
Nuremberg (2025) é o tipo de filme que costuma ter vaga compulsória no Oscar.
Além de ser baseado em uma história real ligada à Segunda Guerra Mundial, mistura dois subgêneros bastante apreciados pela Academia de Hollywood: o drama sobre o Holocausto, como os oscarizados A Escolha de Sofia (1982), A Lista de Schindler (1993), O Pianista (2002), Os Falsários (2007), Ida (2013), O Filho de Saul (2015) e Zona de Interesse (2023), e o drama de tribunal, como 12 Homens e uma Sentença (1957), Testemunha de Acusação (1957), Kramer vs. Kramer (1979), Questão de Honra (1992), Filadélfia (1993), Argentina, 1985 (2022) e Anatomia de uma Queda (2023).
Os dois protagonistas, Russell Crowe e Rami Malek, já venceram o Oscar de melhor ator — um, por Gladiador (2000), o outro, por Bohemian Rhapsody (2018). E Michael Shannon e Richard E. Grant já foram indicados na categoria de coadjuvante — o primeiro, por Foi Apenas um Sonho (2008) e Animais Noturnos (2016), e o segundo, por Poderia me Perdoar? (2018).
Mas o Oscar de 2026 esnobou completamente Nuremberg, que estreou nos cinemas de Porto Alegre na quinta-feira (26). Aliás, o filme foi ignorado por todas as premiações importantes, como o Globo de Ouro e o Bafta, da Academia Britânica. Merecidamente.

Ao contrário do que alguns podem pensar, Nuremberg não é uma refilmagem de Julgamento em Nuremberg (1961), título assinado por Stanley Kramer que ganhou o Oscar de melhor ator (Maximilian Schell) e o de roteiro adaptado e que recebeu mais nove indicações, incluindo melhor filme, direção, outra na categoria de ator (Spencer Tracy), ator coadjuvante (Montgomery Clift) e atriz coadjuvante (Judy Garland).
Esse filme em preto e branco não é sobre o julgamento dos líderes nazistas, que já haviam sido condenados, mas de quatro juízes que usaram seus cargos para permitir e legalizar as atrocidades contra os judeus. Nuremberg, por sua vez, reconstitui o processo jurídico realizado entre 20 de novembro de 1945 e 1º de outubro de 1946 e dedicado a provar os crimes contra a humanidade e o genocídio do povo judeu cometido pelos militares da Alemanha durante a Segunda Guerra Mundial.
Trata-se do segundo longa-metragem dirigido por James Vanderbilt, um dos roteiristas de Zodíaco (2007), de David Fincher, 10 anos após o primeiro, Conspiração e Poder (2015), que era sobre a investigação conduzida em 2004 pelo programa 60 Minutes, da rede de TV CBS, acerca da suposta participação do então presidente George W. Bush na Guerra do Vietnã, nos tempos de serviço militar. Entre um filme e outro, Vanderbilt escreveu roteiros de títulos como Mistério no Mediterrâneo (2019) e Mistério em Paris (2023), Pânico (2022) e Pânico VI (2023).
Em Nuremberg, o próprio diretor assina o script, que adapta o livro O Nazista e o Psiquiatra (2016), escrito pelo jornalista Jack El-Hai. O filme começa em 7 de maio de 1945, com um letreiro que informa: Adolph Hitler está morto, e a Segunda Guerra matou mais de 70 milhões de militares e civis.

Na cena de abertura, logo após urinar em uma suástica pintada ao pé de uma estrada, um soldado dos EUA põe-se em alerta: vem vindo um carro oficial do governo da Alemanha. De dentro do veículo, após rasgar um pedaço de pano do vestido branco de sua filhinha para acenar sua rendição, sai Hermann Göring, marechal do Terceiro Reich e o segundo homem na hierarquia nazista. Sua pose faz jus a seu poder: como se não estivesse se tornando um prisioneiro, ele solicita, em alemão, que alguém se encarregue de pegar suas bagagens.
Roliço como o papel pede, Russell Crowe tem em Nuremberg uma de suas melhores atuações dos últimos anos. Seu Göring é um estrategista malicioso, vaidoso e presunçoso — "Nenhum homem me derrotou. Há livros com os nomes dos que tentaram", brada o personagem. O ator brilha especialmente nos arroubos de arrogância, porque evita a caricatura.
Seus principais colegas de elenco, porém, não podem ser elogiados. Michael Shannon ligou o piloto automático para interpretar Robert Jackson, um membro da Suprema Corte dos EUA que vai trabalhar pela condenação das lideranças nazistas no julgamento em Nuremberg. Leo Woodall faz o sargento Howie Triest, um tradutor que se torna desnecessário ao longo do filme — o roteiro tenta redimir sua insignificância com um monólogo que falha na sua clara intenção de emocionar. E Rami Malek, desde sua primeira cena, compromete na pele de Douglas Kelley, um psiquiatra militar que realmente existiu.

No filme, o tenente-coronel Kelley é convocado para avaliar a saúde mental dos 22 réus, sobretudo Hermann Göring, Rudolf Hess (encarnado por Andreas Pietschmann), Julius Streicher (Dieter Riesle), Karl Dönitz (Peter Jordan) e Robert Ley (Tom Keune). O psiquiatra admira a inteligência de Göring e, de certa forma, vê no narcisismo do Reichsmarschall uma espécie de espelho de suas próprias aspirações pessoais — ele planeja usar suas anotações dessas interações para escrever um livro e adquirir fama e dinheiro.
Como observou o crítico André Miranda em O Globo, há um descompasso entre a atuação de Crowe e a de Malek, que "está sempre um tom acima, com expressões exageradas e muito trejeitos". A inexperiência de James Vanderbilt como diretor parece pesar muito. Aliás, Vanderbilt também ficou muito refém da palavra: tudo é sempre dito, quase nunca mostrado, com bastante didatismo (o que não chega a ser ruim) e abundância de frases de efeito — tipo "Eu sou o livro, e você é a nota de rodapé!".
Faltou carpintaria, faltou ourivesaria. Tirando a sequência de abertura e uma brevíssima, mas poderosa participação de Richard E. Grant como Sir David Maxwell Fyfe, um jurista e político britânico que colaborou com Robert Jackson na promotoria do caso, não há quase nada memorável nas duas horas e meia de Nuremberg. O momento mais marcante não é fruto do trabalho de ficcionalizar os fatos: é quando os nazistas são obrigados a assistir a um filme sobre os campos de concentração libertados, como Bergen-Belsen, Buchenwald e Dachau.
As imagens do Holocausto utilizadas na versão dramatizada do julgamento de Nuremberg são as mesmas exibidas aos réus reais. Mais de 80 anos depois, seguem sendo avassaladoras e dilacerantes: cadáveres empilhados e sobreviventes esquálidos. Retratos de um píncaro da desumanidade e relatos sobre a industrialização do genocídio. Não à toa, Nuremberg fecha com uma citação famosa do filósofo e historiador britânico R.G. Collingwood (1889-1943): "A única pista para o que o homem pode fazer é o que o homem já fez".
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