
A exemplo do vampiro criado por Bram Stoker no romance Drácula (1897), a Criatura que ganhou vida no livro Frankenstein (1818), de Mary Shelley, nunca sai de moda. Nos últimos anos, já inspirou quatro filmes: Pobres Criaturas (2023), Lisa Frankenstein (2024), Frankenstein (2024) e A Noiva! (The Bride!, 2026), título que entra em cartaz nos cinemas nesta quinta-feira (5).
Trata-se do segundo longa-metragem dirigido pela atriz estadunidense Maggie Gyllenhaal, depois de A Filha Perdida (2021), versão do romance homônimo de Elena Ferrante que concorreu ao Oscar nas categorias de melhor atriz (Olivia Colman), atriz coadjuvante (Jessie Buckley) e roteiro adaptado. Agora, a diretora faz uma releitura do clássico filme de terror A Noiva de Frankenstein (1935), de James Whale.
O elenco é estelar. A protagonista é Jessie Buckley, grande favorita ao Oscar de melhor atriz por Hamnet: A Vida Antes de Hamlet (2025). Ao seu lado, estão Christian Bale, ganhador do Oscar de ator coadjuvante por O Vencedor (2010); Annette Bening, cinco vezes indicada ao prêmio da Academia de Hollywood; Penélope Cruz, laureada como atriz coadjuvante por Vicky Cristina Barcelona (2008); e Jake Gyllenhaal, que concorreu como coadjuvante por O Segredo de Brokeback Mountain (2005).

Como Elsa Lanchester em A Noiva de Frankenstein, Buckley abre o filme interpretando a própria Mary Shelley, no além e sob uma fotografia em preto e branco. Ela conta que já está há mais de um século pensando na continuação de sua obra-prima: "Será uma história de tragédia? Uma história de horror? Ou algo muito mais assustador, uma história de amor?"
Então, conhecemos a outra personagem vivida por Buckley, Ida, uma acompanhante de luxo para mafiosos na Chicago de 1936. Em um passe de mágica que Mary Shelley define como possessão, a escritora funde sua mente com a de Ida. Não demora para que o ímpeto feminista e os insultos proferidos pela protagonista se revertam no seu apagamento e no seu silenciamento. Literalmente.

O cadáver de Ida vai ser desenterrado pelo monstro de Frankenstein (papel de Christian Bale), carinhosamente apelidado de Frank pela doutora Euphronius (Annette Bening), que, após relutar, aceita criar uma companheira para aplacar a imensa solidão da Criatura.
Juntos, Frank e a chamada Noiva se tornam criminosos acidentais e amantes em fuga, ao estilo do casal Bonnie Parker e Clyde Barrow, celebrizado na década de 1930 e eternizado por Faye Dunaway e Warren Beatty em Bonnie e Clyde: Uma Rajada de Balas (1967). O filme dirigido por Arthur Penn é um dos quais A Noiva! cita. A lista inclui os musicais com Fred Astaire e Ginger Rogers da década de 1930, O Jovem Frankenstein (1974) e Dick Tracy (1990).

Entrementes, Maggie Gyllenhaal vai dando emprego para a família. Seu irmão, Jake Gyllenhaal, encarna Ronnie Reed, um galã dos musicais de Hollywood que é o ídolo de Frank. O marido da diretora, Peter Sarsgaard, vive o desleixado detetive Jake Wiles, que caça os dois foras-da-lei na companhia de sua secretária, Myrna Mallow (Penélope Cruz). Mais de uma vez, o filme diz com todas as letras que Myrna é o verdadeiro cérebro da dupla.
Aliás, esse é um dos pontos fracos de A Noiva!: seu discurso sobre a misoginia do mundo é batido, repetitivo e raso. Com a palavra, Stephanie Zacharek, crítica da revista Time: "É possível se identificar com a raiva coletiva das mulheres e ainda assim achar sua expressão no filme insuficiente".
E tal qual o doutor Victor Frankenstein, Maggie Gyllenhaal resolveu juntar partes de corpos que não necessariamente se harmonizam nem beneficiam a obra. Serve uma mistureba que inclui filme de gângster (com direito a muitos tiros na cabeça), tentativas de fazer comédia, cenas de sexo excêntrico, números de dança com anacronismo musical (há um DJ em um inferninho visitado por Frank e a Noiva) e muita, muita gritaria.
O ponto de exclamação no título é um alerta que não pode ser desconsiderado. Com orçamento entre US$ 80 milhões e US$ 100 milhões, A Noiva! adora o excesso e a fúria. No corre-corre promovido pela diretora Maggie Gyllenhaal, a personagem da atriz Jessie Buckley é uma metralhadora verbal, berrando palavras de ordem sobre identidade feminina, empoderamento e revide à sistemática violência física, sexual e psicológica. A Noiva tem até um bordão que parece surgido para ser adotado em vídeos do Tik Tok: "Ataque cerebral!".
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