
Estreia nesta sexta-feira (3) no Apple TV o primeiro dos 10 episódios da segunda temporada da série Seus Amigos e Vizinhos (Your Friends and Neighbors, 2025-). Os outros nove capítulos serão lançados semanalmente pela plataforma de streaming, até o dia 5 de junho.
Embora tenha sido praticamente ignorada no Emmy — só concorreu ao prêmio de melhor música-tema, The Joneses, composta por Hamilton Leithauser e Dominic Lewis —, Seus Amigos e Vizinhos conquistou de cara a crítica e o público. Aliás, a segunda temporada estava garantida antes mesmo do lançamento da primeira. E a renovação para um terceiro ano foi divulgada dois meses antes da estreia da nova leva de episódios.
Seus Amigos e Vizinhos foi criada por Jonathan Tropper, o mesmo autor das séries Banshee (2013-2016) e Warrior (2019-2023) e o roteirista do filme Dupla Perigosa (2026), com Jason Momoa e Dave Bautista. Jon Hamm, o eterno Don Draper de Mad Men (2007-2015), faz o personagem principal, Andrew Cooper, o Coop.
Trata-se de um gestor de fundos de investimento que perde seu emprego quando ainda está lidando com seu divórcio recente — o que inclui despesas vultosas com a educação dos dois filhos: Tori (Isabel Gravitt) e Hunter (Donovan Colan), que moram com a mãe, Mel (vivida por Amanda Peet, estrela de comédias românticas dos anos 2000, como O Casamento dos meus Sonhos, De Repente É Amor e O Ex-Namorado da Minha Mulher). À beira da ruína, ele passa a assaltar as casas de seus vizinhos na extremamente abastada comunidade da fictícia Westmont Village, no Estado de Nova York. Dessas residências, o protagonista também leva segredos.
Misturando drama, suspense e comédia, Seus Amigos e Vizinhos aborda com cinismo o mundo dos privilegiados: trata de status e fachada, do vazio — moral, emocional, espiritual, intelectual — que pode estar associado àqueles que têm tudo.
— Se você puxar a cortina um pouquinho, todas essas vidas aparentemente perfeitas talvez não sejam tão perfeitas assim — resumiu Jon Hamm em entrevista por vídeo da qual GZH participou, a convite do Apple TV (leia mais logo abaixo).
Coop encara seus furtos como um novo trabalho, ao qual vai se dedicar com afinco — afinal, é o dinheiro da venda clandestina de joias, relógios e afins que pode garantir seu lugar à mesa da alta sociedade e contrariar o refrão da música de abertura: "Você não consegue acompanhar os Joneses". Mas os versos dessa canção também apontam para a ilusão das aparências em Westmont Village: "Não quero sentir o cheiro das rosas murchas".
Na conversa com a imprensa, Hamm comentou:
— Coop trabalhou muito para alcançar o que ele achava que estava buscando. E então, num instante, tudo foi destruído. Acho que ele está reavaliando o que quer, e fazendo isso em tempo real, enquanto também infringe diversas leis estaduais e federais. Ao longo da segunda temporada, creio que ele está realmente percebendo que as coisas importantes em sua vida são aquelas que o dinheiro não pode comprar. O relacionamento com a família é fundamental para Coop.
Jon Hamm está excelente no papel, combinando charme, desespero, sarcasmo e ambiguidade. Mas é preciso destacar também a atuação de Amanda Peet na pele de Mel. Vale prestar atenção na gama de sentimentos que a atriz consegue exprimir sem dizer uma palavra.
A segunda temporada de "Seus Amigos e Vizinhos"

Atenção: haverá spoilers da primeira temporada de Seus Amigos e Vizinhos, mas não da segunda.
No segundo ano da série, Coop (Jon Hamm) segue firme na carreira de ladrão dos seus amigos e vizinhos. Enquanto isso, sua ex-esposa, Mel (Amanda Peet), passa a lidar com a menopausa ao mesmo tempo em que começa a experimentar a síndrome do ninho vazio: Tori (Isabel Grevitt), a filha mais velha, está para entrar na faculdade.

Samantha Levitt (personagem de Olivia Munn, a Sloan Sabbith da saudosa The Newsroom), por sua vez, tenta se reinserir na comunidade após ser presa ao final da primeira temporada. Sam foi condenada por ter incriminado Coop no suicídio de seu ex-marido, Paul, para não perder o pagamento de um generoso seguro de vida.
Como corretora de imóveis, Sam vai ser a primeira pessoa a interagir com um novo morador de Westmont Village. Trata-se do milionário Owen Ashe, papel de James Marsden, duas vezes indicado ao Emmy de ator coadjuvante: primeiro pela comédia Na Mira do Júri, em 2023, depois pelo suspense Paradise, em 2025. Seu personagem logo se torna o centro das atenções, acelerando sua McLaren 750S e oferecendo uma festa nababesca na mansão que recém comprou — em dinheiro.
— Para mim, a maior diversão de ser ator é estar o mais distante possível de si mesmo ao encarnar um personagem. E esse cara tem muito mais energia do que eu, e muito mais grana do que eu — brincou James Marsden na entrevista coletiva.
Jon Hamm elogiou o colega de elenco:
— Foi ótimo poder contar com o James para interpretar Ashe, porque ele é um dos poucos atores que conseguem transmitir um carisma tremendo e, ao mesmo tempo, uma certa ameaça.
A entrada de Ashe em cena aumenta os riscos da corda-bamba em que Coop se equilibra para sustentar e cuidar de todos: a ex-esposa, os filhos e os pais; a irmã cantora que tem transtorno bipolar, Ali (Lena Hall); seu contador e melhor amigo, Barney (Hoon Lee); sua parceira de crime, Elena (Aimee Carrero). A dor paralisante que sente nas costas em dado momento parece uma somatização do peso nos seus ombros.
Entrevista com o criador e o elenco da série

Nos dias 24 e 27 de março, a convite do Apple TV, GZH participou de três rodadas de entrevistas sobre a segunda temporada de Seus Amigos e Vizinhos. As conversas por vídeo foram com o criador da história, Jonathan Tropper, e os atores Jon Hamm, que faz o protagonista, Coop, Olivia Munn, que interpreta Sam, e James Marsden, novo integrante do elenco, na pele do milionário Owen Ashe. Confira as respostas às minhas perguntas:
Seus Amigos e Vizinhos se alinha a outras produções recentes, como Big Little Lies e The White Lotus, que vêm mostrando o mundo de fachada das pessoas ricas. Ao literalmente vasculhar as gavetas de vizinhos obcecados por luxo e por status, Coop descobre um vazio moral e uma coleção de segredos, mentiras e traições. Por que vocês acham que esse tipo de história atrai tanto o público? Há uma mistura de inveja e de prazer quase sádico por ver esses personagens sendo ridicularizados, enganados e roubados?
Jon Hamm: Acho que há algo assim. Acho que também existe uma emoção vicária em se comportar mal. Acho também que estamos vivendo este momento de enorme incerteza financeira e política, onde há um certo fascínio em ver pessoas ricas, o 1% do mundo, se comportando mal. Existe quase um gênero disso, seja você olhando para a nossa série, para The White Lotus, para Industry ou para Succession. Mas acho que, antes de tudo, Seus Amigos e Vizinhos é entretenimento. É isso que estamos tentando fazer. Não estamos tentando ser didáticos. Estamos tentando contar uma história divertida e, para isso, você precisa povoar sua história com personagens cativantes, o que eu acho que conseguimos.
Jonathan Tropper: Eu vejo isso por uma perspectiva um pouco diferente. Os personagens da série, à medida que chegam à meia-idade, percebem o tempo gasto perseguindo esse sonho e que a montanha escalada talvez não tenha sido a certa. Então, ao mesmo tempo em que questionam o sistema de valores, eles ainda o desejam, certo? Eles ainda querem essas coisas boas. Ainda são obcecados por elas, mesmo começando a entender que isso pode ter sido um erro. E acho que, para os espectadores, essa contradição existe em todos nós. Claramente, há alguns elementos satíricos, estamos zombando desse sistema de valores. Mas, ao mesmo tempo, você pode dizer: "Eu adoraria dirigir aquele carro". A série explora essa tensão que existe dentro de todos nós. Acho que todos nós vivemos em comunidades e acreditamos em sistemas legais e governamentais por causa do conforto e da segurança que nos proporcionam. Mas, ao mesmo tempo, tudo isso nos exaspera. Todos nós já quisemos queremos jogar as regras pela janela e simplesmente fazer algo que nos dê prazer naquele momento. E não fazemos isso porque estamos pensando no futuro e não queremos ir para a cadeia, ser expulsos de uma comunidade ou ser rejeitados. Mas observar pessoas que conseguem fazer isso sem necessariamente pagar esse preço, bem, há uma certa realização de desejos nisso. Acho que entendemos esses personagens. São versões um pouco exageradas de nós mesmos, mas todos nós já tivemos os seus desejos e as suas inclinações.
Jonathan, Seus Amigos e Vizinhos tem uma dezena de personagens que vivem suas próprias jornadas, com seus dramas e suas alegrias. Como o time de roteiristas faz para conciliar essas subtramas particulares ao longo da temporada? Existe um padrinho ou um guardião para cada personagem, de modo que ele tenha seu arco dramático desenvolvido e não fique relegado?
Jonathan Tropper: Sim, dedicamos muito tempo a isso na sala dos roteiristas. Sempre começamos pelos personagens, começando com o Coop e sua jornada ao longo da temporada. Depois, lidamos com a Mel e a Samantha, e, uma vez que esses três estejam desenvolvidos, começamos a discutir cada arco individualmente, para onde queremos levar esses personagens nessa temporada. E então, o verdadeiro trabalho na sala dos roteiristas é descobrir a interconexão de tudo isso, porque o que eu acho que torna a série realmente satisfatória é como histórias que parecem não ter relação acabam se conectando. Passamos muito tempo trabalhando em como interconectar essas coisas. E, conforme avançamos na construção dos episódios, quando chegamos ao quinto episódio voltamos e fazemos muitos ajustes nos episódios um a quatro para que as coisas funcionem para alguns dos outros personagens. Isso leva cerca de 10 semanas, e em 12 semanas definimos toda a temporada.
Jon, você pode falar sobre seu momento favorito na segunda temporada?
Jon Hamm: São tantos. Acho que a adição do personagem de James (Marsden), Owen Ashe, foi um verdadeiro ponto de virada para o Coop. Foi superdivertido gravar essas cenas. Mas também gostei muito de gravar cenas com Michael O'Keefe, que interpreta o pai de Coop. Ele fez um trabalho brilhante, e tivemos um momento muito bonito e genuíno para expressar a perda de um pai. E também foi algo singular a cena com Mare Winningham, que interpreta lindamente uma espécie de amiga próxima e desconhecida do meu pai. Sou fã do trabalho da Mare Winningham há muito tempo, então fiquei muito feliz de ter a chance de gravar uma cena com ela.

Olivia, na abertura da segunda temporada, Coop conta sobre como ele já foi totalmente reintegrado à sociedade, enquanto sua personagem, Samantha Levitt, tem de lidar com o julgamento de uma corte impiedosa: as outras mulheres de Westmont Village. Por que elas não perdoam Sam? E isso diz mais sobre Sam ou sobre as mulheres que a condenam ao ostracismo?
Olivia Munn: Essa é uma ótima pergunta que nunca me fizeram antes. E é uma pergunta que eu me fiz ao me preparar para a segunda temporada. Enquanto eu anotava todos os sentimentos que Sam teria naquele momento da vida dela, vi que eram sentimentos contraditórios, como a vergonha e o arrependimento por saber que fez algo errado, mas também a sensação de que o mundo em que ela vive é injusto e ela está com raiva disso. Eu realmente precisei parar e pensar sobre o que você está perguntando. E acho que tudo se resume a dinheiro e status. Quer dizer, é disso que se trata este mundo. Minha personagem, quando você a vê na segunda temporada, perdeu tudo. Ela não tem dinheiro. Ela precisa voltar a procurar emprego. Ela é corretora de imóveis agora, enquanto todas as outras mulheres têm empregos sofisticados ou maridos ricos e com empregos importantes. Então, é muito fácil não ter que perdoar. Acho que seria muito mais difícil para elas se a Sam tivesse o dinheiro e o status e elas simplesmente tivessem que tolerá-la, mas é muito fácil descartar alguém que, bem, que parece não valer mais a pena. Nesse ponto, o critério para ser digno o suficiente para ser perdoado e aceito naquele grupo de amigos é quanto dinheiro você tem na conta bancária, que casas você possui, que carros você dirige, quantas bolsas Birkin você tem. Tudo isso é levado em consideração quando eles decidem se alguém deve ficar ou sair do grupo.
James Marsden: Acredito que as outras mulheres gostam de ver como você (a personagem Sam) reage ao ostracismo e a todas as suas más ações, porque acho que, no fundo, em seus momentos de privacidade, elas sabem que talvez não sejam melhores do que você. Talvez a maneira como você se porta, cuidando dos seus filhos e seguindo em frente com a vida, sem sentir que precisa deixar a cidade, demonstre autoestima e dignidade. Mesmo que o trabalho não seja o mesmo que o delas, ou o dinheiro não seja o que elas ganham, sinto que há um pouco de inveja ali, decorrente de uma personagem que demonstra caráter e integridade nesses momentos. É estranho dizer isso depois do que você fez, mas eu acho que as mulheres olham para você e é como se fosse um pequeno espetáculo para elas.
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