
O nome escolhido pela Disney para lançar no Brasil o 30º longa-metragem da Pixar é quase uma admissão de mediocridade: Cara de Um, Focinho de Outro (Hoppers, 2026). Em cartaz nos cinemas a partir desta quinta-feira (5), o filme é exatamente o que o título sugere.
Foi fabricado no mesmo estúdio de animação digital que encantou o mundo com a originalidade de clássicos como Toy Story (1995), Monstros S.A. (2001), Procurando Nemo (2003), Wall-E (2008), Up: Altas Aventuras (2009), Divertida Mente (2015) e Viva: A Vida É uma Festa (2017). Mas é tão genérico que o único certificado de procedência é o famoso abajur que faz as vezes da letra i nos créditos de abertura.
E não sou só eu que senti isso. Mesmo comentários elogiosos trazem um travo amargo.
"Tem muita diversão aqui, algumas das frases de efeito são excelentes e o final frenético é deliciosamente exagerado. Infelizmente, ainda é um filme da Pixar de segunda categoria", escreveu o crítico Kevin Maher no jornal britânico The Times.
"Um filme divertido e singelo, com energia e charme suficientes para manter as crianças entretidas, e, assim, não dá vontade de criticá-lo muito. Mas a lembrança do que a Pixar já foi... Ainda pode nos fazer questionar para onde foi toda aquela energia, originalidade e talento artístico", afirmou Bilge Ebiri no site Vulture.
Kristen Lopez, do The Film Maven, disse que Cara de Um, Focinho de Outro "é um dos melhores filmes da Pixar nos últimos anos" — mas deu nota C+.
A verdade é que já há alguns anos a Pixar não vive um bom momento. Sim, Divertida Mente 2 (2024) foi um sucesso estrondoso: com US$ 1,7 bilhão arrecadados, é a décima maior bilheteria de todos os tempos. Mas não ganhou o Oscar da categoria — perdeu para Flow: À Deriva, filme da Letônia produzido em um software de animação gratuito, o Blender. Aliás, apesar de ser o campeão de vitórias na premiação da Academia de Hollywood, com 11 conquistas, o estúdio californiano já não ergue uma estatueta dourada desde 2021, quando Soul venceu.
Não será em 2026 que a Pixar voltará a triunfar no Oscar. O título antecessor de Cara de Um, Focinho de Outro, Elio (2025), está indicado ao prêmio de melhor longa de animação, mas aparece em último lugar nos sites de apostas, atrás de Guerreiras do K-Pop (2025) — o favorito, já laureado pela Associação dos Produtores dos EUA, no Globo de Ouro e no Annie —, Zootopia 2 (2025), A Pequena Amélie (2025) e Arco (2025).
E, comercialmente, Elio foi um fracasso monumental: somou apenas US$ 154 milhões. É mais do que faturaram Red: Crescer É uma Fera em 2022 (US$ 21,8 milhões), Luca em 2021 (US$ 51,1 milhões), Soul em 2020 (US$ 121,9 milhões) e Dois Irmãos também em 2020 (US$ 141,9 milhões). Mas todos esses quatro títulos tiveram seu desempenho financeiro bastante prejudicado pela pandemia de covid-19 declarada em 11 de março de 2020 pela Organização Mundial da Saúde (OMS). Ou os filmes foram lançados diretamente no streaming, com algumas exibições especiais nos cinemas, ou enfrentaram o fechamento abrupto das salas, as restrições por motivos sanitários e o medo dos espectadores de serem contaminados pelo vírus.
A trama de "Cara de Um, Focinho de Outro"

Cara de Um, Focinho de Outro é o primeiro filme para cinema dirigido por Daniel Chong, o criador da série de animação Ursos Sem Curso (2014-2019). Ele divide com Jesse Andrews a autoria do roteiro, e o elenco de vozes inclui a tricampeã do Oscar Meryl Streep, como a Rainha dos Insetos — na versão dublada brasileira, o papel coube a Renata Sorrah.
A personagem principal é Mabel Tanaka, uma garota que passa tempo com sua avó na clareira da floresta da cidade de Beaverton, onde moram muitos animais selvagens — em especial, uma colônia de castores. Inspirada pela vó, Mabel desenvolve um profundo amor pelo mundo natural.

Anos depois, Jerry Generazzo, o prefeito de Beaverton, anuncia planos para substituir a clareira por uma rodovia, alegando que todos os animais desapareceram. Mabel, agora com 19 anos, é sua maior opositora. Ela tenta mobilizar os moradores locais para sua causa, mas fracassa.
Se o ativismo político não funciona, a solução pode ser recorrer à tecnologia dos filmes de ficção científica. Mabel descobre que sua professora de Biologia, a doutora Samantha Fairfax, desenvolve secretamente com seus colegas um dispositivo que permite o "salto" de uma consciência humana para dentro de um animal robótico, a fim de se aproximar de sua respectiva espécie para aprender mais sobre ela.
Mabel, então, empresta sua mente a um castor robótico extremamente realista e parte para a floresta com o intuito de se comunicar com os animais e salvar seu habitat da destruição.

Como este é um filme da Pixar, não faltam momentos ternos, piadas para adultos, cenas de ousadia visual e mensagens edificantes.
A relação de Mabel com sua avó é tocante — o prólogo de Cara de Um, Focinho de Outro remete ao de Up. A presença de um tubarão assassino que voa é realmente surpreendente, assim como o reconhecimento, em uma obra bastante destinada ao público infantil, da existência de uma cadeia alimentar — a "regra número 3 do lago" diz: quando estiver com fome, coma. Mesmo que seja outro animal!
E isso não contradiz a lição ecológica: precisamos entender que somos todos partes de algo maior, que somos todos integrantes da natureza, que homem, bicho, planta, água, ar e terra são interdependentes.
Mas volta e meia Cara de Um, Focinho de Outro se rende ao formulaico e às convenções das aventuras de amadurecimento e transformação. Ou quebra a própria magia ao escorregar no óbvio. Um exemplo é a cena em que a avó de Mabel diz para a neta escutar a natureza. Por um instante, o filme se permite o silêncio para, aqui e ali, ouvirmos o som de animais, de um rio, do vento. Mas logo uma música melosa rompe esse convite à conexão com o mundo natural.
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