
O Telecine, que pode ser acessado via Amazon Prime Video (com sete dias de teste grátis) ou Globoplay, adicionou nesta sexta-feira (10) ao seu menu (Des)controle (2025). Trata-se de um baita filme, que conta com uma poderosa atuação de Carolina Dieckmmann — talvez a melhor de sua carreira, depois da Camila da novela Laços de Família (2000) e da Leona de Cobras & Lagartos (2006), sua primeira vilã de folhetim. E aborda um tema importantíssimo: o alcoolismo e suas consequências.
Aliás, em entrevista à CNN a atriz de 47 anos emocionou-se ao revelar que a personagem a fez revisitar questões pessoais, especialmente a relação com sua mãe, que morreu em 2019:
— Eu via minha mãe beber. Quando li o roteiro, deparei com um ponto de encontro com a personagem, um lugar de filha. Mas, ao mesmo tempo, ela era um pouco a minha mãe.

O enxuto longa-metragem — tem 95 minutos — é dirigido em dupla por Rosane Svartman, de Como Ser Solteiro (1998) e Tainá: A Origem (2011), e Carol Minêm, das séries Todo Dia a Mesma Noite (2023) e Máscaras de Oxigênio Não Cairão Automaticamente (2025). Escrito a 10 mãos, o roteiro parte de um argumento de Iafa Britz, produtora de sucessos comerciais do cinema nacional, como os dois filmes Se Eu Fosse Você (2006 e 2009) e a trilogia Minha Mãe É uma Peça (2013-2019). Em (Des)controle, Iafa também assina a produção e faz uma participação especial, no papel dela própria.
Na cena de abertura, a personagem interpretada por Carolina Dieckmmann desperta no topo do chafariz de uma praça pública do Rio de Janeiro, com vestido de festa e uma garrafa de vinho na mão. O filme retrocede alguns meses para mostrar o cotidiano da protagonista, a escritora Katia Klein, autora de uma bem-sucedida série de livros infantojuvenis.
Katia atravessa uma turbulência. A editora, conforme conta sua agente e melhor amiga, Léo (Júlia Rabello), pressiona pela entrega do novo livro, que já está atrasado por causa de um bloqueio criativo. Em casa, o casamento com Zeca (Caco Ciocler) não vai bem. Aliás, enquanto ele pratica ioga em meio ao caos doméstico e quer fazer uma viagem romântica com a esposa, ela só pensa na lista de tarefas a cumprir.
Essa lista inclui cuidar dos filhos adolescentes, Duda (Stéfano Agostini) e Bernardo (Rafael Fuchs Müller), providenciar o Bar Mitzvah do caçula e lidar com os pais, Levi (Daniel Filho) e Esther (Irene Ravache). Katia sente a sobrecarga característica das mulheres que conciliam a vida familiar com a carreira profissional, a exemplo das personagens do filme Se Eu Tivesse Pernas, Eu te Chutaria (2025) e da série All Her Fault (2025).

Assim, seus 15 anos de sobriedade, um orgulho regado a muitas latas de Coca Zero, estão à beira de um abismo. Qualquer lugar pode se revelar uma cilada, qualquer coisa pode ser gatilho. A recaída é uma questão de tempo.
Se o contexto sugere um dramalhão, saiba que (Des)controle é bastante parcimonioso no emprego da música para induzir a emoção do espectador. As diretoras Rosane Svartman e Carol Minêm deixam as cenas respirarem, dando voz também ao som ambiente. E o filme se permite momentos leves, até engraçados — os escorregões da trilha sonora são justamente quando adota um tom de comédia.
Mas não se engane: embora não seja amargo como os oscarizados Farrapo Humano (1945), de Billy Wilder, e Despedida em Las Vegas (1995), de Mike Figgis, (Des)controle também retrata uma jornada de autodestruição guiada pela dependência do álcool. E este é um problema muito difícil de tratar, pois de um lado há a negação do alcoolista, e de outro, a tolerância e até o incentivo da sociedade ao consumo de bebidas. Não à toa, entre os lemas do Alcoólicos Anônimos (AA) estão "Evite o primeiro gole" e "Um dia de cada vez".

Ao sucumbir à primeira tacinha de vinho, Katia firma uma espécie de pacto com o diabo. O álcool vai trazer a inspiração que faltava e alegrar as suas noites de mulher recém separada — é como diz o título da clássica canção que toca em uma boate, You Make me Feel (Mighty Real), lançada por Sylvester em 1978: "Você faz eu me sentir muito real". Mas o álcool também vai gerar esquecimento, constrangimentos para os filhos, irresponsabilidade, perdas afetivas ou econômicas. A protagonista vai inclusive se colocar em situações de altíssimo risco.
No dia seguinte, vêm a culpa e a cobrança — que acabam sendo empurrões para o copo ou a garrafa. É um ciclo vicioso.
— Fico achando que, se eu beber, vou me sentir melhor — diz Katia.
Como sair dessa enrascada? (Des)controle aponta um caminho em uma sequência absolutamente comovente. Chorei tanto que saí do cinema com o rosto lavado.
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