
Só o carisma do ator estadunidense Yahya Abdul-Mateen II e a curiosidade — talvez mórbida — do espectador brasileiro justificam assistir até o fim a série Homem em Chamas (Man on Fire, 2026), lançada nesta quinta-feira (30) pela Netflix.
Com sete episódios, a série foi criada por Kyle Killen, que desenvolveu o seriado de ficção científica Halo (2022-2024), e dirigida por Steven Caple Jr., dos filmes Creed II (2018) e Transformers: O Despertar das Feras (2023), Clare Kilner, que trabalha em A Casa do Dragão desde a primeira temporada, e o brasileiro Vicente Amorim, da minissérie Senna (2024).
Trata-se da adaptação de um romance publicado em 1980 por A.J. Quinnell (1940-2005) que já havia sido levado duas vezes ao cinema. A primeira é quase obscura: Um Homem em Fogo (1987), de Élie Chouraqui, com Scott Glenn no papel principal e disponível no Disney+. A segunda praticamente se tornou uma obra de culto: Chamas da Vingança (2004), uma das cinco parcerias do diretor Tony Scott (1944-2012) com o ator Denzel Washington e presente nos menus da própria Netflix, do Disney+ e do Universal+.

Nos dois filmes, o protagonista é um ex-agente da CIA que se tornou alcoolista e enfrenta a depressão, Creasy, contratado por uma família rica para ser o guarda-costas de uma menina. No primeiro título, ambientado na Itália, a ameaça é a máfia. O segundo se passa na Cidade do México, onde há uma onda de sequestros.
Talvez por acrescentar elementos do segundo livro de A.J. Quinnell sobre Creasy, The Perfect Kill (1992), a série muda bastante coisa, a ponto de descaracterizar a história original. Na comparação com Chamas da Vingança, é mixuruca em ação e em emoção.

Um raro atrativo, pelo menos para os brasileiros, é a troca de cenário: agora estamos no Rio de Janeiro. Mas claro que é um Rio estereotipado, um Brasil para gringo ver e ouvir (a trilha sonora tem samba, funk, bossa nova, até Sangue Latino, de Ney Matogrosso), com passeios no calçadão de Copacabana, vista aérea dos morros cariocas, carros passando por baixo dos Arcos da Lapa e abundância de cenas em uma favela.
Ao mesmo tempo, o Brasil que vemos chega a ser inverossímil: Homem em Chamas inventa a existência de uma organização terrorista que explode prédios por motivação política, a FRP.
Homem em Chamas começa mostrando uma operação militar no México comandada por John Creasy, o personagem de Yahya Abdul-Mateen II, ganhador do Emmy de melhor ator coadjuvante pela minissérie Watchmen (2019), protagonista do terror A Lenda de Candyman (2021) e da série Magnum (2026). Dá tudo errado na missão, e então Creasy cai no álcool e na depressão.
Quatro anos depois, após uma frustrada tentativa de suicídio em uma cidade dos EUA, ele recebe, no hospital, a visita de um antigo colega, Paul Rayburn (interpretado por Bobby Cannavale). Rayburn, que mora no Rio, oferece um emprego a Creasy: trabalhar na segurança do presidente Carmo (vivido pelo paraense Billy Blanco Jr.), o mandatário do Brasil — que, aparentemente, passa mais tempo na capital fluminense do que em Brasília.

Carmo está em plena campanha para a reeleição. Uma pedra no sapato é a tal da FRP, conforme conta Rayburn ao levar Creasy para encontrar o chefe da segurança do presidente, Prado Soares (encarnado pelo pernambucano Thomás Aquino, que se diverte no papel), nas obras de um condomínio:
— O governo tem medo de um ataque terrorista antes das eleições. O presidente Carmo contratou a minha empresa para evitar isso. Essas construções novas são algumas das conquistas de Carmo. Mas para os adversários, ele liga muito para condomínios de luxo e esquece os pobres. Soubemos que os terroristas podem atacar as obras.

Bem, uma tragédia realmente acontece, e cabe a Creasy proteger uma adolescente chamada Poe — personagem da atriz inglesa Billie Boullet, a Anne Frank da minissérie A Small Light (2023) —, descobrir onde está o culpado e buscar vingança. Na jornada, o protagonista vai interagir com um diretor da CIA, Tappen (Scoot McNairy), e uma motorista particular, Valeria (Alice Braga), que tem conexões com lideranças do tráfico de drogas na favela onde moram dois coadjuvantes importantes: Vico (o enérgico Iago Xavier, de Motel Destino) e Livro (o apático Jefferson Batista).
Por onde quer que se olhe, Homem em Chamas tem pouco a oferecer. É um requentado de temas e situações: o transtorno de estresse pós-traumático, a formação das chamadas famílias escolhidas, as conspirações políticas... A propósito desse último item, qualquer espectador acostumado a produções do gênero vai sacar cedo o que está acontecendo. E vai ter frustrada sua expectativa de haver uma crítica sistêmica.

No campo da ação, não há nada que seja memorável, tudo já foi feito antes e melhor. Para piorar, a dinâmica de Creasy com Poe, a começar pelo envelhecimento dessa personagem, é muito diferente daquela de Chamas da Vingança entre o Creasy vivido por Denzel Washington e a Pita interpretada por Dakota Fanning. Também jogam contra o talento incipiente de Billie Boullet e a defasagem de magnetismo da atriz no cotejo com Fanning.
Até pelo excesso de coadjuvantes e subtramas, a série não consegue repetir o contraste entre a amargura do calejado guarda-costas e a doce inocência da menina. E a dupla de Homem em Chamas não consegue estabelecer a conexão emocional que, no filme, nos permite torcer fervorosamente para que Creasy cumpra violentamente sua promessa depois do sequestro de Pita: arranjar o encontro dos homens maus com Deus.
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