
Uma Batalha Após a Outra venceu quase uma batalha após a outra até ser consagrado na 98ª edição do Oscar. Na cerimônia realizada pela Academia de Hollywood na noite deste domingo (15), no Dolby Theatre de Los Angeles, recebeu seis estatuetas douradas: melhor filme, direção (Paul Thomas Anderson), ator coadjuvante (Sean Penn), roteiro adaptado (pelo próprio PTA, a partir do romance Vineland, de Thomas Pynchon), montagem (Andy Jurgensen) e seleção de elenco (Cassandra Kulukundis).
Na corrida pelo Oscar, o único tropeço significativo — e o único grande susto — aconteceu no The Actor, a premiação do Sindicato dos Atores dos EUA, que elegeu Pecadores na categoria de melhor elenco. Especulava-se a possibilidade de uma virada na reta final, como aconteceu em 2006 e em 2020, quando, respectivamente, Crash: No Limite e Parasita conquistaram esse troféu e depois sobrepujaram no Oscar de melhor filme os favoritos O Segredo de Brokeback Mountain e 1917.
Fora o The Actor de melhor elenco, Uma Batalha Após a Outra (One Battle After Another, 2025) ganhou praticamente todos os que importavam. Começou com o Gotham Awards, que abre a temporada, em dezembro. Depois vieram o prêmio da National Board of Review (uma organização de críticos), o Critics Choice, o Globo de Ouro de melhor comédia ou musical, o Bafta, da Academia Britânica, e o PGA Awards, da Associação dos Produtores dos EUA.
Esse último prêmio é considerado o termômetro mais acurado do Oscar de melhor filme. Nas 37 ocasiões desde seu surgimento, em 1990, o PGA coincidiu 27 vezes com a escolha da Academia de Hollywood. Os últimos seis ganhadores também haviam sido laureados pelos produtores: Nomadland, No Ritmo do Coração, Tudo em Todo o Lugar ao Mesmo Tempo, Oppenheimer, Anora e, agora, Uma Batalha Após a Outra.
A estatueta dourada de melhor direção para Paul Thomas Anderson era mais certa ainda. Ele já tinha vencido o Globo de Ouro, o Bafta, o Critics Choice, o prêmio da National Board of Review e o DGA Awards, o troféu do Sindicato dos Diretores dos EUA. Desde a estreia dessa premiação, em 1949, apenas oito vezes o ganhador não repetiu o feito no Oscar. E os nomes coincidiram em 27 das últimas 32 edições.

A despeito do encantamento provocado por Pecadores, Uma Batalha Após a Outra foi, pelo menos aos olhos da Academia de Hollywood e da imprensa estadunidense, o filme certo na hora certa.
Por um lado, há os méritos do filme. Paul Thomas Anderson pegou um romance publicado em 1990 por Thomas Pynchon e ambientado em 1984, ano da reeleição de Ronald Reagan à presidência dos EUA, e atualizou a trama para os dias de hoje, ainda que em uma realidade alternativa, na qual reflete sobre a política anti-imigração de Donald Trump, a censura a vozes contrárias, o recrudescimento do racismo e a divisão alarmante do país, onde ideias absurdas vem sendo normalizadas e onde a violência é uma resposta cada vez mais recorrente.
No palco do Dolby Theatre, onde recebeu três estatuetas douradas (como produtor, diretor e autor do roteiro), PTA comentou:
— Escrevi este filme para os meus filhos, como um pedido de desculpas pela bagunça que deixamos neste mundo que estamos lhes entregando. Mas também com o intuito de encorajá-los a serem a geração que, espero, nos trará bom senso e decência.

Por outro lado, podemos dizer que existia uma espécie de sentimento de dívida da indústria cinematográfica. Californiano de 55 anos, Paul Thomas Anderson é um dos principais cineastas contemporâneos dos EUA, mas nunca tinha recebido um Oscar. Antes de Uma Batalha Após a Outra, concorrera 11 vezes, como produtor, diretor ou roteirista, por seis filmes diferentes: Boogie Nights: Prazer Sem Limites (1997), Magnólia (1999), Sangue Negro (2007), Vício Inerente (2014), Trama Fantasma (2017) e Licorice Pizza (2021).
Talvez Hollywood tenha entrado em um acordo tácito de que, quase 30 anos após a primeira indicação de PTA, havia chegado a vez de premiá-lo, a exemplo do que aconteceu com Martin Scorsese, oscarizado em 2007, por Os Infiltrados, depois de disputar o Oscar sete vezes, por seis títulos: Touro Indomável (1980), A Última Tentação de Cristo (1988), Os Bons Companheiros (1990), A Época da Inocência (1993), Gangues de Nova York (2002) e O Aviador (2004).
Anderson parece ter aludido a esse longo intervalo de tempo ao fazer seu agradecimento no Oscar:
— Muito, muito obrigado. Vocês fazem um cara trabalhar duro para conseguir uma dessas (estatuetas). Sempre haverá alguma dúvida no coração se merecemos isso, mas não há dúvida do prazer que sinto.

A crítica norte-americana, por sua vez, se apaixonou à primeira vista por Uma Batalha Após a Outra, atualmente disponível na plataforma de streaming HBO Max. Na época da estreia nos cinemas, David Fear afirmou na Rolling Stone que "o thriller impressionante e estrondoso de Paul Thomas Anderson sobre pais, revoluções fracassadas e nossos momentos fodidos é, sem dúvida, o filme do ano".
Para Owen Gleiberman, da Variety, esta é a primeira obra de PTA desde Magnólia que convida o público a adentrar seu universo com a mesma paixão empregada na sua criação.
Na Time, Stephanie Zacharek escreveu que "Uma Batalha Após a Outra se desenrola em um zilhão de direções simultaneamente, a ponto de você não conseguir imaginar como tudo vai terminar. Anderson mantém todas as partes em movimento com destreza, com a ajuda do diretor de fotografia Michael Bauman e do editor Andy Jurgensen" — e, como de hábito na carreira do diretor, observamos um uso criativo e sofisticado de planos, enquadramentos, movimentos de câmera, edição de imagens etc.
Segundo Barry Hertz, do canadense The Globe and Mail, a trama prende o espectador desde o primeiro minuto e, "antes que você tenha tempo de recuperar o fôlego e tentar se desvencilhar da rapidez com que foi levado do ponto A ao B, a viagem acaba e você precisa dar outra volta".

De fato, as duas horas e 40 minutos de duração passam voando porque, fazendo jus ao título, Uma Batalha Após a Outra simplesmente não para (aliás, a música composta por Jonny Greenwood, ora um piano nervoso, ora um delicado violão, também quase não para de tocar, e a percepção de sua onipresença constitui, para mim, um raro ponto negativo). Trata-se de uma mistura de filme de ação, drama familiar e comédia maluca, tudo temperado com comentários políticos.
Inclui tiroteios, explosões, fugas pelos telhados dos edifícios, uma sequência antológica de perseguição automobilística em uma estrada no meio do deserto — cheia de subidas e descidas, sol cegante e olhares aflitos pelo retrovisor — e personagens e grupos com nomes exóticos: Ghetto Pat (uma das alcunhas do protagonista interpretado por Leonardo DiCaprio, indicado ao Oscar de melhor ator), Perfidia Beverly Hills (papel de Teyana Taylor, concorrente como atriz coadjuvante), Sensei Sergio St. Carlos (Benicio Del Toro, que competiu como ator coadjuvante), Junglepussy (Shayna McHayle), os Aventureiros Natalinos e as Irmãs do Castor Valente, freiras que cultivam maconha e ensinam a atirar com metralhadoras nas fictícias Montanhas Chupacabra.
A capacidade de entreter o público se faz acompanhar por um discurso político alinhado às preocupações de grande parte da indústria cinematográfica em relação a temas como: a ascensão da extrema-direita, a possibilidade do fim da separação entre Estado e Igreja nos EUA — o presidente Donald Trump já questionou publicamente a laicidade e já emitiu ordem executiva para eliminar o que ele chamou de "viés anticristão" dentro do governo federal —, o autoritarismo, a xenofobia e o racismo (mas vale dizer que a caracterização de Perfidia gerou reclamações: para alguns críticos, a personagem encarna o estereótipo de Jezebel, a mulher negra hipersexualizada).
Desde o início de Uma Batalha Após a Outra, é inevitável enxergar paralelos entre o que se vê na tela e o que acontece nos EUA sob o comando de Trump. Na sequência de abertura, o personagem de Leonardo DiCaprio é um dos guerrilheiros de um grupo rebelde, o French 75, que invade um centro de detenção na fronteira com o México para libertar os imigrantes. Um dos ataques seguintes é a um senador que trabalhou pela proibição do aborto.

O protagonista acaba se envolvendo romanticamente com Perfidia Beverly Hills, que vem de uma família de revolucionárias negras. Os dois têm uma filha, Charlene (vivida na adolescência, sob o nome Willa, com gana e brilho pela novata Chase Infiniti), mas o casal logo se separa, por motivos que você vai descobrir quando assistir ao filme.
O que se pode contar sem dar spoiler é que essa família vira alvo da obsessão do capitão e depois coronel Steven J. Lockjaw, encarnado por Sean Penn — que rouba a cena. Depois de ganhar o Oscar de melhor ator por Sobre Meninos e Lobos (2003) e por Milk: A Voz da Igualdade (2008), Penn agora tem um prêmio de coadjuvante graças a sua interpretação como um sujeito que é ao mesmo tempo ridículo e perigoso, reprimido e agressivo.

Do outro lado, o Ghetto Pat/Bob Ferguson de Leonardo DiCaprio vai, aos trancos e barrancos, desempenhar o seu papel de pai. Trata-se de um tipo já clássico na obra de Paul Thomas Anderson, especialista em construir histórias intensas e de alta densidade emocional ao redor de um personagem masculino complexo, contraditório e pleno de conflitos, envolvendo temas como famílias disfuncionais, solidão, alienação, culpa, fantasmas do passado, destino e redenção.
Lockjaw empreende uma caçada humana porque ele quer entrar em uma organização milionária e secreta de supremacistas brancos, os Aventureiros Natalinos. Um dos membros dessa elite racista, Virgil Throkmorton (papel de Tony Goldwyn), cuida da Distorção e da Purificação, ou seja, cria protocolos que "justifiquem uma limpeza étnica na sociedade".
Apesar de seu coração estar claramente do lado esquerdo, Paul Thomas Anderson não deixa de ser satírico na representação dos revolucionários, que lançam surradas frases de efeito enquanto erguem o punho com a mão fechada. Alguns são figuras quixotescas, outros envelheceram e perderam o viço. Há os radicais que podem acabar jogando contra a própria causa e também aqueles que, contraditoriamente, burocratizam a insurgência — "Talvez você devesse ter estudado o manual da rebelião com mais afinco", diz o Camarada Josh (Dan Chariton) quando o protagonista não lembra de uma palavra-código, provavelmente pelo excesso de álcool e outras drogas que consumiu depois de virar um guerrilheiro aposentado que passa os dias vestido com um roupão.
Por falar em contradição, uma das melhores piadas de Uma Batalha Após a Outra utiliza um símbolo da indústria de Hollywood como símbolo do ideal revolucionário: "Liberdade é não ter medo", declara o Sensei Sergio St. Carlos. "Como Tom "fucking" Cruise!"
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