
O Amazon Prime Video adicionou recentemente ao seu menu De Olhos Bem Fechados (Eyes Wide Shut, 1999), filme estrelado por Tom Cruise e Nicole Kidman que foi a última obra do genial cineasta Stanley Kubrick (1928-1999). Aliás, foi lançado postumamente nos cinemas.
De Olhos Bem Fechados é uma prova de como o diretor de 2001: Uma Odisseia no Espaço (1968) e O Iluminado (1980) levava a sério suas obsessões. Kubrick sonhou durante 30 anos com esse filme — comprou ainda no final da década de 1960 os direitos de adaptação do livro Breve Romance de Sonho (1926), de Arthur Schnitzler.
Em 1972, durante uma entrevista sobre um de seus clássicos, Laranja Mecânica (1971), o cineasta contou ao crítico francês Michel Ciment sobre seus planos de adaptar a história que, nas suas palavras, "opõe as aventuras reais de um marido e as oníricas de sua mulher, e faz a seguinte pergunta: será que há uma diferença importante entre sonhar com uma aventura sexual e realmente ter uma?".
Essa conversa com Ciment está reproduzida no livro Kubrick, lançado em 2024 no Brasil pela editora Ubu, com tradução de Eloisa Araújo Ribeiro. O volume inclui análise do filme e entrevistas com o roteirista Frederic Raphael e a figurinista Marit Allen.

Stanley Kubrick levou a trama para a Nova York contemporânea, ainda que tenha sido filmada em Londres, tanto porque o cineasta tinha medo de viajar de avião quanto porque, ao recriar cenários nos estúdios Pinewood, ele podia exercer seu célebre controle total.
Para os papéis principais, Kubrick escalou um casal de verdade: Tom Cruise e Nicole Kidman, que só se divorciariam em 2001. Ele interpreta o médico Bill Hartford, que fica transtornado quando a esposa, a galerista desempregada Alice, revela ter tido fantasias eróticas com um marinheiro durante uma viagem de férias da família. Aí, Bill acaba descobrindo a existência de uma sociedade secreta dedicada ao sexo e passa a viver perigosas aventuras.
Malhado na época e ignorado no Oscar, De Olhos Bem Fechados envelheceu bem no seu retrato do confronto doloroso entre amor e desejo sexual, temperado pelo inferno do ciúme e pelo borramento das fronteiras entre sonho, fantasia e realidade. No prefácio do livro de Michel Ciment, o cineasta Martin Scorsese diz que todos os filmes de Kubrick, a princípio, foram mal compreendidos: "Somente depois de cinco ou 10 anos, acabávamos nos dando conta de que 2001: Uma Odisseia no Espaço ou Barry Lyndon ou O Iluminado não eram parecidos com nada do que os havia precedido ou seguido".
As reações hostis que o póstumo De Olhos Bem Fechados provocou são, nas palavras de Scorsese, "a sina de todos os verdadeiros visionários que não tomam caminhos repisados. Artistas do calibre de Kubrick têm mentes brilhantes e dinâmicas para imaginar o mundo em movimento, para compreender não apenas de onde ele vem, mas para onde vai".
O golpista que fingiu ser Kubrick

Desde que Stanley Kubrick se mudara para a Inglaterra, em 1961, o diretor nascido em Nova York vivia com sua família, seus gatos e seus cachorros em uma casa afastada da civilização. Lá, podia se concentrar na minuciosa preparação de seus filmes. Sua notória reclusão deu margem para que um picareta chamado Alan Conway se passasse por Kubrick para aplicar golpes na alta e na baixíssima sociedade londrina durante as filmagens de De Olhos Bem Fechados.
O picareta seduzia suas vítimas com promessas de incluí-las em futuros e fajutos projetos: A Morte do Designer, Receitas a Noite Toda ou Darling, a que Amou Demais. Não durou muito a impostura, pois Conway exagerou na ambição e mostrou saber menos do que deveria sobre seu personagem.
O episódio virou filme, a comédia dramática Totalmente Kubrick (2005), dirigida por Brian W. Cook, ex-assistente de Kubrick, e protagonizada por John Malkovich. O título está disponível no Mercado Play.
É assinante mas ainda não recebe minha carta semanal exclusiva? Clique aqui e se inscreva na newsletter
Assista aos vídeos Dica do Ticiano no YouTube: clique aqui
Já conhece o canal da coluna no WhatsApp? Clique aqui: gzh.rs/CanalTiciano



