
Neste domingo (15), no Dolby Theatre, em Los Angeles, ocorre a 98ª cerimônia do Oscar. A esta altura do campeonato, você já deve estar cansado de ouvir falar em O Agente Secreto, Pecadores e Uma Batalha Após a Outra, ou de Wagner Moura, Timothée Chalamet e Jessie Buckley.
Então, nesta coluna vou listar os patinhos feios da premiação da Academia de Hollywood. Aqueles belos filmes que costumam ser rejeitados porque competem em uma categoria não tão badalada, como maquiagem e cabelos e os documentários, ou que não tiveram um lançamento comercial à altura da sua relevância e da sua qualidade.
Os sete títulos abaixo estão disponíveis no streaming.
1) Blue Moon: Música e Solidão (2025)

De Richard Linklater. Mesmo disputando categorias de peso (melhor ator, com Ethan Hawke, e roteiro original, escrito por Robert Kaplow com inspiração em cartas de Lorenz Hart e Elizabeth Weiland) e tendo um diretor conhecido — Linklater é o cineasta da trilogia Antes do Amanhecer (1995), Antes do Pôr do Sol (2004) e Antes da Meia-Noite (2013), estrelada pelo próprio Hawke —, este filme foi desprezado pelo mercado brasileiro. Não estreou nos cinemas nem nas plataformas de streaming: por enquanto, só está disponível para aluguel.
Ethan Hawke interpreta Lorenz Hart (1895-1943), um famoso letrista da Broadway, onde manteve uma parceria de 25 anos com o compositor Richard Rodgers (1902-1979) — no filme, encarnado por Andrew Scott. Juntos, eles criaram sucessos como a própria Blue Moon e My Funny Valentine.
Blue Moon se passa na noite de 31 de março de 1943 e é quase todo ambientado dentro de um restaurante de Nova York, o Sardi's. É lá, junto ao bartender vivido por Bobby Cannavale, que Hart vai afogar as mágoas depois de assistir à estreia do novo musical do seu antigo parceiro, Oklahoma!, agora com um novo letrista, Oscar Hammerstein II (1895-1960).
Por meio de diálogos imaginados que misturam ironia e melancolia, o protagonista exibe tanto o seu egocentrismo e a sua arrogância quanto sua solidão e suas inseguranças. Além de ter um sério problema com a bebida, Lorenz Hart sofria por causa da sua sexualidade. Talvez fingisse pra ele mesmo que não era gay, e daí fantasiava sobre a possibilidade de um romance com uma garota de 20 anos, Elizabeth Weiland, papel de Margaret Qualley. (Para aluguel em Amazon Prime Video, Apple TV, Google Play e YouTube)
2) A Meia-Irmã Feia (2025)

De Emilie Blichfeldt. A diretora e roteirista norueguesa reconta a fábula de Cinderela pelos olhos de uma de suas irmãs malvadas neste título indicado ao Oscar apenas na categoria de maquiagem e cabelos. Não chega a ser um filme do tipo Malévola, Cruella ou Wicked, que reabilitam, respectivamente, as vilãs de A Bela Adormecida, Os 101 Dálmatas e O Mágico de Oz. A protagonista de A Meia-Irmã Feia, Elvira (papel de Lea Myren), é mesquinha, invejosa e até sádica. Mas essa garota também sofre. Principalmente, por causa de sua aparência.
O mundo onde Elvira vive parece antigo nos cenários, nos figurinos e nos meios de transporte, mas no fundo tem a cara do mundo de hoje, tão obcecado pela beleza. A personagem se acha feia e se julga acima do peso que a sua mãe, Rebekka (Ane Dahl Torp), considera ideal.
Elvira se torna ainda mais autocrítica quando Rebekka se casa de novo e elas se mudam para a casa onde mora a belíssima Agnes (Thea Sofie Loch Næss). E tudo piora quando o padrasto morre: a mãe descobre que o falecido marido estava falido e passa a encarar o casamento de uma das filhas com o príncipe Julian (Isac Calmroth) como a garantia da sobrevivência financeira da família.
Para que Elvira tenha chances de atrair Julian, Rebekka submete a filha a uma série de cirurgias dolorosas e de dietas muito excêntricas. Vale avisar: filiado ao chamado body horror, o terror corporal, A Meia-Irmã Feia não tem pudor de mostrar cenas grotescas. (MUBI)
Minhas colunas sobre o Oscar 2026
3) Embaixo da Luz de Neon (2025)

De Ryan White. Indicado ao Oscar de melhor documentário, tem como protagonista a poeta e ativista LGBT+ estadunidense Andrea Gibson, que em 2021 recebeu um diagnóstico terrível: um câncer de ovário incurável.
Este é um filme sobre a iminência da morte e sobre a dor de quem vai ficar, a esposa de Andrea, Megan Falley, que também é poeta, mas é sobretudo um filme que celebra a vida: a sua personagem decidiu viver o máximo de tempo possível, trabalhando, amando, rindo com as amigas ou cuidando dos seus cachorros.
E o documentário é também uma celebração da poesia e da arte como um todo. É como diz a Andrea Gibson: "Qualquer um que pense que poesia é algo frívolo, nunca precisou de alguém para lhes dizer algo inexprimivelmente difícil de uma forma bonita". (Apple TV)
4) Alabama: Presos do Sistema (2025)

De Andrew Jarecki e Charlotte Kaufman. Em 2019, os diretores deste documentário concorrente ao Oscar visitaram um presídio no Estado do Alabama, no sul dos Estados Unidos, pra filmar um evento religioso. Era um dia de festa e comida boa, mas alguns presidiários se aproximaram de Jarecki — o mesmo cineasta do excelente Na Captura dos Friedmans (2003) — e Kaufman para falar que tudo aquilo ali era uma encenação, uma fantasia: o dia a dia na penitenciária era um pesadelo.
A partir daí, começou uma investigação que durou cerca de cinco anos e que contou com a participação efetiva dos próprios presidiários. Com celulares contrabandeados, esses homens fazem relatos assustadores e oferecem uma visão crua de um sistema penitenciário marcado pela superlotação, pela falta de atendimento médico adequado aos dependentes de drogas e por atos de violência cometidos pelos guardas prisionais.
Os encarcerados registram, em primeira mão, a rotina de desamparo e agressões. As gravações secretas e as ligações em vídeo entre a equipe de Alabama: Presos do Sistema e alguns apenados jogam luz sobre a morte de Steven Davis, que teve o crânio esmagado por um carcereiro.
Dois personagens fundamentais são Robert Earl e Melvin Ray, veteranos de um projeto em que presos ensinam outros presos sobre o sistema legislativo dos Estados Unidos e sobre como defender seus direitos. Nenhum dos dois passa pano para os crimes que eles e os outros presos cometeram, nenhum deles acha que deveria estar fora da prisão. O que eles querem é dignidade. (HBO Max)
5) A Vizinha Perfeita (2025)

De Geeta Gandbhir. Indicado ao Oscar de melhor documentário, o filme parte de um caso aparentemente banal — uma briga entre vizinhas em um subúrbio da Flórida — para fazer um retrato contundente do racismo e da violência legalizada nos Estados Unidos.
A Vizinha Perfeita é sobre uma tragédia que teve início com as reclamações de uma mulher branca, Susan Lorincz, por causa das crianças que ficavam brincando perto da casa dela. As relações de Susan são especialmente tensas com uma das mães dessas crianças, AJ Owens, uma mulher negra. A briga reflete o conflito racial que marca a sociedade estadunidense, principalmente nos Estados do Sul.
Um grande diferencial do documentário é a forma escolhida pra contar essa história. A diretora construiu o filme sem recorrer aos recursos tradicionais do gênero conhecido como true crime. Não tem reconstituições com atores, não tem depoimentos em frente à câmera, não tem narração em off nem música para conduzir a emoção do espectador.
O filme aposta só em registros oficiais: imagens de câmeras corporais da polícia, imagens das câmeras de segurança da vizinhança, imagens de interrogatórios policiais, ligações para o serviço de emergência. Dito assim, pode parecer algo burocrático, mas Geeta Gandbhir opera uma subversão ao transformar dispositivos de vigilância em ferramentas da memória afetiva, e a edição torna A Vizinha Perfeita muito envolvente. Não conseguimos parar de assistir até conhecer o desfecho da história. (Netflix)
6) O Diabo Não Tem Descanso (2024)

De Geeta Gandbhir e Christalyn Hampton. Candidato ao Oscar de melhor documentário em curta-metragem, retrata um dia de trabalho em uma clínica legal de aborto na cidade de Atlanta, a capital da Geórgia, outro Estado do sul dos Estados Unidos. A personagem principal é Tracii, a chefe de segurança. A missão dela e de sua equipe dela é orientar e proteger as pacientes que chegam de madrugada.
Proteger é uma palavra chave depois que a Suprema Corte dos EUA, em 2022, revogou a decisão de 1973 que garantia direito ao aborto às mulheres de todo o país. A partir dali, cada Estado pôde legislar sobre a pauta, e isso impulsionou as vozes contrárias.
Na clínica visitada pelas diretoras do documentário, os funcionários do local e as mulheres que buscam atendimento médico seguro para interromper uma gravidez não são as únicas pessoas a chegarem antes de o sol nascer. Também madrugam os homens que vão passar o dia inteiro discursando com um megafone ou mostrando cartazes antiaborto, sempre falando de Deus e do Diabo. (HBO Max)
7) Quartos Vazios (2025)

De Joshua Seftel. O curta documental indicado ao Oscar acompanha o jornalista de TV Steve Hartman e o fotógrafo Lou Bopp enquanto eles visitam os quartos de crianças e adolescentes que foram assassinados nos inúmeros tiroteios em escolas dos Estados Unidos.
As famílias preservaram os quartos dos seus filhos do jeito que estavam na última vez que as crianças saíram de casa para ir à escola. Os pais de Jackie Cazares, por exemplo, nunca apagaram as luzinhas coloridas que vigiavam o sono da menina de nove anos. Na casa do Dominic Blackwell, um adolescente fã de Bob Esponja, até o cesto de roupa suja continua no quarto, porque os pais não queriam perder o cheiro do filho.
Na abertura de Quartos Vazios, um letreiro informa que Steve Hartman cobriu pela primeira vez um tiroteio em escola em 1997. Desde então, os ataques pularam de 17 por ano pra 132 por ano. O jornalista acusa a normalização da tragédia e a espetacularização da violência. Ele percebeu que os estadunidenses estavam superando cada vez mais rápido um tiroteio em escola. E disse que a imprensa fala demais sobre os atiradores em vez de falar sobre as vítimas.
Antes de entrar em cada quarto para fotografar, Lou Bopp tira os sapatos. É um sinal de respeito a um espaço que se tornou sagrado. E o gesto talvez permita ao fotógrafo sentir mais o terreno onde está pisando, quem sabe se colocar no lugar do filho ausente e dos pais pra enxergar com o olhar deles e observar os detalhes que constituem uma existência: o cabelo em uma escova, a tampa aberta de uma pasta de dente, a coleção de conchinhas, o porta-retrato com a foto de um jogo de beisebol, o cabide com a roupa separada para usar no colégio no dia seguinte, o tênis com marcas de sujeira na borda da sola. (Netflix)
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