
Foi rodado em Novo Hamburgo, no Vale do Sinos, o filme escolhido para encerrar a 22ª edição do Fantaspoa. Neste domingo (26), o Festival Internacional de Cinema Fantástico de Porto Alegre vai exibir duas vezes Remanente: Voltagem (2026). A primeira, com acessibilidade e apresentação do diretor Kapel Furman, será no CineBancários, às 19h. Depois, às 20h30min, na Cinemateca Capitólio, o cineasta e integrantes da equipe participarão de uma sessão comentada.
Paulista de 49 anos, Furman é diretor, roteirista e artista de efeitos especiais. Seu currículo nessa última área tem cerca de 80 títulos, entre longas e curtas. Concorreu três vezes ao prêmio Grande Otelo, da Academia Brasileira de Cinema, na categoria de melhores efeitos visuais: por O Cheiro do Ralo (2006), por A Encarnação do Demônio (2008) e por Bróder (2010).
Remanente: Voltagem é seu quarto longa-metragem. Antes, escreveu e dirigiu Pólvora Negra (2011), A Percepção do Medo (2016, com Armando Fonseca) e Skull: A Máscra de Anhanguá (2020, também com Fonseca).

Na trama, Demian (papel de Ricardo Oliveira) e Victor (interpretado por Ricardo Gelli) são dois paramédicos que encontram um tesouro em um antigo porão e, sem querer, ativam um portal dimensional. Com isso, libertam a criatura conhecida como O Engenheiro, um ser com poderes eletromagnéticos disposto a tudo para recuperar as joias que lhe permitem viajar entre dimensões.
Na entrevista a seguir, Kapel Furman fala sobre as inspirações e influências de Remanente: Voltagem e sobre seu processo de criação.
Entrevista: Kapel Furman, diretor de "Remanente: Voltagem"

Como surgiu a ideia de Remanente: Voltagem?
Eu gosto bastante de fenômenos científicos, filosofia e história (explico daqui a pouco). A ideia surgiu em 2020, quando eu estava lendo crônicas de jornais do Rio Grande do Sul do começo do século 20 (por quê? Porque era 2020) e deparei com uma série de histórias paranormais incríveis. Pensei que seria interessante juntar essas histórias à um folclore que gosto muito que é o do Corpo Seco, ou Bradador, um homem tão ruim que, quando morreu, a terra rejeitou seu corpo e ele foi condenado a vagar no nosso mundo. O primeiro título para o filme foi O Colecionário, por juntar essas histórias.
Mas isso era o pano de fundo, queria tratar de algo que assombra quase a todos e foi ressaltado por 2020 (um dos motivos dos protagonistas serem da área da saúde), que é o a insegurança econômica social e o desespero de precisar correr o tempo inteiro sem saber para onde, essa chamada crise da pós-pós-modernidade. Talvez ficasse pedante se eu contasse isso literalmente, então por que não transformar em uma alegoria com a história de um monstro? Quem está assistindo pode ver dessa forma ou só aproveitar um filme de criaturas.
O título final vem dessa junção. Remanência é um fenômeno da física que, simplificando, é a energização de um material após a remoção do campo magnético exterior, ou seja, quando algo permanece magnetizado quando removemos o imã. Algo que permanece ali, provocando e angustiando (no caso do ser humano).
Que filmes influenciaram Remanente: Voltagem? Por quê?
Adoro os filmes clássicos de monstros, A Múmia, O Homem Invisível, O Monstro da Lagoa Negra etc. E, claro, os de Ray Harryhausen (1920-2013, gênio da animação stop-motion). Principalmente pela forma como dão vida para esses monstros, mas também pela narrativa. Remanente: Voltagem é basicamente a minha busca por querer recriar esses sentimentos através de um monstro com uma releitura de um folclore brasileiro.
Os efeitos práticos e bonecos são uma resposta aos excessos de CGI e IA (inteligência artificial), mas também balanceiam a visão da personagem que em primeiro lugar ouve a história, uma criança, então era importante manter a aura de um conto de fadas sendo contado. E como em todo conto de fadas, temos nossa dose de sangue.
Entendo a arte, e aqui o cinema, não como um espelho da realidade, mas sim como uma captura da nossa percepção sobre essa realidade quando ela não é suficiente. O gênero fantástico me fornece essas ferramentas para eu conseguir expressar como vejo o mundo.
Por que foi filmado em Novo Hamburgo? De que forma os cenários influenciaram a história?
Diria que, acompanhando a parte de ocultismo interdimensional do filme, a produção é um resultado de alinhamento dos planetas. A ideia veio do conjunto de crônicas que se passam no interior do Rio Grande do Sul, em especial Novo Hamburgo, somadas ao folclore do Bradador. Apresentei o projeto para o João Pedro Fleck e o Nicolas Tonsho, da produtora Fantaspoa, que conheço faz uns bons anos e que já haviam coproduzido dois longas meus.
Por esse alinhamento interplanetário, em 2020 me contaram que a Secretaria de Cultura de Novo Hamburgo estava com um edital de longas-metragens do polo cinematográfico da cidade. Pensamos: vamos inscrever o projeto. Os astros colaboraram e agradecemos muito a Secretaria de Cultura por possibilitar que o filme acontecesse.
Uma das características de Novo Hamburgo de que gosto bastante é a união da cidade histórica com a cidade moderna. Busquei identificar os cenários das crônicas ali da mesma forma que na história do filme começamos na década de 1920 e continuamos nos tempos atuais.
Você tem uma longa e reconhecida trajetória dentro do cinema fantástico, escrevendo e dirigindo curtas e longas, trabalhando com efeitos especiais, criando e desenvolvendo personagens. Pode falar sobre como é seu processo de criação em geral e sobre como concebeu a criatura de Remanente: Voltagem? Quais são os principais desafios na construção dos efeitos e dos monstros?
Pelo menos para mim, o maior desafio do cinema é que cada filme são pelo menos três filmes: o que a gente escreve, e talvez o único momento de aparente controle; aquele que a gente consegue filmar dentre os problemas que a realidade joga na nossa cara; e por último, aquele que a pessoa espectadora vê e interpreta. E sobre esse não temos controle algum.
Então, meu processo de criação é focado nos dois primeiros. Quando escrevo as cenas, penso no que quero contar, mas também penso nos fatores reais de construção daquela cena, quanto custa, quanto tempo leva para fazer, ou seja, vou conseguir fazer?
O mundo das ideias é maravilhoso porque te permite fazer tudo. Infelizmente, é também um mundo que por isso pode te levar a uma frustração gigante.
São esses limites que tento impor no meu processo. Mas até chegar aí vou alimentando as minhas ideias com influências criativas de artes em geral, em especial histórias em quadrinhos, para criar a parte visual. Em um segundo momento, para evitar uma personagem de uma ou duas dimensões, somo ao aspecto visual uma construção de conceitos filosóficos, históricos e científicos que provavelmente só eu vou entender. Por exemplo, os poderes eletromagnéticos de Anton Meiher em Remanente: Voltagem não são ferromagnéticos, mas sim paramagnéticos quânticos intensificados pela alta temperatura dos raios elétricos. Já a estética da construção do portal é baseada fortemente nos quadros de abstracionismo místico da artista Hilma af Klint. Viu? Quantas pessoas teriam entendido isso?
As criaturas de Remanente: Voltagem foram frutos desse processo e também da questão que apresentei: como retratar de forma física a angústia deteriorante? Por isso que a criatura incansavelmente começa como um cadáver e vai se recompondo conforme recupera seu tesouro, para no final ter que começar tudo de novo.

Você acha que existem denominadores comuns no cinema de horror brasileiro? Quais seriam?
Diria que um denominador comum no gênero fantástico brasileiro é o aspecto autoral. Dá para se entender que a pessoa que quer realizar um filme fantástico de forma independente e de baixo orçamento ou é masoquista ou doida, ela está fazendo porque precisa fazer, e as lágrimas, o sangue e o suor aparecem nos filmes. Acho que o nosso cinema fantástico se destaca por isso, reconhecemos na tela a autoria de quem fez.
Qual é o sentimento por ser o filme de encerramento do 22º Fantaspoa?
Pelo menos para mim, festivais de cinema fantástico como o Fantaspoa são os mais inclusivos possíveis, em termos de pessoas, claro, mas também em termos de ideias e criatividade. São nesses festivais que vamos encontrar o ápice da criatividade humana independentemente das condições de realização, assistimos nos filmes à necessidade de se expressar, seja de forma diferente, esquisita ou bizarra. Todas são bem-vindas. O Fantaspoa é um festival que não é só sobre filmes, é sobre conectar quem os realiza e quem os assiste, abraçando a todos. Dá para querer lugar melhor para se exibir um filme?
Qual é a história que você ainda quer contar no cinema?
Gosto muito das possibilidades que o nosso folclore e a formação da cultura brasileira, através da influência de muitos povos, apresentam. São os blocos de construção narrativa ideais para tratarmos de assuntos complicados. O cinema é uma mídia excelente porque é uma das poucas, além dos videogames, que possibilitam colocar diversas artes e outras mídias dentro de uma só. Somar isso à possibilidade de dar vida a criaturas fantásticas é a razão porque quero fazer cinema.
Tenho muitas histórias que quero contar, mas sempre tento fazer algo diferente no próximo projeto. Ultimamente, estou experimentando as possibilidades da animação stop-motion, vamos ver no que vai dar.
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