
O grande crime do Oscar de 2026 foi ignorar totalmente o melhor filme do ano passado. Trata-se de Sorry, Baby (2025), adicionado na terça-feira (31) ao menu do Telecine, que pode ser acessado via Amazon Prime Video, com sete dias de teste grátis, e Globoplay. Escrito, dirigido e protagonizado por Eva Victor, é um filmaço sobre trauma.
Vale um alerta duplo, de spoiler e de gatilho, porque Sorry, Baby não revela logo de cara que aborda um tema muito sensível, embora equilibrando a contundência com delicadeza, otimismo e até humor. Ao fim da jornada, em vez de estar arrasado o espectador pode ficar com o coração quentinho.
Sorry, Baby é o primeiro longa-metragem assinado por Eva Victor, estadunidense de 32 anos nascida em Paris que se identifica como não binária. Ela interpretou a personagem Rian no seriado Billions (2020-2023) e realizou, para o canal Comedy Central, a série em quatro episódios Eva vs. Anxiety (2019-2020).
O filme fez sua estreia mundial no Festival de Sundance, nos EUA, onde ganhou o prêmio de melhor roteiro e foi adquirido pela produtora e distribuidora A24, a mesma dos vencedores do Oscar Moonlight (2016) e Tudo em Todo o Lugar ao Mesmo Tempo (2022). A National Board of Review, uma associação de críticos estadunidenses fundada em 1909, elegeu Victor como a melhor diretora estreante de 2025. No Globo de Ouro, ela concorreu ao troféu de melhor atriz em filme de drama. No Film Independent Spirit Awards, Sorry, Baby conquistou as categorias de roteiro original e atuação coadjuvante (Naomie Ackie).
Eva Victor inspirou-se nas suas próprias experiências para escrever Sorry, Baby, que é dividido em cinco capítulos. Sua personagem, Agnes, de 20 e tantos anos, é uma professora de Literatura em uma universidade da zona rural da Nova Inglaterra, nos EUA. Quando o filme começa, ela está recebendo a visita de sua melhor amiga, Lydie (interpretada por Naomi Ackie, de Pisque Duas Vezes), que está grávida. As duas jantam com ex-colegas da faculdade. Esse reencontro deixa entrever que há coisas do passado da protagonista não resolvidas: é como se ela estivesse presa na areia movediça, enquanto a vida dos outros ao seu redor continua.

Então, Sorry, Baby recua no tempo no segundo capítulo, chamado The Year with the Bad Thing (O Ano da Coisa Ruim). Como o título entrega, voltamos ao ano em que Agnes, ainda uma estudante universitária que morava com Lydie, viveu um episódio devastador. (Reforço o alerta de spoiler e de gatilho.)
Aluna brilhante, Agnes foi estuprada pelo professor que mais admirava, Preston Decker (papel de Louis Cancelmi). Um típico caso em que o docente usa de sua superioridade hierárquica e de sua condição de figura adorada para coagir em nome de seu desejo.
A violência sexual não é mostrada: ocorre a portas fechadas, na casa de Decker, filmada do lado de fora, com câmera estática. Pequenos cortes marcam a passagem do tempo: a luz do dia se encolhe, a noite engole a tarde. Uma janela iluminada nos força a imaginar o que está acontecendo naquele quarto.
A diretora evita a pornografia do trauma, para poupar espectadoras que já vivenciaram um caso de abuso, mas convém avisar que é bastante explícito o monólogo de Agnes quando ela conta para Lydie sobre o estupro. Essa cena entre as duas personagens ilustra duas questões centrais em Sorry, Baby: como as vítimas processam a violência sofrida e seu impacto emocional contínuo; e como a amizade e a empatia podem salvar vidas.

Lydie ataca ferozmente a falta de sensibilidade do médico que examina Agnes e, a certa altura, manifesta preocupação com a possibilidade de a amiga se matar. Em outro momento, um dono de lanchonete encarnado por John Carroll Lynch oferece à protagonista alívio durante um ataque de pânico — além de um sanduíche gostoso. Aliás, esse é o título de um dos capítulos na tradução brasileira, O Ano do Sanduíche Gostoso.
Há um contraste constante em Sorry, Baby que se torna um trunfo do filme: situações de drama, angústia e depressão coexistem com momentos dignos de uma comédia. Em entrevista à jornalista Alexandra English, da Elle australiana, Eva Victor comentou:
— Já me perguntaram por que fiz um filme sobre isso com humor. Bem, qualquer pessoa que tenha passado por algo parecido sabe que o sarcasmo entra em jogo. É uma forma de seguir adiante, de apontar o absurdo do que aconteceu. Acho que é algo muito humano continuar rindo.
Em outra entrevista, para o site Deadline, dos EUA, Eva Victor falou sobre a estrutura não linear da narrativa. Ao ir e voltar no tempo, Sorry, Baby reflete como pode se sentir uma pessoa traumatizada: o passado está sempre à espreita, pronto para reabrir cicatrizes, e não raro ela gira em círculos, sem conseguir andar para frente.
— Grande parte da vida, após um trauma, envolve o processo de cura, que é algo para a vida toda — disse a cineasta e atriz. — Não existe um destino final. Existem marcos, mas não é como se você chegasse a determinado ponto e, em seguida, esquecesse o que foi feito com você.
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