
Está procurando uma série para maratonar neste fim de semana? Seus problemas acabaram.
Nesta coluna, eu fiz uma lista com 25 minisséries que considero maravilhosas. Ficaram de fora produções sensacionais que nasceram nesse formato, mas depois foram transformadas em séries com mais de uma temporada, como True Detective, O Homem das Castanhas, The White Lotus e Treta.
Todos os títulos estão disponíveis no streaming, nas plataformas Amazon Prime Video, Apple TV, Disney+, Globoplay, HBO Max e Netflix.
A ordem é puramente alfabética. Clique nos links se quiser saber mais.
1) Adolescência (2025)

Foi o fenômeno de audiência e de repercussão do ano passado. De prêmios também: Adolescência ganhou oito troféus no Emmy, quatro no Globo de Ouro e quatro no Critics Choice. Com quatro episódios dirigidos pelo britânico Philip Barantini, cada um em um único plano-sequência, a minissérie tem como ponto de partida a prisão de um garoto de 13 anos, Jamie Miller (em uma interpretação assombrosa do estreante Owen Cooper), que é acusado de assassinar uma menina.
Adolescência ilustra o abismo que há entre os adultos e os adolescentes, que têm urgências, inseguranças e explosões de hormônios e sentimentos potencializadas na era do Instagram e do TikTok. Mostra como o bullying digital e as expectativas sobre a masculinidade podem criar situações de perigo — ou algo pior. A trama permite a pais e professores espiarem pelo buraco da fechadura. Ao mesmo tempo, oferece um espelho: na vida atribulada, distante e remota dos tempos atuais, estamos conseguindo dar amparo e orientação para nossos filhos? Estamos sendo um exemplo positivo? (Netflix, 4 episódios)
2) Band of Brothers (2001)

A minissérie se baseia no livro homônimo de Stephen E. Ambrose e tem entre os produtores Steven Spielberg e Tom Hanks (que dirigiu o quinto capítulo). É uma dramatização da história da Companhia Easy, desde o seu treinamento nos Estados Unidos para a invasão da Normandia até a capitulação da Alemanha na Segunda Guerra Mundial.
Vencedora de seis Emmys, Band of Brothers encontra o equilíbrio entre a grande História e as pequenas vidas de um grupo de soldados. O herói é o tenente Winters (personagem de Damian Lewis), que enfrenta o horror e faz o que é preciso fazer sem perder a sua noção do que seja humano ou correto. (HBO Max, 10 episódios)
3) Bebê Rena (2024)

Vencedora de seis prêmios no Emmy, três Baftas e dois Globos de Ouro, esta minissérie impactante e inesquecível foi criada pelo escocês Richard Gadd para processar publicamente seu trauma. Ele mesmo interpreta o personagem principal, Donny Dunn, que trabalha como garçom em um pub de Londres enquanto sua carreira de comediante não decola. Logo conhecemos Martha Scott (papel de Jessica Gunning), a versão ficcional da mulher que, ao longo de quatro anos, enviou para Gadd cerca de 41 mil e-mails, 350 horas de mensagens de voz, 746 tuítes e 106 páginas de cartas, criando para ele apelidos como o Bebê Rena do título.
Martha é obesa, transparece solidão e diz não ter dinheiro nem para comprar um chá. "É um sentimento arrogante, sentir pena de alguém que mal conhece, mas eu senti. Senti pena dela", afirma o protagonista na narração em off — ferramenta dramatúrgica que amplia o caráter confessional e terapêutico de Bebê Rena. Mas essa é a só a superfície: há algo mais pesado que Donny demora para trazer à tona. (Netflix, 7 episódios)
4) Black Bird (2022)

Nesta minissérie baseada em um caso real, Taron Egerton interpreta James Keene, o Jimmy, um filho de policial (o último papel de Ray Liotta) e um promissor jogador de futebol americano que enveredou para o tráfico de drogas. Dono de um pequeno império em Chicago, ele acaba preso em uma operação do FBI. Enquanto isso, vemos o surgimento dos outros dois personagens importantes de Black Bird.
Um é o detetive vivido por Greg Kinnear, que investiga o desaparecimento — e provável assassinato — de jovens mulheres. O outro é o principal suspeito, Larry Hall, um tipo excêntrico que adora participar de reencenações da Guerra Civil e é encarnado por Paul Walter Hauser. A combinação de seu físico roliço com a voz estridente e as costeletas suíças do personagem transformam Larry em um sujeito ora bizarro, ora patético, ora perigoso — merecidamente, Hauser venceu o Globo de Ouro, o Critics' Choice e o Emmy de ator coadjuvante. Essas duas narrativas, a de Jimmy e a de Larry, são cruzadas pelo escritor policial Dennis Lehane. (Apple TV, 6 episódios)
5) Black Rabbit (2025)

Jude Law interpreta Jake Friedken, o proprietário e cofundador do Black Rabbit, uma mistura de bar e restaurante com três andares localizada em Nova York, bem perto da rampa de acesso para a Ponte do Brooklyn. Aliás, a ambientação, que vai do cru ao charmoso, é um dos trunfos da minissérie criada por Zach Baylin e Kate Susman. Quando Black Rabbit começa, Jake está celebrando uma noite muito especial no gastropub onde a chef Roxie (vivida por Amaka Okafor) serve "hambúrgueres de 50 dólares". A clientela inclui Wes Williams (Sope Dirisu), músico de sucesso e um dos investidores do restaurante. Do lado de fora, uma dupla mascarada se prepara para tentar roubar as joias valiosíssimas que serão exibidas na festa.
Assim que o assalto ao restaurante chega a um ponto de ebulição, a narrativa recua um mês no tempo, quando Jake vivia a expectativa da presença da crítica do jornal The New York Times ao seu estabelecimento. Entrementes, conhecemos seu irmão mais velho, o pé-rapado Vince (papel de Jason Bateman), que tem um histórico de compulsão — jogo, bebida, drogas, apostas... Após se meter em uma senhora enrascada, ele acaba reaparecendo na vida no mano caçula. Aí, a trama de suspense se mistura esplendidamente a um drama familiar: quando os laços que unem se tornam laços que prendem? (Netflix, 8 episódios)
6) Cassandra (2025)

Assinada por Benjamin Gutsche, a minissérie alemã mistura elementos de terror, suspense psicológico e ficção científica, atraindo fãs de séries como Black Mirror. Na trama, a família Prill decide recomeçar sua vida em um casarão isolado no interior da Alemanha após uma grande perda. O que deveria ser uma nova chance de vida, porém, se transforma em um pesadelo quando eles descobrem que a casa é controlada por Cassandra (Lavinia Wilson), uma assistente virtual que estava inativa havia 50 anos.
A minissérie aborda questões como privacidade, ética tecnológica e os perigos da inteligência artificial. Mas não só isso: Cassandra também faz uma crítica ao machismo, desconstruindo a figura do homem heroico. Os personagens masculinos são ora negligentes, ora ignorantes, ora passivos. (Netflix, 6 episódios)
7) Chernobyl (2019)

Criada por Craig Mazin, apresenta uma versão ficcional do pior acidente nuclear da história, o da usina de Chernobyl, ocorrido entre 25 e 26 de abril de 1986 perto da cidade de Pripyat, na Ucrânia. Ao reconstituir suas consequências imediatas e as primeiras ações tomadas pelo governo soviético, a obra ganhou assustadora atualidade durante a pandemia: cenas e falas parecem refletir o que vimos e ouvimos desde o surgimento do coronavírus.
Chernobyl arrebatou 10 prêmios Emmy, incluindo melhor minissérie, e concorria a outros nove, entre eles ator (Jared Harris, no papel do renomado químico Valery Legasov), atriz coadjuvante (Emily Watson, como a fictícia cientista Ulana Khomyuk) e ator coadjuvante (Stellan Skarsgård, que interpretou Boris Shcherbina, vice-presidente do Conselho de Ministros da URSS de 1984 a 1989, designado para supervisionar a gestão da crise). O elenco multifacetado — que inclui Jessie Buckley como a esposa grávida de um bombeiro e Paul Ritter como o engenheiro que comandou o fatídico teste na usina — permite enxergarmos as dimensões científica, política e humana do desastre. (HBO Max, 5 episódios)
8) A Cidade É Nossa (2022)

Não chega a ser uma continuação da cultuada The Wire (2002-2008). Mas esta minissérie também foi criada pelo ex-repórter policial David Simon (aqui, na companhia do escritor George Pelecanos); também se passa em Baltimore, cidade no Estado de Maryland que é, estatisticamente, uma das mais violentas no mundo; e também retrata a atuação da polícia local. Enquanto alguns tentam fazer alguma coisa contra o narcotráfico e o crime organizado, mesmo sabendo que suas chances estão entre mínimas e nenhuma, outros apostam na truculência e/ou enveredam para a corrupção.
A Cidade É Nossa tem uma estrutura narrativa que requer atenção, com vários núcleos de personagens e alternâncias não muito claras entre o passado e o presente. Mas a recompensa é alta para quem curte histórias sobre os meandros policiais. Jon Bernthal interpreta o sujo sargento Wayne Jenkins, figura central no força-tarefa do combate às armas. Wunmi Mosaku (indicada ao Oscar 2026 de atriz coadjuvante por Pecadores) é Nicole Steele, uma advogada designada pela Justiça federal para apurar casos de desrespeito aos direitos civis. Jamie Hector faz Sean Suiter, um detetive de Homicídios que acaba se envolvendo com Jenkins. Josh Charles encarna Daniel Hersl, sobre o qual pesam várias denúncias de maus-tratos. E Dagmara Dominczyk está no papel de Erika Jensen, uma agente do FBI que investiga as ações de Jenkins e companhia. O elenco inclui David Corenswet, o novo Superman. (HBO Max, 6 episódios)
9) Cortina de Fumaça (2025)

As perguntas suscitadas por esta minissérie policial criada pelo escritor Dennis Lehane despertam mais curiosidade do que o habitual: quais são as motivações dos incendiários? Qual é o seu modus operandi? O que o fogo traz de recompensa? O que a fumaça pode estar encobrindo?
Em Cortina de Fumaça, Taron Egerton interpreta Dave Gudsen, um investigador de incêndios criminosos que tem pretensões literárias. A contragosto, Gudsen terá de formar uma dupla com a detetive Michelle Calderone (Jurnee Smollett), uma policial que carrega um pesadíssimo trauma familiar relacionado justamente a fogo. O objetivo é deter não apenas um, mas dois incendiários que vêm agindo na região, ora causando apenas danos materiais e prejuízos financeiros, ora provocando mortos e feridos. Não vou dar spoiler, mas preciso dizer: o final é antológico. (Apple TV, 9 episódios)
10) Disclaimer (2024)

"Disclaimer" é o nome dado às declarações de isenção de responsabilidade, uma proteção contra possíveis problemas legais, como aqueles avisos, nas primeiras páginas de um livro de ficção, de que "qualquer semelhança com pessoas vivas ou mortas é mera coincidência". A protagonista vivida por Cate Blanchett é a documentarista Catherine Ravenscroft, que construiu sua reputação ao trazer à tona os erros e as transgressões de governos, empresas e pessoas proeminentes. Agora, ela se vê às voltas com um livro (enviado pelo personagem do espantoso Kevin Kline) que expõe um episódio nefasto de quando era mais jovem.
A trama é perfeita para quem curte segredos de família, mistérios mórbidos a desvendar e um vaivém entre o presente e o passado. A forma também seduz: Disclaimer intercala três pontos de vista, talvez nenhum deles absolutamente confiável, como a ilustrar o quão podem ser fabricadas, ou seja, não exatamente reais, as histórias que contamos sobre nós mesmos e aqueles que amamos. (Apple TV, 7 episódios)
11) Dopesick (2021)

Com idas e vindas no tempo, a minissérie criada por Danny Strong mostra como a Purdue Pharma promoveu de forma agressiva e mentirosa o OxyContin, analgésico considerado responsável pela crise de opioides que provocou 500 mil mortes nos EUA a partir de 1999. Há cinco núcleos narrativos em Dopesick. O principal é o de Finch Creek, uma fictícia cidade onde moram o médico Samuel Finnix (Michael Keaton, premiado no Emmy, pelo Sindicato dos Atores dos EUA e no Globo de Ouro) e a jovem Betsy Mallum (Kaitlyn Dever), operária em uma mina de carvão.
Will Poulter encarna um revendedor que tenta seduzir uma colega sem o pingo de escrúpulo que ele tem, e Rosario Dawson faz uma agente do DEA, órgão federal encarregado da repressão aos narcóticos. Em outras duas pontas, estão personagens reais. Dona da farmacêutica, a família Sackler vive em meio a intrigas e disputas por conta da ambição de Richard Sackler (Michael Stuhlbarg). E Rick Mountcastle (Peter Sarsgaard) e Randy Ramseyer são dois promotores públicos que querem investigar e levar a empresa ao tribunal. (Disney+, 8 episódios)
12) The Dropout (2022)

A minissérie reconstitui um escândalo que sacudiu os Estados Unidos, mas que pode não ser tão conhecido no Brasil. The Dropout é a história de Elizabeth Holmes, que em 2015 foi colocada pela revista Forbes no topo da lista das empreendedoras mais ricas dos EUA — sua fortuna era avaliada em US$ 4,5 bilhões. Ela também era a mais moça do ranking, com 31 anos. Holmes foi a fundadora do laboratório Theranos, que prometia revolucionar a indústria dos exames de sangue, mas acabou se revelando uma fraude bilionária.
A Theranos nasceu com um objetivo nobre. Por meio da chamada tecnologia de microfluidos, baratearia e tornaria mais amigáveis os exames de sangue. Em vez das coletas via punções venosas, as gotas obtidas em uma simples picada no dedo permitiriam realizar centenas de testes. Mas nem sempre se pode moldar a realidade de acordo com nossos sonhos. Premiada com o Emmy de melhor atriz, Amanda Seyfried brilha ao trabalhar tanto o aspecto físico de Elizabeth Holmes — que ora espelha seu desconforto no convívio social, ora espelha seu narcisismo — quanto sua bagagem emocional, uma mistura desequilibrada de faro, desespero, garra juvenil e falta de escrúpulos. (Disney+, 8 episódios)
13) O Faz Nada (2023)

Depois de refletir, no cinema, sobre os universos da arquitetura, da literatura, das artes plásticas e do cinema, a dupla argentina Mariano Cohn e Gastón Duprat mirou o mundo da gastronomia. A sátira mordaz convive tanto com a lição de vida quanto com o comentário político nesta minissérie em que Robert De Niro, na pele do escritor nova-iorquino Vincent Parisi, narra eventos ambientados em uma Buenos Aires lindamente fotografada.
O personagem principal de O Faz Nada, encarnado por Luis Brandoni, é Manuel Tamayo Prats, um renomado e impiedoso crítico culinário. Manuel tem a pose, mas não os recursos financeiros para manter seu gosto exigente e seu discurso arrogante. Com sua mescla de sofisticação e decadência, é praticamente um símbolo da própria Argentina, que vive sofrendo crises econômicas. (5 episódios, Disney+)
14) A Maldição da Residência Hill (2018)

Criada e dirigida pelo estadunidense Mike Flanagan, a minissérie adapta o clássico romance de terror A Assombração da Casa da Colina (1959), de Shirley Jackson. A trama alterna duas linhas de tempo: na vida adulta, cinco irmãos continuam lidando com os traumas das experiências paranormais vividas na infância em uma mansão que os pais, Hugh (Henry Thomas) e Olivia (Carla Gugino), iriam reformar para depois vender por um preço mais alto.
Eles são Steven (Michiel Huisman), escritor de livros sobre casas mal-assombradas, Shirley (Elizabeth Reaser), que prepara corpos para serem enterrados, Theodora (Kate Siegel), psicóloga infantil, e os gêmeos Luke (Oliver Jackson-Cohen), um dependente químico, e Nell (Victoria Pedretti), a mais atormentada quando pequena — via a Moça do Pescoço Torto. Cada um deles representa os estágios do luto: negação, raiva, barganha/negociação, depressão e aceitação. Além de boas atuações e de uma atmosfera tensa, com direito a alguns sustos nada gratuitos, A Maldição da Residência Hill se destaca pela excelente parceria entre a direção de fotografia e o time de editores. (Netflix, 10 episódios)
15) Mare of Easttown (2021)

Fascinada com o "quem foi" da minissérie criada por Brad Inglesby, a atriz Kate Winslet ressaltou que embarcou no projeto porque "não é só a história de um crime". De fato, o crime descoberto no primeiro capítulo é chocante e misterioso, mas serve sobretudo como catalisador dos dramas pessoais e familiares em cidadezinha dos EUA.
A morte traz à tona relações e segredos guardados em vida, imagem reforçada pela ambientação numa estação fria, que obriga os personagens a se esconderem atrás de casacos, mantas e gorros. E — até o final — todos têm o que ocultar ou algo do que não gostam de falar. A detetive Mare Sheehan, por exemplo, viveu um episódio traumático na família. Sua amiga Beth (Chinasa Ogbuagu) já não sabe como lidar com o irmão viciado em drogas. O diácono Mark Burton (James McArdle) foi transferido de paróquia em circunstâncias mal esclarecidas. (HBO Max, sete episódios)
16) Máscaras de Oxigênio Não Cairão Automaticamente (2025)

Ambientada na década de 1980, Máscaras de Oxigênio Não Cairão Automaticamente reconstitui o início da epidemia de HIV no Brasil. Era um tempo no qual a aids ainda era rotulada como "câncer gay" ou "peste homossexual", gerando muito estigma: os infectados eram tratados praticamente como párias, e o diagnóstico era como uma sentença de morte. A trama é baseada em uma história que teria começado dentro da Varig, então a maior companhia aérea do país. Ao ver amigos e colegas adoecerem sem acesso ao tratamento e diante da negligência das autoridades, comissários de bordo iniciaram uma operação arriscada para trazer ilegalmente ao Brasil o medicamento AZT, que só era vendido nos EUA.
Na minissérie, Johnny Massaro e Bruna Linzmeyer interpretam Nando e Lea, comissários de bordo de uma fictícia empresa de aviação, ambos hábeis no contrabando. Ela tem um caso com o piloto, que é casado. Ele, que omite da mãe a sua homossexualidade, mantém um romance escondido com um jogador de futebol, Caio (Igor Fernandez), e concilia o trabalho com a luxúria, transando com estranhos nos dias de descanso em Nova York ou até com passageiros durante o voo, no banheiro. Negacionista em relação ao HIV/aids, Nando só vai começar a abrir os olhos quando a doença passa a afetar gravemente Pantera, a principal estrela da boate gay Paradise onde Raul (Ícaro Silva) é um dublê de leão-de-chácara e drag queen. (HBO Max, 5 episódios)
17) I May Destroy You (2020)

A atriz e roteirista inglesa de pais ganeses Michaela Coel transforma-se em Arabella nesta autoficção (premiada com o Emmy de melhor roteiro) que, apesar de lidar com um assunto doloroso, encontra espaço para o humor, o afeto e a diversão. Escritora de um livro de sucesso, ela corre contra o prazo e contra uma crise criativa para entregar o segundo romance a uma grande editora de Londres. Para espairecer, resolve sair para a balada com uns amigos.
No dia seguinte, já de volta ao trabalho, Arabella vê sua memória assaltada por imagens de um estupro praticado por um homem desconhecido. A partir daí, I May Destroy You mostra como a violência sexual pode paralisar o presente, alterar o futuro e ressignificar o passado das vítimas. (HBO Max, 12 episódios de meia hora cada)
18) Missa da Meia-Noite (2021)

Criada, dirigida e editada por Mike Flanagan, se passa na fictícia e minúscula (tem somente 127 habitantes) Ilha Crockett. Lá, desembarca Paul Hill (papel de Hamish Linklater, absurdamente esnobado no prêmio Emmy), um padre que vai substituir o monsenhor Pruitt, afastado temporariamente por causa de um problema de saúde. Sua chegada coincide com o retorno de Riley Flynn (Zach Gilford), que viu sua carreira no mundo das startups ruir quando, ao dirigir embriagado, matou uma adolescente.
Riley passou quatro anos na prisão e tenta recomeçar sua vida, contando com o apoio da mãe, Annie (Kristin Lehman), mas enfrentando a relutância do pai, o pescador Ed (Henry Thomas), reencontrando sua namorada dos tempos de escola, a professora Erin Greene (Kate Siegel, esposa do diretor), e revendo, todas as noites, o fantasma da garota atropelada. Esse não é o único evento fantástico na ilhazinha, mas não convém avançar muito na trama de Missa da Meia-Noite, em que Flanagan costura sua educação no catolicismo, seu subsequente ateísmo e sua paixão pelo horror. (7 episódios, Netflix)
19) The Night Of (2016)

Filho de imigrantes paquistaneses em Nova York, o jovem universitário Nasir Khan, o Naz (Riz Ahmed), pega "emprestado" do pai o táxi para ir a uma festa. No meio do caminho, em duas ocasiões pessoas tentam embarcar no carro como passageiro. Mais tarde, uma infração de trânsito, um objeto levado da cena de um crime e uma testemunha ocular vão tornar Naz o suspeito número 1. É esse o resumo do primeiro e fabuloso episódio da minissérie criada pelo escritor Richard Price e pelo cineasta Steven Zaillian.
Trata-se de um retrato minucioso e muito humano das delegacias de polícia, do sistema judicial e dos presídios estadunidenses. A trama de suspense inclui conotações culturais, políticas e sociais, refletindo o estado de ânimo nova-iorquino para com os muçulmanos pós-11 de Setembro e mostrando penitenciárias como fábricas de bandidos. Ahmed ganhou o Emmy de melhor ator, categoria em que também competia John Turturro, no papel do advogado de porta de cadeia John Stone. Bill Camp concorreu a coadjuvante na pele do detetive Dennis Box, assim como Michael Kenneth Williams, que faz o presidiário Freddy Knight. Todos trazem uma série de nuances a seus personagens, aumentando o envolvimento do espectador com uma história por si só cheia de matizes sobre o certo e o errado, o bom e o mau, a justiça e a lei, as percepções e as evidências. (HBO Max, 8 episódios)
20) Pam & Tommy (2022)

Criada por Robert Siegel, reconstitui um dos primeiros e mais célebres vazamentos de vídeo íntimo de celebridades, ocorrido entre 1995 e 1997. No caso, uma transa entre a atriz e modelo Pamela Anderson (interpretada por Lily James), estrela do seriado Baywatch (no Brasil, S.O.S. Malibu), e o roqueiro Tommy Lee (papel de Sebastian Stan), baterista da banda glam metal Mötley Crüe.
Na era das redes sociais, da fama instantânea e do compartilhamento de tudo — inclusive do chamado revenge porn (pornografia de vingança) e de seu oposto, a publicação supostamente acidental com intuito marqueteiro —, pode ser difícil medir o impacto da divulgação daquelas cenas de sexo. Mas Pam & Tommy é muito eficiente em contextualizar o espectador e retratar como, em um ambiente machista e moralista, a invasão de privacidade transformou Pamela de queridinha a pária e alvo do deboche. (Disney+, 8 episódios)
21) Pluto (2023)

A animação japonesa adapta o mangá homônimo de Naoki Urasawa, uma história de ficção científica misturada a trama policial e discussão filosófica — ideal para quem curte a obra do escritor Philip K. Dick (1928-1982), autor de Blade Runner e Minority Report.
A trama gira em torno da investigação do detetive Gesicht sobre o brutal assassinato de Mont Blanc, um dos mais poderosos e queridos robôs do mundo. Pelos olhos desses androides que parecem tão humanos, Pluto analisa a nós mesmos, nossas inquietações e angústias acerca do futuro. Mas as implicações da tecnologia não são o único tema: a minissérie também permite leituras sobre a geopolítica contemporânea. (Netflix, 8 episódios)
22) Os Quatro da Candelária (2024)

Em 23 de julho, oito jovens em situação de rua que dormiam na escadaria da Igreja da Candelária, no centro histórico do Rio de Janeiro, foram assassinados a tiros por policiais militares e milicianos. Cada capítulo desta minissérie que reconstitui as 36 horas que antecederam a Chacina da Candelária adota um ponto de vista diferente. O primeiro é o do garoto Douglas, o segundo, o de Sete, que está às vésperas de completar 18 anos, e depois virão Jesus e a menina Pipoca. Eles são interpretados por atores iniciantes, todos negros: Samuel Silva, Patrick Congo, Weendy Queiroz e Andrei Marques. Há um equilíbrio entre a autenticidade pretendida e a dramaticidade exigida, e a série não pinta os personagens como santos — têm seus pecados, cometem seus crimes, podem ser agressivos. É uma escolha audaciosa em um país onde há muito racismo e que dá muitos ouvidos à expressão "bandido bom é bandido morto".
Os Quatro da Candelária não investe em um sentimentalismo barato, não pratica o estelionato emocional. Mas não deixa de comover e de convocar nossa empatia: se estivéssemos no lugar de Douglas, também faríamos tudo o que fosse possível para providenciar um enterro digno ao homem que nos acolheu como o pai que nunca tivemos. Outra decisão corajosa foi se permitir lançar mão da fantasia e do onírico para contrastar com a dura realidade. Pelo menos por um instante, os personagens encontram abrigo, amor, felicidade, pertencimento. Pelo menos por um instante, vivem os sonhos roubados de uma infância desprotegida e, não raro, violentada. (Netflix, 4 episódios)
23) The Underground Railroad (2021)

Aqui, a beleza convive lado a lado com o horror. Concebida por Barry Jenkins, diretor e roteirista do oscarizado Moonlight (2016) e de Mufasa: O Rei Leão (2024), The Underground Railroad: Os Caminhos para a Liberdade é a adaptação do romance homônimo escrito por Colson Whitehead e ganhador, também em 2017, do prêmio Pulitzer. A trama se passa na metade do século 19, antes da Guerra Civil nos EUA (1861-1865), que tinha como principal causa a escravização da população negra — a maioria dos Estados do Sul queria manter, o Norte era contra.
Sua protagonista é Cora (interpretada pela sul-africana Thuso Mbedu), uma jovem escrava que, após relutar, tenta fugir de uma fazenda na Geórgia na companhia do íntegro Caesar (Aaron Pierre). Os dois buscam a Underground Railroad do título, uma rota de fuga que de fato existiu, mas não da maneira que é apresentada na ficção. No seu encalço, partirá o caçador Arnold Ridgeway (Joel Edgerton, do filme indicado ao Oscar Sonhos de Trem), tendo ao lado um surpreendente ajudante: Homer (Chase W. Dillon), um menino negro. (Amazon Prime Video, 10 episódios)
24) Vale o Escrito: A Guerra do Jogo do Bicho (2023)

Documentário também pode. Com direção de Fellipe Awi, Ricardo Calil e Gian Carlo Bellotti, tem como alguns de seus principais personagens os poderosos chefões das escolas de samba do Rio de Janeiro. O espectador acostumado às histórias sobre mafiosos, sejam as verídicas ou as fictícias, vai deparar com semelhanças ou até citações em Vale o Escrito.
Para começo de conversa, os bicheiros do Rio estão divididos em cinco grandes famílias — o mesmo número dos clãs de imigrantes e descendentes de italianos que se consolidaram em Nova York nas primeiras décadas do século 20. Temos os Garcia, os Andrade, os Guimarães, os Scafura e os Abraão (cada capítulo é mais centrado em um dos núcleos familiares). Os negócios passam de pai para filho — frise-se o gênero: mulheres não podem ascender, não podem ser donas de pontos de jogo ou máquinas caça-níqueis. O enredo inclui rivalidades, traições, reviravoltas, filhos sequestrados, carros explodidos e execuções em plena luz do dia. (Globoplay, 7 episódios)
25) Watchmen (2019)

Damon Lindelof pegou elementos da clássica história em quadrinhos de Alan Moore e Dave Gibbons (a chuva de lula, personagens como Ozymandias e Dr. Manhattan) e cria uma trama central totalmente nova e absolutamente atual. Os novos heróis, como a Sister Night (Regina King) e o Looking Glass (Tim Blake Nelson), lidam com a violência contra negros nos EUA. O inimigo é uma organização racista, a Sétima Kavalaria.
Desde a abertura, que reencena o Massacre de Tulsa, em 1921, durante anos apagado da história oficial, Watchmen mostra como os traumas da escravidão passam de geração a geração. Foram 11 troféus no Emmy, incluindo melhor minissérie, atriz (Regina King), ator coadjuvante (Yahya Abdul-Mateen II) e trilha sonora (Trent Reznor e Atticus Ross). (HBO Max, 9 episódios)
É assinante mas ainda não recebe minha carta semanal exclusiva? Clique aqui e se inscreva na newsletter
Assista aos vídeos Dica do Ticiano no YouTube: clique aqui
Já conhece o canal da coluna no WhatsApp? Clique aqui: gzh.rs/CanalTiciano




