
O Agente Secreto conseguirá trazer mais um Oscar para o Brasil? Vai dar Uma Batalha Após a Outra ou Pecadores no prêmio de melhor filme? A Academia de Hollywood está mesmo tentando se globalizar, para manter sua influência mundial?
Para falar sobre esses e outros assuntos da 98ª edição do Oscar, que será realizada neste domingo (15), em Los Angeles, conversei com o professor de cinema Fábio Rockenbach, 50 anos. Ele dá aulas nas disciplinas de Linguagem Cinematográfica, História do Cinema e Semiótica e Imaginário da faculdade de Jornalismo da Universidade de Passo Fundo (UPF). E também ministra o curso online A Experiência do Cinema (perfil no Instagram: @aexperienciadocinema).
Confira a entrevista:

Até o The Actor, o prêmio do Sindicato dos Atores dos EUA, a vitória de Uma Batalha Após a Outra no Oscar de melhor filme parecia só uma questão de tempo. Com os triunfos de Pecadores na categoria de melhor elenco e de Michael B. Jordan como melhor ator, você acredita que deu uma virada na corrida?
Não tanto pelo Jordan e o elenco, mas porque o filme parece absorver alguns anseios não só da indústria, mas das discussões sociais contemporâneas com uma dose elogiável de coragem em não se prender nas fronteiras de gênero. Faria bem até para a Academia reconhecer isso. Seria uma quebra, porque é raro o ganhador do prêmio do PGA (a Associação dos Produtores dos EUA) não vencer o Oscar. Nos últimos 16 anos, só aconteceu três vezes, e numa delas porque Parasita não concorria. O PGA "previu" Argo, Anora, até CODA (No Ritmo do Coração). Mas assim como aconteceu com Moonlight (que bateu o favoritismo de La La Land), há outros fatores que podem fazer a balança mudar. No Oscar, todos votam, e a grande quantidade de indicações pode ser uma pista de que muitos votos que não estavam em disputa no PGA venham para Pecadores, até pelo sistema de voto preferencial. Ainda apostaria em Uma Batalha Após a Outra, principalmente pelo PGA, e não vejo Paul Thomas Anderson perdendo como diretor, mas não seria tão surpreendente se Pecadores ganhasse o último prêmio da noite.
Entre os 10 candidatos ao Oscar de melhor filme, qual é o seu preferido? Por quê?
Gosto de quase todos e gosto da lista desse ano pela variedade, mas meu preferido é Pecadores. Coloco O Agente Secreto entre os três melhores. O Ryan Coogler (diretor e roteirista de Pecadores) faz mais do que apenas referenciar elementos caros à cultura negra americana, à religião e ao blues, mas incorpora a esses elementos contrapontos também religiosos e musicais para comentar como essa cultura foi sendo consumida por dentro e sequestrada. Faz isso abraçando convenções de gênero sem medo nenhum do estranhamento que possa causar e abraçando a escolha de forma apaixonada. É o filme que me parece unir melhor intenção e realização de forma coerente do início ao fim.

Quais são suas expectativas em relação a O Agente Secreto e Wagner Moura?
O filme do Kleber Mendonça Filho (diretor e roteirista de O Agente Secreto) não é tão direto e narrativamente fácil como Ainda Estou Aqui, faz muito uso de simbolismo, menos visual e mais histórico e narrativo, e essa coerência é uma das melhores coisas dele. Se no período do filme há tanta coisa que não podia ser dita, ou personagens sendo esquecidos, o filme emula essa sensação na própria narrativa, nos diálogos ou mesmo na maneira como personagens surgem e desaparecem. As nove indicações de Valor Sentimental fazem do filme de Joachim Trier o grande adversário na disputa, também por conta das indicações de um elenco conhecido dos americanos, e eu estava bem pessimista até alguns dias, mas a própria Neon parece ter abraçado de vez o filme brasileiro como sua grande aposta. É muito difícil que o Wagner vá além da indicação após o The Actor e o Bafta (ambas as premiações deixaram o ator brasileiro de fora da lista de indicados), mas a própria visibilidade que ele tem tido aumentou muito as chances do filme nessa reta final.
O que uma segunda vitória seguida no Oscar de melhor filme internacional significaria para o cinema brasileiro?
Uma segunda vitória poderia ampliar oportunidades de coprodução e visibilidade externa aos filmes brasileiros, mas eu sou um pouco pessimista quanto a reais transformações no cenário exibidor e de produção. O Rodrigo Teixeira, produtor do filme do Walter Salles (diretor de Ainda Estou Aqui), comentou no Festival de Tiradentes sobre como o nosso problema é maior. Por exemplo, a falta de diretores novos surgindo com espaço e recursos de produção. A maior parte dos bons diretores e diretoras com reais oportunidades de trabalho hoje tem entre 40 e 60 anos. Ainda existe dificuldade para produção, e mais ainda no circuito exibidor. Ainda estamos esperando uma regulamentação do streaming. A gente fica sempre no "ainda falta...". A maior parte do público, mesmo com os prêmios, conhece os filmes mais populares que concorreram ao Oscar e são fenômenos, mas ignoram a imensa quantidade de grandes filmes que temos todo ano. O Oscar chama atenção pelo peso e pelo rito de competição que o brasileiro adora, mas o preconceito com as produções nacionais e o desconhecimento ao próprio cinema voltam fácil assim que passa o burburinho da premiação.
Nos seus cursos, você ensina as pessoas a prestarem atenção nos enquadramentos, na paleta de cores da direção de fotografia, nas escolhas da montagem e até do figurino. Pensando nesses aspectos mais técnicos, que filmes você destaca no Oscar 2026?
Eu sempre comento com os alunos que bom uso de linguagem não significa um bom filme, mas é o primeiro passo. Vai depender de como tudo isso funciona na proposta. Sonhos de Trem, por exemplo, é visualmente formidável e a montagem funciona muito bem na proposta, mas acaba não funcionando para mim. E eu sempre sou chato de achar que os melhores filmes ficam de fora do Oscar. Neste ano, Eddington, Foi Apenas um Acidente e Sorry, Baby poderiam estar na lista dos 10 indicados a melhor filme. Mas entre os que estão concorrendo, acho que Pecadores é o filme que mais se destaca. Uma pena o trabalho da (diretora de fotografia) Evgenia Alexandrova em O Agente Secreto ser esnobado. Muito do impacto do filme vem de como aquele período é exposto não só pelas cores fortes e quentes, mas pelo contraste acentuado que coloca sempre as cores mais escuras em um tom muito forte na tela.
Pelo terceiro ano seguido, há dois filmes não falados em inglês na lista de concorrentes ao principal prêmio: o brasileiro O Agente Secreto e o norueguês Valor Sentimental. Nas categorias de atuação, cinco dos 20 indicados trabalham em produções de fora dos EUA. E a cada ano a Academia de Hollywood convida mais estrangeiros para serem integrantes da entidade. Você acha que o Oscar vem mesmo tentando se globalizar? Por quê?
Vem, é um movimento consciente. A Academia sempre foi muito conservadora, premiando muitas vezes filmes seguros e pouco ousados tematicamente e formalmente, principalmente nos anos 1980 e 1990, mas ainda demorou a promover mudanças estruturais. O movimento #OscarsSoWhite e a mudança no próprio mercado com a ascensão dos streamings e a força das redes sociais ampliaram a pressão e as críticas. A vitória de Green Book em 2019, um filme bem problemático na própria defesa da sua ideia, parece ter sido o ponto inicial dessa internacionalização que você cita. A própria Academia lançou um projeto de novos padrões de representação e inclusão aos eventuais candidatos, aumentou os convites a membros estrangeiros e a mulheres e a resposta veio já com o prêmio de Parasita logo no ano seguinte. E essa pressão continua, por exemplo, pelo maior reconhecimento de mulheres em funções de direção, roteiro e categorias técnicas.
O Oscar ainda dita rumos na indústria? Como? Qual é o "recado" que a Academia de Hollywood passa se num ano premia um blockbuster ambicioso, como Oppenheimer, e no outro uma produção independente e pouco vista, como Anora?
Se não ditasse, não teríamos gigantes como a Netflix não só tendo o maior número de indicações em vários anos recentes como abraçando campanhas fortes pelo prêmio. Toda a indústria funciona direcionada à premiação, mas a Academia flutua de acordo com as demandas do seu tempo. Ela é maleável e impressionável pelas reações sociais do ano. Ter um "Barbenheimer" em um ano, ao mesmo tempo que indica a força da indústria e da exibição nos cinemas, também faz com que o próprio meio equilibre as coisas posteriormente. Me parece muito um movimento de oscilação com a preocupação de manter todos os lados do jogo ativos de alguma maneira. Em 2009, todos estavam assombrados com o 3D e os efeitos de Avatar que recriaram um mundo em computador, sem fazer uso de muitas locações ou outros elementos de direção de arte e figurino. A tela do computador é o grande estúdio onde tudo se cria. Pois a indústria decidiu premiar um filme independente (Guerra ao Terror) para mostrar que ela ainda dependia de trabalhadores de diversas áreas que não podiam ser trocados por um hardware e premiou o filme independente dirigido por uma mulher (Kathryn Bigelow), justamente a ex-esposa do diretor de Avatar (James Cameron). Isso foi um recado. Os "recados" se renovam anualmente a depender da questão em voga no momento.


