
Um filmaço dirigido e protagonizado por Clint Eastwood apareceu no menu da Netflix nesta sexta-feira (10): Gran Torino (2008). O título também está disponível no Amazon Prime Video e na HBO Max.
Esnobado no Oscar, mas considerado o quarto melhor filme de 2008 pelos críticos da revista francesa Cahiers du Cinèma, Gran Torino é a segunda maior bilheteria entre os 40 títulos assinados por Eastwood. Com US$ 274 milhões arrecadados, só perde para Sniper Americano (2014), que faturou quase o dobro (US$ 547 milhões).
A popularidade deveu-se bastante ao anúncio de que aquele seria o último trabalho como ator de Eastwood, então com 78 anos. Mas ele quebrou sua promessa ao atuar depois em Curvas da Vida (2012), de Robert Lorenz, o ótimo A Mula (2018) e o fraco Cry Macho (2021) — ambos de sua própria autoria.
Seu personagem em Gran Torino, chamado de Walt Kowalski, reúne características que o alinham a pelo menos outros três protagonistas encarnados por Clint Eastwood: o ladrão Luther Whitney, de Poder Absoluto (1997), o treinador de boxe Frankie Dunn, de Menina de Ouro (2004) e Earl Stone, o vovô que transporta drogas em A Mula. Aliás, sua biografia remete à do próprio cineasta.
Walt, Luther, Frankie e Earl são veteranos da Guerra da Coreia (1950-1953), que teve intervenção de soldados dos Estados Unidos. Eastwood não chegou a combater, mas serviu ao Exército durante dois anos, no mesmo período do conflito militar, trabalhando como salva-vidas e instrutor de natação no Forte Orde, na Califórnia.
Walt, Luther, Frankie e Earl são pais ausentes ou afastados dos filhos. É inevitável pensar na vida pessoal de Eastwood, que nunca parou de trabalhar e teve dois divórcios, vários casos extraconjugais e (pelo menos) oito filhos com seis mulheres diferentes.

Na trama de Gran Torino, Walt Kowalski passa os dias solitários entre pequenos consertos, umas garrafas de cerveja e visitas mensais ao barbeiro. Morador de um bairro pobre do subúrbio de Detroit, no Estado do Michigan, sua rotina se altera com a chegada de novos vizinhos: são imigrantes e descendentes de asiáticos de origem hmong.
Walt acaba se aproximando deles depois que um dos garotos, Thao Vang Lor (papel de Bee Vang), tenta roubar seu precioso carro, um Gran Torino 1972, para a iniciação do adolescente em uma gangue comandada por seu primo.
— Gran Torino é um marco na carreira de Clint Eastwood porque representa uma desconstrução de um tipo de papel que ele consagrou no cinema em diferentes gêneros — analisa o crítico gaúcho Waldemar Dalenogare, que na terça-feira (7) fez uma sessão comentada do filme na Cinemateca Paulo Amorim, em Porto Alegre. — Clint pega o arquétipo do homem silencioso, durão e justiceiro para fazer uma autocrítica levando em conta o peso da violência. É uma obra que coloca como foco da análise o envelhecimento, a mudança da sociedade dos EUA, e, com isso, aborda a obsolescência da velha figura que resolve tudo na força, quando bem entender.
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