
É inevitável sentir frustração diante da ausência de prêmios para o filme O Agente Secreto na 98ª edição do Oscar, realizada na noite deste domingo (15), no Dolby Theatre de Los Angeles, pela Academia de Hollywood. Sobretudo em um país como o Brasil, onde times de futebol se recusam a receber medalhas de vice-campeão e que é famoso pelo complexo de vira-lata.
Se o thriller político escrito e dirigido pelo pernambucano Kleber Mendonça Filho e protagonizado pelo ator baiano Wagner Moura recebesse um Oscar apenas um ano depois da conquista inédita e histórica de Ainda Estou Aqui (2024) na categoria de melhor filme internacional, talvez pudéssemos sepultar esse sentimento de inferioridade em relação ao estrangeiro — pelo menos no âmbito do cinema.
E a trajetória de O Agente Secreto permitia sonhar que o frevo se tornaria a trilha sonora da madrugada desta segunda-feira (16). Primeiro, em maio do ano passado, na França, ganhou os troféus de direção, de ator e de melhor filme pela crítica internacional no Festival de Cannes. Em janeiro, já nos Estados Unidos, vieram o Critics Choice de melhor filme internacional, dois Globos de Ouro — melhor longa em língua não inglesa e melhor ator em drama — e as quatro indicações ao Oscar, igualando o recorde para uma produção brasileira estabelecido por Cidade de Deus (2002) na premiação de 2004.
Mas todo Carnaval tem seu fim, e o de O Agente Secreto começou a desmoronar no momento em que a atriz Gwyneth Paltrow anunciou a vencedora do Oscar de melhor seleção de elenco, uma categoria nova. Deu Cassandra Kulukundis, de Uma Batalha Após a Outra. Conforme se poderia esperar, faltaram aos membros da Academia de Hollywood conhecimento, para perceber que Gabriel Domingues arregimentou e harmonizou atores em diferentes estágios da carreira, de diferentes origens e diferentes formações; e sensibilidade, para saborear os sotaques e os regionalismos dos personagens do filme brasileiro.
Todos sabíamos que O Agente Secreto seria apenas um coadjuvante de luxo na disputa pelo Oscar de melhor filme, que acabou conquistado também por Uma Batalha Após a Outra, o favorito depois de ganhar quase todas as premiações prévias. Mas havia, nas outras duas categorias, uma esperança fundamentada — ainda que também houvesse indícios preocupantes.
Na briga pela estatueta dourada de melhor filme internacional, O Agente Secreto tinha a seu favor quatro triunfos prévios: além do Critics Choice e do Globo de Ouro, também faturara o Film Independent Spirit Awards (dedicado ao cinema independente) e o Satellite Awards (concedido pelos críticos da International Press Academy). Mas no Bafta, da Academia Britânica — entidade que também congrega votantes da Academia de Hollywood —, o título brasileiro perdera para o norueguês Valor Sentimental.

Essa derrota ligou um sinal de alerta para O Agente Secreto e confirmou o favoritismo de Valor Sentimental, que somava nove indicações ao Oscar, incluindo melhor filme, direção (Joachim Trier), atriz (Renate Reinsve), ator coadjuvante (Stellan Skarsgård) e atriz coadjuvante (com Inga Ibsdotter Lilleaas e Elle Fanning). Ou seja, de partida já havia seduzido mais a Academia de Hollywood do que havia acontecido com O Agente Secreto.
Não é de se estranhar: se o filme de Kleber Mendonça Filho já é exigente junto ao público brasileiro, desafiado por uma narrativa cheia de lacunas, que dirá para o estrangeiro, que conhece menos ainda sobre os tempos da ditadura militar no nosso país. Em contrapartida, o oscarizado Valor Sentimental, embora evite resvalar para o dramalhão hollywoodiano, oferece uma história totalmente familiar — a do pai obcecado por seu trabalho que se desligou emocionalmente da prole e agora tenta uma reconexão — e encenada em um ambiente totalmente familiar: o mundo do cinema.
Por fim, restou a Wagner Moura, na plateia do Dolby Theatre, aplaudir quando Michael B. Jordan, de Pecadores, subiu ao palco para receber o Oscar de melhor ator. Era outra derrota prevista que muitos de nós não queríamos enxergar. Afinal, Wagner só havia vencido prêmios entregues pela crítica: o Globo de Ouro e o Satellite. Nos troféus organizados pela indústria cinematográfica, sequer competiu: ficou fora da lista no The Actor, do Sindicato dos Atores dos EUA, e no Bafta.
Fica a torcida para que o Brasil não desista do cinema nacional. Aliás, o sucesso de bilheteria de Ainda Estou Aqui (5,8 milhões de ingressos vendidos) e de O Agente Secreto (2,4 milhões) não esconde uma realidade perturbadora: dos filmes brasileiros lançados em 2025, 54,7% não conseguiram alcançar a marca de 1 mil espectadores.
A boa notícia é que, pelo menos lá fora, nosso cinema está em evidência. Vale frisar: com Ainda Estou Aqui e O Agente Secreto, emplacamos duas indicações seguidas ao Oscar de melhor filme. Esses mesmos títulos ganharam prêmios em dois dos três principais festivais do mundo, o de Veneza e o de Cannes — e O Último Azul fechou a trinca ao levar o Urso de Prata em Berlim.
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