gravado pela banda, o EP An Ideal for Living (1978), reforçou a aproximação de gosto duvidoso, para dizer o mínimo. A inspiração foi um cartaz de 1935 que mostrava um garoto da juventude hitlerista tocando um tambor. A tipografia remetia à Alemanha, e o próprio título, "Um Ideal para Viver", parecia reverberar um discurso nazista, como admitiu Peter Hook no seu livro de memórias sobre o Joy Division, Unknown Pleasures (2012).
Sugerido pelo empresário dos músicos, Rob Gretton (1953-1999), o nome New Order, por sua vez, veio de um artigo publicado em 1980 no jornal The Guardian e intitulado "A nova ordem do povo de Camboja" — país do Sudeste Asiático que havia acabado de derrubar o regime comunista e genocida do Khmer Vermelho (1975-1979), liderado pelo primeiro-ministro Pol Pot. A alcunha também era coerente com o contexto de ressurgimento e renovação da banda. Mas outra vez os músicos ingleses pisaram em terreno pantanoso. A Nova Ordem (Neuordnung, em alemão) também era o plano de Adolf Hitler para a reestruturação geopolítica, econômica e racial da Europa e do mundo após a suposta vitória da Alemanha na Segunda Guerra Mundial.
Toda essa história é contada com riqueza de detalhes nas 558 páginas do livro All the Way: New Order, Joy Division e Projetos Paralelos (2026), escrito pelo carioca Luís Angelo Aracri, 48 anos, e pelo paulista Ricardo Augusto Fernandes, 55. A publicação é da gaúcha Belas Letras, editora de Caxias do Sul especializada em música, cinema e cultura pop — vêm de lá, por exemplos, as obras do crítico britânico Ian Nathan sobre grandes cineastas, como Clint Eastwood, Steven Spielberg, Tim Burton e Quentin Tarantino, além da bíblia de Paul M. Sammon sobre o filme Blade Runner: O Caçador de Androides (1982) e das autobiografias de Ozzy Osbourne e Johnny Marr. O volume custa R$ 149,90, mas no site da Belas Letras estava com preço promocional pelo menos até esta quarta-feira (29): R$ 119,90.

O título já merece destaque. Talvez o mais óbvio fosse batizar o livro com o nome da canção que marca a transição entre o Joy Division e o New Order, Ceremony, escrita poucas semanas antes do suicídio de Ian Curtis e lançada em 1981.
Mas a dupla de autores escolheu All the Way, segunda faixa do disco Technique (1989). Faz sentido: Aracri e Fernandes se propuseram a traçar todo o caminho. Desde o impacto do célebre show dos Sex Pistols em Manchester, em 1976, considerado o marco zero da efervescente cena musical da cidade do norte da Inglaterra — como visto no filme A Festa Nunca Termina (2002), de Michael Winterbottom — até o lançamento, em 2020, de Be a Rebel, a primeira música inédita do New Order em cinco anos (e, pelo que se sabe, a última gravação até o momento).

Ao percorrerem todo o caminho, Aracri e Fernandes reconstituem a história de cada integrante e os bastidores de cada disco, esmiuçando a gravação e a repercussão de (quase) cada canção. Também se dedicam a separar o que é fato do que é lenda, a relembrar todos os shows do New Order no Brasil e a explicar por que não há clima nenhum para um reencontro da formação original em um estúdio ou em um palco.
Não se deve esperar uma apresentação conjunta na cerimônia de ingresso do Joy Division e do New Order no Rock and Roll Hall of Fame, marcada para o dia 14 de novembro no Peacock Theater, em Los Angeles. A troca de farpas entre Bernard Sumner e Peter Hook, que brigaram em 2007, pode estar embalada pelo senso de humor britânico, mas certamente machuca um ao outro.

O livro inclui um caderno de fotos coloridas, uma linha do tempo e, como o subtítulo promete, uma análise dos projetos paralelos, como o Electronic (de Sumner), o Monaco (de Hook) e o The Other Two (do casal Stephen Morris e Gillian Gilbert). Dado o tamanho e a natureza da obra, valeria a pena haver um índice remissivo e, principalmente, uma lista com a discografia completa, com todos os álbuns, singles, coletâneas, trilhas sonoras de filmes etc. Seria a cereja do bolo nesta biografia que não pode faltar na casa de um fã do Joy Division ou do New Order.
Não, não se deve usar "ou", mas "e". No livro, Luís Angelo Aracri e Ricardo Augusto Fernandes refutam a ideia de que Joy Division e New Order sejam bandas tão diferentes uma da outra, mas reconhecem que elas são geralmente vistas como "entidades separadas". Segundo os autores de All the Way, boa parte do público jovem "foi induzida ao erro de acreditar que, enquanto o Joy Division representava alguma coisa situada entre a pureza, a integridade e a vanguarda, o New Order, por ter tido a 'ousadia' de emplacar hits e fazer uma música (equivocadamente) rotulada como 'alegre', simbolizaria o mundano e o vulgar".
Mas o New Order já existia, ainda que como virtualidade, no Joy Division, e o Joy Division não teve seu DNA completamente apagado no New Order. "Quando ouvidos em sequência, obedecendo a ordem cronológica, os álbuns e os singles de ambas as bandas revelam que a mudança de estilo musical foi um processo gradual e progressivo em vez de uma pura e simples ruptura", escrevem Aracri e Fernandes.
A assinatura musical do Joy Division foi mantida pelo New Order: o baixo agudo e melódico, empunhado por Peter Hook na altura dos joelhos. O salto de Transmission (1979) para Blue Monday (1983) e de Isolation (1980) para Everything's Gone Green (1981) não é brusco, assim como não é grande a distância de Decades (1980) para Your Silent Face (1983).
É como afirmam Aracri e Fernandes no livro: não existe, de um lado, a história do Joy Division e, do outro, a história do New Order. "Existe uma história apenas, mas que pode ser percorrida por distintos caminhos. E contar a história do New Order e do Joy Division é contar, pelo menos em parte, outras tantas: da revitalização de uma cidade, dos selos independentes, do perfil das paradas de sucesso nas décadas de 1980 e 1990, da evolução dos instrumentos eletrônicos e da tecnologia musical, da assimilação do éthos punk pela cena alternativa tanto do rock quanto da música eletrônica dance, do nascimento da cultura clubber e das raves, da identidade visual na música pop etc."
Ao longo dos anos, o Joy Division continuou ecoando no New Order. No último disco de estúdio da banda, Music Complete (2015), a faixa Singularity constrói uma ponte em direção ao passado. Sua introdução sinistra caberia perfeitamente em um disco do Joy Division, com baixo e bateria em um transe triste. Mas aí, como a lembrar que eles se chamam New Order, entram os beats chacoalhantes, os sintetizadores pulsantes, a voz suave e um pouco desafinada de Bernard Sumner — que nunca foi um grande letrista ou um grande cantor como Ian Curtis, mas sua timidez e sua tibiez emprestam aos versos, até quando tolos, uma espécie de verdade. Dançar parece ser mesmo o jeito de reverenciar "todas as almas perdidas que não conseguiram voltar para casa" citadas no refrão.
As favoritas dos autores de "All the Way"
A pedido da coluna, Luís Angelo Aracri e Ricardo Augusto Fernandes listaram suas músicas favoritas de cada banda retratada no livro All the Way: New Order, Joy Division e Projetos Paralelos.
Aracri elegeu Decades (Joy Division), Blue Monday ("Escolho uma óbvia porque ela deu início à minha obsessão, mas poderia ser Everything's Gone Green, Sunrise, Run..."), Some Distant Memory (Electronic), Tender (Monaco), Ninth Configuration (The Other Two), Jesus, I Love You (Revenge), This Is Home (Bad Lieutenant), You Don't Know This About Me (Freebass) e We're On It (Man Ray).
Fernandes votou em Atmosphere (Joy Division), The Perfect Kiss (New Order), Get the Message (Electronic), What Do You Want From Me? (Monaco), Tasty Fish (The Other Two), Slave (Revenge), This Is Home (Bad Lieutenant), Dark Starr (Freebass) e Ways of Making Music (Man Ray).
É assinante mas ainda não recebe minha carta semanal exclusiva? Clique aqui e se inscreva na newsletter
Assista aos vídeos Dica do Ticiano no YouTube: clique aqui
Já conhece o canal da coluna no WhatsApp? Clique aqui: gzh.rs/CanalTiciano




