
Concorrer em muitas categorias do Oscar não garante ganhar pelo menos uma estatueta dourada na premiação da Academia de Hollywood. Vide o histórico de Martin Scorsese, diretor de três filmes que tinham 10 indicações mas não conquistaram nada: Gangues de Nova York (2002), O Irlandês (2019) e Assassinos da Lua das Flores (2023).
No Oscar de 2026, realizado no dia 15 de março no Dolby Theatre de Los Angeles, o maior perdedor foi Marty Supreme (2025). Adicionado recentemente ao menu do Amazon Prime Video, o título não venceu nenhuma das nove categorias que disputava: melhor filme, direção (Josh Safdie), ator (Timothée Chalamet), roteiro original, fotografia, montagem, design de produção, figurinos e seleção de elenco. Mas esse desempenho não anula os méritos deste filmaço.
Marty Supreme é o primeiro longa-metragem solo de Josh Safdie desde O Prazer de Ser Roubado (2008). Entre um e outro, o cineasta nova-iorquino de 41 anos ele manteve uma bem-sucedida parceria com seu irmão caçula, Benny Safdie, 39. Juntos, fizeram filmes como Amor, Drogas e Nova York (2014), Bom Comportamento (2017) e Joias Brutas (2019).

Eles romperam em 2023, por causa de um grave episódio nos bastidores de Bom Comportamento que voltou à tona na imprensa em janeiro, por conta do Oscar. Consta que Josh não interrompeu as filmagens de uma cena em que o já falecido ator amador Buddy Duress exibiu seu pênis e fez propostas obscenas a uma atriz de 17 anos que fazia o papel de uma prostituta. A cena foi cortada e nunca exibida.
Benny também lançou-se a um projeto individual em 2025, Coração de Lutador: The Smashing Machine, que mereceu o Leão de Prata de melhor direção no Festival de Veneza e concorreu ao Globo de Ouro de ator em drama (Dwayne Johnson) e de atriz coadjuvante (Emily Blunt). No Oscar, foi indicado apenas na categoria de maquiagem e cabelos.
Se em Coração de Lutador Benny, além de sair de Nova York, adotou um tom contido na direção e foi convencional na narrativa, em Marty Supreme Josh mantém os pés na sua cidade natal e exibe o estilo vibrante e a história caótica característicos das obras anteriores dos irmãos Safdie. Como escreveu o crítico e professor Arthur Tuoto, o diretor "converte sua estética nervosa em extensão direta da subjetividade instável" do protagonista.
Com duas horas e meia de duração, esta alucinada comédia dramática é ambientada no início da década de 1950 — mas a trilha sonora inclui bandas dos anos 1980, como New Order e Tears for Fears. A trama é livremente inspirada na trajetória de Marty Reisman (1930-2012), um campeão do tênis de mesa. Timothée Chalamet, que aprendeu a cantar e a tocar violão e gaita para encarnar Bob Dylan em Um Completo Desconhecido (2024) — outro grande perdedor do Oscar —, agora diz ter treinado pingue-pongue por cerca de seis a sete anos. Consta que ele praticava até nos intervalos de outras filmagens, como as de Wonka (2023) e Duna: Parte Dois (2024).

O charme natural de Chalamet provoca um contraste bem-vindo com os traços psicológicos de seu desprezível personagem, chamado de Marty Mauser no filme: ele é egoísta, narcisista, ambicioso, inescrupuloso, inconsequente, trapaceiro. Não tem pudores para mentir, roubar, trair ou proferir piadas sobre a tragédia nos campos de concentração nazistas — "Eu sou judeu, posso falar", defende-se sem corar diante dos atônitos interlocutores.
O filme começa em 1952. Marty trabalha como vendedor de sapatos na loja do seu tio Murray enquanto também compete profissionalmente como jogador de tênis de mesa. O sonho do protagonista é o sonho americano: tornar-se o número 1 — porque a alternativa é ser um fracasso na vida. Para tanto, como a História já mostrou e como o atual presidente dos EUA, Donald Trump, vem mostrando, vale tudo.
Por exemplo: Marty assalta o cofre da sapataria do tio e chega a ameaçar um colega com uma arma para financiar sua viagem a um torneio em Londres. Lá, ele pretende derrotar o campeão Béla Kletzki, personagem baseado no jogador polonês Alojzy Ehrlich (1914-1992), um sobrevivente do Holocausto, e interpretado pelo ator húngaro Géza Röhrig, protagonista do oscarizado O Filho de Saul (2015). Em Marty Supreme, Röhrig estrela uma das cenas mais impactantes dos últimos tempos, por conjugar o horror, o inesperado, o bizarro e o belo.

Em Londres, Marty também vai conhecer Kay Stone (apropriadamente vivida por Gwyneth Paltrow), uma ex-estrela de Hollywood que busca retomar o prestígio artístico após se casar com um empresário milionário, Milton Rockwell (personagem de Kevin O'Leary, responsável por diálogos tão cortantes quanto engraçados). Lá, surge ainda um craque japonês que é surdo, Koto Endo, papel de Koto Kawaguchi, ele próprio um mesatenista com deficiência auditiva.
Aliás, a galeria de coadjuvantes é um dos trunfos de Marty Supreme. Vale destacar Odessa A'zion, na pele de Rachel Mizler, uma mulher casada que tem um caso com Marty, o rapper Tyler, the Creator, que faz o taxista Wally, e o veterano cineasta nova-iorquino Abel Ferrara, que encarna o gângster Ezra Mishkin. Os caminhos de todos podem se cruzar em uma montanha-russa cheia de acidentes, desvios e becos sem saída que Josh Safdie pilota com maestria. Eis um diretor que é senhor absoluto do caos.
Josh Safdie, o recordista frustrado

Marty Supreme transformou Josh Safdie em um dos recordistas do Oscar, logo na sua estreia na premiação da Academia de Hollywood. O cineasta nova-iorquino de 41 anos competiu em quatro categorias: melhor filme, como um dos produtores, direção, roteiro original, assinado com Ronald Bronstein, e edição, também dividida com Bronstein.
Safdie igualou a marca de quatro cineastas, mas ele é o único que não ergueu nenhum Oscar. Warren Beatty recebeu quatro indicações pelo mesmo trabalho duas vezes: por O Céu Pode Esperar (1978) e por Reds (1981), disputou os troféus de melhor filme, direção, ator e roteiro (adaptado no primeiro caso e original no segundo). Ganhou o de diretor, por Reds.
Por Roma (2018), o mexicano Alfonso Cuáron competiu nas categorias de melhor filme, direção, roteiro original e fotografia. Venceu em direção e em fotografia, e Roma também conquistou o Oscar de longa internacional — mas esse troféu fica com o país da produção.
Nomadland (2020) valeu à chinesa Chloé Zhao indicações ao Oscar de melhor filme, direção, roteiro adaptado e edição. Ela foi premiada nas duas primeiras categorias.
No ano passado, Sean Baker tornou-se a primeira pessoa a ganhar quatro estatuetas douradas pelo mesmo filme. Levou o principal Oscar, como um dos produtores de Anora (2024), o de melhor direção, o de melhor roteiro original e o de melhor edição.
Walt Disney (1901-1966) também recebeu quatro prêmios na mesma edição, em 1954, mas foi por quatro títulos diferentes. E o sul-coreano Bong Joon-ho também subiu quatro vezes ao palco, quando Parasita (2019) conquistou as categorias de melhor filme, direção, roteiro original e longa internacional, mas, repetindo, este último Oscar vai para o país ganhador.
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