
Eu acho o Oscar o maior barato e já estou contando os minutos para a 98ª cerimônia de premiação, neste domingo (15), mas acho que às vezes a Academia de Hollywood erra bastante a mão ao entregar justamente o prêmio principal, o de melhor filme.
Existem muitos vencedores esquecíveis ou mesmo ruins na história do troféu. E algumas derrotas foram de cair o queixo, como a de O Segredo de Brokeback Mountain para Crash: No Limite, em 2006, e a de Ataque dos Cães para No Ritmo do Coração, em 2022.
Pois a lista abaixo pode fazer caírem alguns queixos. A começar porque não incluo Crash e No Ritmo do Coração entre os cinco piores ganhadores do Oscar de melhor filme: os dois títulos realmente me emocionaram (mas os premiados deveriam ter sido mesmo Brokeback Mountain e Ataque dos Cães). E também por causa da presença de títulos muito estimados por muita gente.
A ordem é apenas cronológica, pelo ano de entrega do Oscar.
1) O Bom Pastor (em 1945)

De Leo McCarey. O que torna esta comédia musical um dos piores ganhadores do Oscar não é tanto o seu sentimentalismo açucarado, mas o fato de que sua vitória esmagadora — foram sete conquistas, incluindo melhor filme, direção, roteiro, ator (Bing Crosby) e ator coadjuvante (Barry Fitzgerald) — contribuiu para a derrota acachapante de Pacto de Sangue (1944).
O título assinado por Billy Wilder perdeu nas sete categorias disputadas, incluindo melhor filme, direção, roteiro e atriz (Barbara Stanwyck). Mas ganhou a posteridade: é reverenciado até hoje como o longa-metragem que sintetizou, brilhantemente, a gramática do cinema noir, com suas femmes fatales e seus homens tragados por seus próprios desejos; com sua narração em off que é como uma confissão do protagonista e sua fotografia em preto e branco que aposta em sombras e silhuetas para incrementar o mistério, a ambiguidade e o sofrimento moral dos personagens.
Na trama de O Bom Pastor, um jovem padre de visão progressista é transferido para uma igreja de Nova York liderada por um pároco mais velho e conservador. Suas visões opostas os levam a se confrontar desde o primeiro encontro, mas gradualmente eles aprendem a deixar de lado suas diferenças em prol do bem da instituição. (Indisponível no streaming)
2) Rocky, um Lutador (em 1977)

De John G. Avildsen. O primeiro título da longeva franquia é, sem sombra de dúvida, um dos melhores filmes não apenas sobre o boxe, mas de esporte como um todo. Mas será que Rocky Balboa (papel de Sylvester Stallone) tinha mesmo punhos para derrotar, no ringue do Oscar, os gigantescos Rede de Intrigas, de Sidney Lumet, Taxi Driver, de Martin Scorsese, e Todos os Homens do Presidente, de Alan J. Pakula?
— Naquela noite, tudo acabou — disse Scorsese no documentário 1975: O Ano do Colapso (2025), de Morgan Neville, disponível na Netflix.
O cineasta se referia à onda de criatividade e ousadia que sacudiu o cinema estadunidense a partir do final dos anos 1960. Como escreveu o crítico Roger Lerina, a chamada Nova Hollywood legou ao mundo um conjunto de obras inconformistas que, sobrevivendo ao contexto turbulento em que foram gestadas — uma época "pós-tudo e pré-nada", como definida por alguém no documentário —, permanece provocadoramente atual 50, 60 anos depois.
A consagração de Rocky, laureado nas categorias de melhor filme, direção e edição, parece ter antecipado uma guinada conservadora na cultura e na política dos EUA — três anos depois, o republicano Ronald Reagan derrotou o então presidente, o democrata Jimmy Carter, nas eleições para a Casa Branca.
A Academia de Hollywood preteriu filmes que espelhavam mazelas em nome de mais uma típica história de redenção, de segunda chance — tema mítico em um país que nasceu justamente de uma segunda chance, a dos pobres e degradados britânicos que partiram para a América no século 17.
Os eleitores do Oscar preferiram enaltecer um personagem que simboliza o individualismo e a obsessão nacional por ser um vencedor, um número 1, do que títulos que olhavam para uma sociedade em crise. Em 1975: O Ano do Colapso, o professor de Cinema Todd Boyd, titular da Cátedra Katherine e Frank Price para o Estudo de Raça e Cultura Popular e também conhecido como Notorious Ph.D., vai além, apontando o racismo subjacente na trama sobre a revanche de "um cara branco da classe trabalhadora que leva uma surra de um negro linguarudo". (Canal Universal+ do Amazon Prime Video e para aluguel em Apple TV, Google Play e YouTube)
3) Shakespeare Apaixonado (em 1999)

De John Madden. É um filme simpático este que imagina os bastidores da criação da peça Romeu e Julieta, no final do século 16, retratando a fictícia paixão do Bardo de Avon por Viola de Lesseps, filha de um rico comerciante. Porém, ao tornar-se campeã do Oscar, com sete estatuetas douradas, a comédia romântica também conquistou a antipatia mundial.
A torcida brasileira, em particular, não perdoa o prêmio de melhor atriz para Gwyneth Paltrow, e de fato Fernanda Montenegro, por Central do Brasil, merecia mais o Oscar.
Mas é o triunfo na categoria principal que o planeta condena até hoje. Afinal, Shakespeare Apaixonado prevaleceu sobre quatro títulos muito superiores: O Resgate do Soldado Ryan, de Steven Spielberg, Além da Linha Vermelha, de Terrence Malick, Elizabeth, de Shekhar Kapur, e A Vida É Bela, de Roberto Benigni. E pode-se dizer que ganhou jogando sujo.
O que fez a diferença foi a campanha de marketing agressiva e sem precedentes da produtora Miramax. Na época um poderoso chefão em Hollywood e hoje cumprindo pena por um dos tantos estupros que cometeu, Harvey Weinstein gastou cerca de US$ 5 milhões para impulsionar a candidatura do filme — e bombardear o concorrente que era considerado favorito. Relatos indicam que Weinstein pressionou jornalistas a escreverem críticas negativas sobre O Resgate do Soldado Ryan.
Sua tática de guerrilha incluiu a violação de regras do Oscar, como a organização de jantares com membros da Academia e o uso de lobby telefônico direto, e a participação forçada dos atores em todos os programas de rádio e talk shows da TV possíveis. (Para aluguel em Amazon Prime Video e Apple TV)
4) O Discurso do Rei (em 2011)

De Tom Hooper. Não chega a ser um filme nocivo, mas é um crime que tenha vencido, porque todos os seus nove concorrentes no Oscar eram mais criativos, mais emocionantes, mais desafiadores.
A Academia de Hollywood se refestelou em uma zona de conforto ao premiar O Discurso do Rei nas categorias de melhor filme, direção, ator (Colin Firth) e roteiro original. O filme é mais uma história de superação pessoal, ambientada no seio da família real britânica e temperada pela ameaça de Hitler.
O protagonista, o rei George VI, não me provocou a empatia necessária. Sim, George é um canhoto que foi forçado a ser destro, ele era beliscado pela babá e ele era ridicularizado por ser gago. Mas ele era o filho do rei!
Senti mais drama nos personagens dos outros candidatos, como a bailarina reprimida pela mãe e obcecada pela perfeição de Cisne Negro.
Ou a garota que, em Inverno da Alma, precisa encontrar o pai (ou pelo menos os ossos do pai) para não perder a casa em que vive com a mãe doente e os dois irmãos pequenos.
Ou o operário aspirante a boxeador de O Vencedor, que tem como treinador o irmão viciado em crack e como empresária a mãe sem noção.
Ou o montanhista de 127 Horas, que acabou preso em uma fenda profunda e estreita nos cânions do Estado de Utah, com a mão direita e o pulso emparedados por uma rocha de quase meia tonelada.
Ou o ladrão de sonhos de A Origem, que, em sua última missão, vive um pesadelo ao reencontrar sua esposa.
Ou o nerd que, depois de levar um fora da namorada, passa a se dedicar à criação de um site de relacionamentos, o Facebook, que vai transformá-lo no mais jovem bilionário dos EUA, como contou A Rede Social.
Até os brinquedos desprezados de Toy Story 3 comovem mais do que o rei George VI. (Canal Filmelier+ do Amazon Prime Video)
5) Green Book: O Guia (em 2019)

De Peter Farrelly. Eu entendo que, por causa do sistema de votação do Oscar, o do voto preferencial, raramente é premiada a ousadia — temática, estética, política, sexual etc. Geralmente, impera o gosto médio. Ganha o filme mais palatável. Mas Green Book, que derrotou Infiltrado na Klan, Roma, A Favorita e Pantera Negra, entre outros, nem poderia ser considerado palatável.
O filme era para ser a história de um pianista de jazz, Don Shirley, que enfrentou o racismo em uma turnê pelo sul dos Estados Unidos, em 1962. Virou a história de um homem branco, o motorista e segurança do artista, que ensina quase tudo ao negro.
Não à toa, Mahershala Ali, que recebeu o Oscar de ator coadjuvante no papel de Shirley, pediu desculpas à família do músico.
Não à toa, Spike Lee, diretor de Infiltrado na Klan, ficou visivelmente fulo da vida na hora em que anunciaram Green Book como vencedor. Ele disse que se sentiu como se estivesse na quadra do New York Knicks, o time de basquete do qual é torcedor fanático, e o juiz tivesse acabado de tomar uma decisão ruim.
Não à toa, o Oscar de melhor filme para Green Book (também premiado na categoria de roteiro original) fez a Academia de Hollywood dar uma turbinada no convite pra incluir artistas e técnicos de comunidades étnicas sub-representadas, com o objetivo de aumentar a representatividade e diminuir o racismo estrutural nas escolhas dos indicados e dos vencedores. (Amazon Prime Video)
É assinante mas ainda não recebe minha carta semanal exclusiva? Clique aqui e se inscreva na newsletter.
Já conhece o canal da coluna no WhatsApp? Clique aqui: gzh.rs/CanalTiciano





