
Começa nesta quarta-feira (8) a 22ª edição do Fantaspoa, o Festival Internacional de Cinema Fantástico de Porto Alegre. Até o dia 26 de abril, 210 curtas e longas-metragens serão exibidos no CineBancários, na Cinemateca Capitólio, na Cinemateca Paulo Amorim, no Instituto Ling e na Sala Redenção da UFRGS. Nesta coluna, eu listo 10 filmes imperdíveis, com suas datas, seus horários e seus endereços (confira logo abaixo).
Sob o guarda-chuva do fantástico, o Fantaspoa mescla gêneros como terror, ficção científica, comédia, ação e até musical. Às vezes, a mistura ocorre dentro do mesmo filme. Que pode ser assumidamente artesanal ou extremamente brutal, que pode refletir sobre dilemas morais ou confundir realidade e alucinação.
Organizado por João Pedro Fleck, Nicolas Tonsho e João Pedro Teixeira, o Fantaspoa oferece a oportunidade ímpar de dar uma volta ao mundo sem sair de Porto Alegre: os títulos representam 41 países, de quase todos os continentes. Pode-se viajar do Chile, cenário de Matapanki (2026), à Indonésia, onde se passa Levitando (2026), e a lista inclui produções de Porto Rico (Lua Rosa: A 7ª Ascensão de Atabey), da Sérvia (Karmadonna), da China (A Jornada Sem Fim), da Nova Zelândia (Mãrama) e até do Quirguistão (Loucura nos Bastidores).
Essa viagem mostra que um outro cinema é possível. As obras fogem muito do convencional, da embalagem pronta para consumo universal. Não raro, o espectador pode ficar chocado com a violência — ou até com o humor. Os filmes nos desafiam a assimilar uma estética diferente; a confrontar pesadelos e chagas sociais; a interpretar sem um manual de instruções; e a descobrir para onde a história está indo — a imprevisibilidade talvez seja a única coisa previsível no Fantaspoa.
10 filmes imperdíveis do Fantaspoa 2026

A ordem é apenas alfabética. Confira informações sobre ingressos no site oficial do festival, o fantaspoa.com:
1) Covil (Brasil, 2026)

De Rodrigo Lages. Depois de herdar uma casa abandonada em uma metrópole do Brasil, uma jovem (papel de Juliana Lourenção) se muda com o namorado (Daniel Rocha). Lá, eles descobrem um quarto que esconde um segredo aterrador.
Por que ver? Além de ser uma das 10 estreias mundiais e de trazer a atriz gaúcha Vitória Strada no elenco, vale pelo exercício nacional de um tipo de filme que costumamos importar: o suspense ou terror que embaralha a cronologia narrativa para estar sempre tirando nossas certezas (ou confirmando nossas suspeitas) e oferecendo uma reviravolta na trama. Ainda que o enredo recorra a um clichê, Covil envolve. E a declaração de um personagem parece aludir ao espírito dos espectadores diante do Fantaspoa — uns estavam fazendo contagem regressiva, outros talvez nem conheçam o festival: "Como somos atraídos por algo que não entendemos. Há uma vontade dentro de cada um de nós de explorar o desconhecido. Mas insistimos em nos limitar".
Sessões na Cinemateca Paulo Amorim, no dia 23, às 19h30min (com o diretor), e no dia 25, também às 19h30min
2) A Jornada Sem Fim (China, 2025)

De Xian Cheng. No futuro, a Terra está quase vazia e os homens são estimulados a transferir sua consciência para a realidade virtual aos 40 anos. Quando seu pai faz isso, o jovem Cheng Qi (papel de Haoming Hu) decide embarcar em uma viagem para procurar a mãe que o abandonara quando ele era criança.
Por que ver? Esta ficção científica ambientada na China tem como um dos trunfos a construção de mundo — a solidão pós-apocalíptica é acentuada pelos imensos condomínios e pelos vastos desertos. Esses cenários frios se enchem de vida graças ao carisma do protagonista e de coadjuvantes como a pessoa mais velha do planeta.
Sessões na Cinemateca Capitólio, no dia 15, às 13h, e no dia 17, às 14h45min
3) Karmadonna (Sérvia, 2025)

De Aleksandar Radivojevic. A história se passa na Sérvia. Mãe solo, a protagonista encarnada por Jelena Dokic (atriz homônima da ex-tenista australiana) está a 37 dias do nascimento de seu primeiro filho quando atende a um telefonema de um número desconhecido. Do outro lado da linha, uma voz anônima ordena que ela cometa uma série de assassinatos para manter vivo o fruto de seu ventre.
Por que ver? Para testar os seus limites de exposição à violência e ao obsceno. O diretor é um dos roteiristas do traumatizante e famigerado A Serbian Film (2010), mas Karmadonna pega bem mais leve e até imprime algum humor nos diálogos.
Sessões na Cinemateca Paulo Amorim, nos dias 11, 15 e 17, sempre às 19h30min
4) Levitando (Indonésia, 2026)

De Wregas Bhanuteja. Em uma cidadezinha da Indonésia onde as pessoas encontram prazer em ser possuídas por espíritos, o jovem Bayu (Angga Yunanda) sonha em se tornar o xamã de uma festa de transe para evitar um despejo iminente.
Por que ver? É um filme absolutamente singular e que proporciona uma rica experiência de imersão em outra cultura. Periga o espectador também ficar hipnotizado.
Sessões na Cinemateca Paulo Amorim, nos dias 14 e 18, sempre às 19h30min
5) Loucura nos Bastidores (Quirguistão, 2025)

De Amanbek Azhymat. Um roteirista de 70 anos que dá vida a suas histórias em uma velha máquina de escrever é pressionado por um jovem produtor a bolar um projeto de olho apenas no retorno financeiro. Realidade e imaginação se misturam, povoando sua sala com personagens excêntricos.
Por que ver? Está longe de ser genuinamente imperdível, mas quando você terá uma nova chance de ver um filme produzido e ambientado no Quirguistão?
Sessões na Cinemateca Paulo Amorim, no dia 11, às 14h, no dia 15, às 14h, e no dia 17, às 17h30min
6) A Maldição (Japão, 2025)

De Kenichi Ugana. Riko (personagem de Yukino Kaizu), recepcionista de um salão de beleza, estranha as postagens perturbadoras de sua amiga Shu-fen no Instagram. À medida que mortes horríveis acontecem, ela viaja do Japão a Taiwan para tentar impedir que se torne vítima de uma maldição.
Por que ver? Fãs do cinema de terror japonês vão se deliciar com a atmosfera do filme. Há uma constante sensação de pavor enquanto Riko vasculha seu apartamento silencioso, por exemplo, e volta e meia a câmera se detém em uma cena por mais tempo do que se espera — ficamos inquietos, na expectativa de um susto, de um choque ou da explosão da violência e do sangue. O ato final é um tanto apressado, mas A Maldição consegue apontar efeitos nocivos da vida sempre conectada nas redes sociais e lega pelo menos uma sentença digna de nota: "As pessoas podem fazer muito mal às outras sem se darem conta".
Sessões no CineBancários, no dia 22, às 17h, e no dia 25, às 15h
7) Mãrama (Nova Zelândia, 2025)

De Taratoa Stappard. Em 1859, Mary Stevens (interpretada por Ariana Osborne) é uma jovem órfã de origem maori que, após receber uma carta de um homem desconhecido que diz ter informações sobre seus pais, viaja da Nova Zelândia para o norte de Yorkshire, na Inglaterra. Lá, é contratada como governanta da pequena Anne, neta de Nathaniel Cole (Toby Stephens), aristocrata que fez fortuna com a caça às baleias.
Por que ver? A bela recriação de época emoldura um filme que ilustra como o gênero do terror é um veículo por excelência para histórias sobre os monstros e os fantasmas do colonialismo e do racismo. E, durante a encenação teatral da caça a uma baleia, em meio a uma festa na mansão de Cole, Mãrama tem uma das cenas mais marcantes da temporada até agora, graças à atuação vibrante de Ariana Osborne.
Sessões no CineBancários, no dia 10, às 17h, no dia 17, às 15h, e no dia 26, às 15h
8) A Máscara Vermelha (EUA, 2025)

De Ritesh Gupta. Allina Green (papel de Helena Howard) é uma roteirista negra e lésbica que foi contratada para escrever o novo filme de uma franquia slasher de sucesso. Para fugir da fúria de fãs conservadores, ela e sua noiva, Deetz (Inanna Sarkis), se isolam em uma cabana no meio de uma floresta, onde simulam as cenas de ataque do assassino mascarado.
Por que ver? Pela divertida, embora macabra, metalinguagem. A Máscara Vermelha descontrói e ao mesmo tempo se alimenta dos clichês do slasher. O filme faz piada mas também repudia o comportamento tóxico do público, sem deixar de propor uma autocrítica aos cineastas desse subgênero do terror.
Sessões na Cinemateca Capitólio, no dia 10, às 20h30min (com o diretor), e no dia 11, às 16h30min
9) Matapanki (2026)

De Diego "Mapache" Fuentes Badilla. Em Santiago do Chile, Ricardo (Ramón Galvez) é um jovem punk que mora com sua querida avó e passa os dias bebendo álcool barato, indo a shows e perambulando pelas ruas da periferia com seus dois melhores amigos, Mella e Claudia. Certa noite, ele experimenta uma bebida clandestina e estranha que lhe concede superpoderes. Será que Ricardo deve se tornar um herói capaz de mudar a sociedade?
Por que ver? As referências a Peter Parker/Homem-Aranha, que incluem a frase "Grandes poderes trazem grandes responsabilidades" e uma jaqueta de couro com uma teia de aranha às costas, são apenas a cereja deste bolo de consumo rápido — dura apenas 70 minutos. Com grafismos que realçam a energia contagiante do filme, Matapanki não tem pudores na hora de elevar as consequências dos atos do protagonista.
Sessões na Cinemateca Capitólio, no dia 23, às 18h15min, e no dia 24, às 13h
10) O Perigo em Pincer Point (Inglaterra, 2026)

De Jake Kuhn e Noah Stratton-Twine. O ator Jack Redmayne encarna Jim Baitte, um técnico de som preguiçoso que está trabalhando na nova produção de um tirânico rei dos filmes B ingleses, o diretor P.W. Griffin (Os Leanse). Precisando provar sua competência, Jim é enviado a uma remota e misteriosa ilha, onde deve captar sons poderosos o suficiente para incrementar o clímax da obra.
Por que ver? Este é um fino exemplar da mostra Low Budget, Great Films do Fantaspoa, dedicada a produções de baixíssimo orçamento. A fotografia em preto e branco é muito charmosa, o senso de humor britânico combina bem com o surrealismo da trama — que inclui "monstros" marítimos e lendas sobre piratas —, e o elenco, livre para improvisar, segundo informa os créditos, esbanja carisma.
Sessões na Cinemateca Capitólio, no dia 10, às 13h, no dia 16, às 14h45min, e no dia 25, às 20h30min
Bônus: Você É o Filme (Japão, 2026)

De Makoto Ueda. No Japão, a dramaturga Madoka (Riko Fujitani) e o músico Kazuma (Takafumi Imai) levam vidas separadas até irem, no mesmo dia, a um cinema independente. Lá, cada um descobre que está assistindo a um filme estrelado pelo outro.
Por que ver? É o primeiro filme dirigido por Ueda, roteirista dos geniais Dois Minutos Além do Infinito (2020) e Rio (2023), ambos exibidos no Fantaspoa. "Aqui, ele eleva a metalinguagem a outro nível", diz João Pedro Fleck, um dos organizadores do festival, "criando uma obra que se passa em somente 60 minutos, mas que tem poder suficiente para conquistar gerações cinéfilas por anos"
Sessões na Cinemateca Paulo Amorim, no dia 12, às 14h, no dia 16, às 19h30min, e no dia 24, às 14h
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