
"Todas queriam ser Betty Blue nos anos 1980. A protagonista do filme estrelado pela sensual Béatrice Dalle era modelo para as garotas moderninhas — e virou objeto de desejo dos rapazes que sonhavam estar na pele de Zorg (Jean-Hugues Anglade), com quem a personagem vive uma paixão tórrida."
O crítico Roger Lerina foi perfeito ao resumir a febre provocada pelo filme erótico francês Betty Blue (37°2 le Matin, 1986) em texto publicado no dia 22 de outubro de 2004 em Zero Hora. Naquele ano, estava saindo no Brasil o DVD com a edição do diretor Jean-Jacques Beineix (1946-2022), que têm 185 minutos.
Agora, no aniversário de 40 anos do título — atualmente indisponível no streaming —, Betty Blue ganhou relançamento nos cinemas, com cópia restaurada e na versão original, com duas horas de duração. No Brasil, a distribuição é da Pandora Filmes. Em Porto Alegre, pode ser visto a partir desta quinta-feira (23) na Sala Eduardo Hirtz da Cinemateca Paulo Amorim, na Casa de Cultura Mario Quintana, com sessões às 19h15min (neste sábado, será às 19h30min).
— Quando eu comecei a participar dos cineclubes, nos anos 1980, se a gente queria encher a sala era só programar Betty Blue — contou em um vídeo no Instagram o porto-alegrense radicado em São Paulo André Sturm, criador da Pandora Filmes e diretor dos filmes Sonhos Tropicais (2001) e A Conspiração Condor (2025).
Segundo Sturm, em dado momento Betty Blue sumiu de circulação por causa da prática da empresa estadunidense que fazia sua distribuição — "depois de cinco anos, eles destruíam as cópias". Recentemente, após "anos e anos tentando descobrir quem tinha os direitos do filme", ele conseguiu comprá-lo para trazer de volta ao Brasil.
— Para você que assistiu na época, para você que só ouviu falar e para você que nunca ouviu falar — completou Sturm.

Quem viu nunca esqueceu. Lembra até onde assistiu. No mesmo post da Pandora Filmes no Instagram, uma usuária recordou as lendárias sessões da meia-noite no Cine ABC, o saudoso cinema que ficava localizado no número 77 da Avenida Venâncio Aires, em Porto Alegre, e que fechou as portas em 1994. Betty Blue foi sucesso de bilheteria. Na Zero Hora de 4 de agosto de 1988, o crítico Hiron Goidanich, o Goida, contou que o filme havia atraído "um público quase recorde" nas três exibições de julho, e a demanda fez o ABC repetir a dose poucas semanas depois.
No mesmo texto, Goida elencou virtudes deste que é um dos mais famosos cult movies: "Betty Blue é uma mistura de loucura e descontração, de erotismo e crítica social, de vida, amor e morte. Uma crônica de dois pobres amantes tentando fugir de um destino medíocre".
Indicado ao Oscar de melhor filme internacional, ao Globo de Ouro e ao Bafta da mesma categoria, Betty Blue foi o maior êxito na carreira de Jean-Jacques Beineix, diretor de Diva: Paixão Perigosa (1981), A Lua na Sarjeta (1983) e Roselyne e os Leões (1988). A partir dos anos 1990, o cineasta francês foi gradualmente sumindo de cena. Quando morreu de leucemia, em 2022, já estava há nove anos sem lançar uma nova obra.
O título também revelou a atriz Béatrice Dalle, hoje com 61 anos, e legou ao mundo uma das mais belas e icônicas trilhas sonoras de Gabriel Yared, compositor francês nascido no Líbano que mais tarde ganhou o Oscar por O Paciente Inglês (1996) e concorreu por O Talentoso Ripley (1999) e Cold Mountain (2003). Com piano, sintetizadores, saxofone, acordeão, guitarra, cítara, harmônica e percussão, a música de Betty Blue é fundamental para hipnotizar o espectador e estabelecer a atmosfera de paixão, melancolia e instabilidade. Sua melodia espiralada alude tanto ao ritmo dos corpos durante o sexo quanto à natureza da obsessão. Os rompantes de um instrumento remetem tanto ao êxtase na cama de um casal quanto à iminente queda em um abismo emocional.

A trama é baseada em romance escrito por Philippe Djian. Jean-Hugues Anglade interpreta Zorg, um escritor frustrado que sobrevive aceitando trabalhos inferiores a seu talento, como pintar os bangalôs de uma praia no sul da França. Ele leva uma vida simples e tranquila — até a chegada da bela Betty, a personagem de Beátrice Dalle.
Desinibida, impulsiva e imprevisível, ela invade a rotina de Zorg como uma tempestade. Sob a deslumbrante direção de fotografia de Jean-François Robin, os dois engatam um relacionamento cheio de alegria e de tesão — é antológica o plano-sequência da cena de abertura, que mostra uma transa ardente. Mas Betty é um paradoxo ambulante: por vezes, simboliza o amor pela vida e pela criação artística; em outras, a destruição.
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