
Para marcar o Dia Internacional da Mulher, neste domingo, 8 de março, fiz uma lista de oito filmaços de oito diretoras, todos lançados nos últimos 10 anos e todos disponíveis no streaming.
A seleção poderia ter o dobro de títulos, o triplo, o quádruplo... Afinal, não faltam grandes filmes dirigidos por mulheres. Aliás, pouco a pouco os principais prêmios do cinema vão reconhecendo o talento feminino atrás das câmeras.
Em quase 100 anos de Oscar, apenas nove diretoras foram indicadas ao prêmio de melhor direção. Menos mal que a presença delas tem sido mais constante na premiação da Academia de Hollywood.
Chloé Zhao, que no dia 15 de março concorre por Hamnet: A Vida Antes de Hamlet, já tinha vencido o Oscar por Nomadland, em 2021. Também em 2021, Emerald Fennell competiu por dirigir Bela Vingança. Em 2022, Jane Campion recebeu o troféu por Ataque dos Cães. Em 2024, Justine Triet foi indicada por Anatomia de uma Queda. E no ano passado, Coralie Fargeat disputou o Oscar de melhor direção por A Substância.

O quadro é semelhante nos três principais festivais de cinema do mundo.
No Festival de Cannes, na França, apenas na 46ª edição a Palma de Ouro foi para um filme dirigido por uma mulher: O Piano, de Jane Campion (que, vale dizer, dividiu o troféu com Chen Kaige, diretor de Adeus, Minha Concubina). Demorou quase 30 anos para que outra mulher conquistasse o prêmio máximo: Julia Ducournau, por Titane, em 2021. Em 2023, Justine Triet ganhou por Anatomia de uma Queda.

No Festival de Veneza, na Itália, o Leão de Ouro tinha ido para uma diretora só quatro vezes nas 63 primeiras edições. Mas o olhar feminino conquistou um "tricampeonato" entre 2020 e 2022, com Nomadland, de Chloé Zhao, O Acontecimento, de Audrey Diwan, e All the Beauty and the Bloodshed, um documentário de Laura Poitras.
No Festival de Berlim, na Alemanha, somente uma vez o Urso de Ouro foi entregue a uma diretora entre 1951 e 2005. De lá para cá, já houve seis vitórias: Em 2006, deu Em Segredo, de Jasmila Zbanic; em 2009, A Teta Assustada, de Claudia Llosa; em 2017, Corpo e Alma, de Ildiko Enyedi; em 2018, Não me Toque, de Adina Pintilie; em 2022, Alcarràs, de Carla Simón; e em 2024, Dahomey, de Mati Diop.
Os oito filmaços que eu indico convidam a fazer uma pequena volta ao mundo através do cinema: as diretoras representam Brasil, México, Estados Unidos, Bósnia e Herzegovina, Escócia, Espanha, França e Índia. A ordem é apenas do ano de estreia. Clique nos links se quiser saber mais.
1) Retrato de uma Jovem em Chamas (2019)

De Céline Sciamma. Na França, em 1776, uma pintora (Noémie Merlant) é contratada para viajar a uma ilha e fazer o retrato de uma garota (Adèle Haenel) prometida em casamento para um cavalheiro de Milão. A artista e a musa se apaixonam, mas esse romance precisa ser nutrido em segredo e em silêncio. Aliás, o som ambiente é uma das virtudes do filme. O crepitar de uma lareira ou o estouro das ondas marcam cenas: o fogo como símbolo do desejo que cresce, o mar bravio como símbolo da perturbação emocional das personagens.
Cada plano de Retrato de uma Jovem em Chamas é como um quadro que revela o talento do artista para a composição da cena, a expressividade dos personagens, o contraste das cores ou dos significados, a indução de um sentimento. O ritmo narrativo espelha o próprio processo de pintar. Isso é sugerido nos créditos de abertura: uma tela em branco que aos poucos vai recebendo pinceladas, como a nos lembrar que um quadro — ou um romance entre duas pessoas — não nasce pronto; requer camadas e mais camadas de tintas e de emoções, até que nos conquiste por completo e nos hipnotize. (Amazon Prime Video e MUBI)
2) Quo Vadis, Aida? (2020)

De Jasmila Zbanic. Concorreu ao Oscar de melhor filme internacional, representando a Bósnia e Herzegovina, e tem como pano de fundo o maior genocídio em solo europeu depois da Segunda Guerra Mundial. A diretora de Quo Vadis, Aida? acompanha o drama fictício de uma tradutora da ONU (papel de Jasna Duricic) que tenta salvar o marido e os dois filhos em meio ao Massacre de Srebrenica.
Em 11 de julho de 1995, tropas da Sérvia invadiram a cidade, apesar de ser declarada uma zona de segurança pela ONU. Nos dias seguintes, mais de 8 mil bósnios muçulmanos foram mortos. A expressão em latim do título indica o dilema ético e moral que logo se impõe: a protagonista pode usar de seu cargo para ajudar sua família? (Canal Filmelier do Amazon Prime Video, com sete dias de teste grátis)
3) A Noite do Fogo (2021)

De Tatiana Huezo. Na primeira cena, uma mulher e uma menina de seus oito, nove anos estão cavando com as mãos um buraco na terra. É uma cova? Um esconderijo? Na sequência, essa guria e mais duas amigas aparecem embrenhadas em uma floresta. Vemos e ouvimos as personagens recitando cores: amarelo, preto, amarelo, vermelho. Só na última imagem descobrimos o objeto de sua observação: uma cobra coral venenosa. À noite, a primeira garota, deitada à espera do sono, encolhe-se na cama ao flagrar, na parede, um escorpião. Pouco depois, outra surge com os cabelos bem curtinhos, como os de um menino.
Essas quatro cenas de A Noite do Fogo simbolizam o que é viver em uma comunidade violentada pelos cartéis mexicanos do narcotráfico. O perigo e a morte estão sempre nas redondezas, o silêncio e a fuga são aliados vitais, e o medo dita os passos. Sobretudo os das mães e filhas. Não à toa, o livro que deu origem ao filme foi lançado no Brasil com o título Reze pelas Mulheres Roubadas. (Netflix)
4) Aftersun (2022)

De Charlotte Wells. A diretora escocesa conta a história de um pai divorciado e sua filha de 11 anos durante uma viagem de férias pela Turquia, nos anos 1990, quando a Macarena ainda era coqueluche mundial. Ele é Calum, interpretado por Paul Mescal, indicado ao Oscar de melhor ator. Ela é Sophie, vivida pela atriz novata Frankie Corio.
Existe uma terceira personagem importante: a Sophie 20 anos mais velha (Celia Rowlson-Hall), que surge no reflexo de uma TV, assistindo às cenas do passeio gravadas por uma filmadora caseira. O seu olhar melancólico alerta: durante aqueles dias ensolarados, em meio aos banhos de piscina e aos mergulhos no mar, em meio às tardes no fliperama e às noites no karaokê, algo aconteceu, algo se perdeu, algo se quebrou. Mas o quê?, pode se perguntar o espectador diante da doçura com que o pai trata a filha e da adoração que ela tem por ele. Aqui está o ponto de Aftersun: agora adulta, Sophie pode — por mais doloroso que seja — vasculhar suas memórias à procura das fissuras que não enxergamos na infância. (MUBI)
5) Alcarràs (2022)

De Carla Simón. Premiado com o Urso de Ouro no Festival de Berlim, este drama espanhol começa com três crianças, Iris e os gêmeos Pere e Pau, brincando na carcaça de um carro, que fingem ser uma nave espacial. Parecem idílicas férias de verão, mas a vida dos pequenos e dos adultos (avós, pais, tios) está para sofrer um choque.
Os donos da terra dão um ultimato: ou a família devolve a fazenda, ou muda de negócio, trocando o cultivo de pêssegos pela instalação de painéis de energia solar. Ao não eleger um protagonista, Alcarràs ressalta a importância e o poder da comunidade em um filme sobre como a modernidade (ou a suposta modernidade) transforma radicalmente a vida no campo. E ao não estabelecer uma narrativa com um desenvolvimento dramático mais convencional, preferindo flagrar os personagens ora em cenas de crise, ora em cenas de alegria, a diretora espelha a alternância de momentos bons e ruins das vidas de todos nós. (MUBI)
6) Tudo que Imaginamos como Luz (2024)

De Payal Kapadia. A protagonista é a enfermeira Prabha (Kani Kusruti). Ela divide a casa com outra funcionária do mesmo hospital, a jovem Anu (Divya Prabha). Essas personagens convivem com idosas para quem os maridos são como assombrações e com jovens mães que sussurram sobre vasectomia para não precisarem ter mais filhos. Todas as mulheres têm de lidar com uma tradição da Índia: os casamentos arranjados. Os pais é que escolhem os noivos, por motivos sociais (pra se manter na mesma casta) ou religiosos.
A ambientação em Mumbai contribui para criar um clima de opressão em Tudo que Imaginamos como Luz. Essa é a capital asiática dos bilionários, mas 40% dos 21 milhões de habitantes moram em favelas. A diretora registra o trânsito incessante, as enormes filas nas plataformas de trem, os rostos cansados dos trabalhadores. O barulho constante das ruas contrasta com a solidão da protagonista, cujo marido arranjou um emprego na Alemanha e nunca mais voltou nem telefonou. (Telecine)
7) A Natureza das Coisas Invisíveis (2025)

De Rafaela Camelo. Glória (papel de Laura Brandão) é uma garota de 10 anos que passa as férias de verão no hospital onde sua mãe trabalha como enfermeira, em Brasília. Lá, ela conhece Sofia (encarnada por Serena), menina que chamou a ambulância por causa do acidente doméstico de sua bisavó, que tem Alzheimer em estado avançado e agora está internada. Unidas pelo desejo de sair dali, as crianças encontram conforto na companhia uma da outra. Diante da iminência da morte da matriarca, as duas famílias viajam juntas para passar os últimos dias dela em um refúgio verde no interior de Goiás.
Ganhador de três Kikitos no Festival de Gramado, A Natureza das Coisas Invisíveis defende o afeto, a delicadeza, a reconexão com o telúrico e o valor da espiritualidade. A cereja deste bolo de sabor bem caseiro é a trilha sonora, que contribui para o clima mágico e resgata pérolas do cancioneiro brasileiro dos anos 1970 e 1980. (Netflix)
8) Sorry, Baby (2025)

De Eva Victor. A diretora e roteirista também interpreta a personagem principal, Agnes, uma jovem professora de Literatura em uma universidade da zona rural da Nova Inglaterra. Quando o filme começa, ela está recebendo a visita de sua melhor amiga, Lydie (Naomi Ackie), que está grávida. As duas jantam com ex-colegas da faculdade. Esse reencontro deixa entrever uma turbulência no passado de Agnes: é como se ela estivesse presa na areia movediça, enquanto a vida dos outros ao seu redor continua. Então, a trama recua no tempo no segundo capítulo, chamado de O Ano da Coisa Ruim.
Sorry, Baby é um filme sobre trauma, mas não revela logo de cara que aborda um tema muito sensível. Aliás, Victor equilibra a contundência com o carinho, o otimismo e até o humor. Ao fim da jornada, em vez de estar arrasado o espectador pode ficar com o coração quentinho. (Para aluguel em Amazon Prime Video, Apple TV, Google Play e YouTube)
Bônus: Vermiglio (2024)

De Maura Delpero. Em 1944, a chegada de um soldado desertor da Segunda Guerra Mundial transforma a imensa família do professor de uma vila alpina na Itália. Cesare, o docente, exerce um tipo diferente de patriarcado: não é violento nem chega a ser abusivo, mas rotula os próprios filhos e determina seus destinos. Dino, o mais velho, é tratado pelo pai como uma decepção. Ada, a filha do meio, tem um "limite" na vida escolar.
Com olhar atento a cada um dos personagens, Vermiglio: A Noiva da Montanha acompanha, sem atropelos, os dramas que se desenvolvem ao longo das quatro estações. Não por acaso, o homônimo concerto pra violino de Vivaldi pontua a trilha sonora. (Canal Filmelier+ do Amazon Prime Video)
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