
Uma Batalha Após a Outra (One Battle After Another, 2025) não é o líder de indicações ao Oscar — tem 13, contra as 16 de Pecadores (2025), novo recordista na história da premiação de Hollywood. Mas certamente é o favorito a conquistar o principal prêmio na cerimônia do dia 15 de março, no Dolby Theatre, em Los Angeles.
Um passo muito importante foi dado neste sábado (28). Uma Batalha Após a Outra ganhou a categoria de melhor filme no PGA Awards, o troféu da Associação dos Produtores dos EUA. Essa premiação costuma se mostrar bem alinhada à escolha da Academia de Hollywood. Desde o seu surgimento, em 1990, houve 26 coincidências entre o PGA Awards e o Oscar em 36 vezes, incluindo as últimas cinco (Nomadland, No Ritmo do Coração, Tudo em Todo o Lugar ao Mesmo Tempo, Oppenheimer e Anora).
Disponível na plataforma de streaming HBO Max, Uma Batalha Após a Outra vem vencendo praticamente tudo. Depois de ter sido eleito o melhor filme no Gotham Awards, que abre a temporada de premiações, no dia 1º de dezembro, o título já conquistou o troféu da National Board of Review (uma organização de críticos), o Critics Choice, o Globo de Ouro de melhor comédia ou musical e o Bafta (da Academia Britânica).
O cineasta Paul Thomas Anderson, por sua vez, já ganhou o Bafta de melhor direção, o prêmio da National Board of Review e o DGA Awards, o troféu do Sindicado dos Diretores dos EUA. Desde a estreia dessa premiação, em 1949, apenas oito vezes o vencedor não repetiu o feito no Oscar. E as escolhas coincidiram em 26 das últimas 31 edições.
Parece que Anderson finalmente vai se livrar da pecha de maior perdedor do Oscar. Ele concorreu 11 vezes na premiação da Academia de Hollywood, por seis filmes diferentes: Boogie Nights: Prazer Sem Limites (1997), Magnólia (1999), Sangue Negro (2007), Vício Inerente (2014), Trama Fantasma (2017) e Licorice Pizza (2021). Nunca venceu.
Neste domingo (1º), o décimo longa-metragem dirigido por PTA disputa seis categorias do The Actor, o novo nome do prêmio do Sindicato dos Atores dos EUA: melhor elenco, ator (Leonardo DiCaprio), atriz (Chase Infiniti), ator coadjuvante (com Benicio Del Toro e Sean Penn), atriz coadjuvante (Teyana Taylor) e elenco de dublês.
No Oscar, Uma Batalha Após a Outra recebeu 13 indicações:
- Melhor filme
- Melhor direção (Paul Thomas Anderson)
- Melhor ator (Leonardo DiCaprio)
- Melhor ator coadjuvante (Benicio Del Toro e Sean Penn)
- Melhor atriz coadjuvante (Teyana Taylor)
- Melhor roteiro adaptado (Paul Thomas Anderson, a partir do romance Vineland, de Thomas Pynchon)
- Melhor fotografia (Michael Bauman)
- Melhor edição (Andy Jurgensen)
- Melhor design de produção (Florencia Martin e Anthony Carlino)
- Melhor escolha de elenco (Cassandra Kulukundis)
- Melhor música original (Jonny Greenwood)
- Melhor som
Filme despertou paixão à primeira vista

A crítica norte-americana se apaixonou à primeira vista por Uma Batalha Após a Outra. Na época da estreia nos cinemas, David Fear afirmou na Rolling Stone que "o thriller impressionante e estrondoso de Paul Thomas Anderson sobre pais, revoluções fracassadas e nossos momentos fodidos é, sem dúvida, o filme do ano".
Para Owen Gleiberman, da Variety, esta é a primeira obra de PTA desde Magnólia que convida o público a adentrar seu universo com a mesma paixão empregada na sua criação.
Na Time, Stephanie Zacharek escreveu que "Uma Batalha Após a Outra se desenrola em um zilhão de direções simultaneamente, a ponto de você não conseguir imaginar como tudo vai terminar. Anderson mantém todas as partes em movimento com destreza, com a ajuda do diretor de fotografia Michael Bauman e do editor Andy Jurgensen" — e, como de hábito na carreira do diretor, observamos um uso criativo e sofisticado de planos, enquadramentos, movimentos de câmera, edição de imagens etc.
Segundo Barry Hertz, do canadense The Globe and Mail, a trama prende o espectador desde o primeiro minuto e, "antes que você tenha tempo de recuperar o fôlego e tentar se desvencilhar da rapidez com que foi levado do ponto A ao B, a viagem acaba e você precisa dar outra volta".
Qual é a trama de "Uma Batalha Após a Outra"?

De fato, as duas horas e 40 minutos de duração passam voando porque, fazendo jus ao título, Uma Batalha Após a Outra simplesmente não para (aliás, a música composta por Jonny Greenwood, ora um piano nervoso, ora um delicado violão, também quase não para de tocar, e a percepção de sua onipresença constitui um raro ponto negativo). Trata-se de uma mistura de filme de ação, drama familiar e comédia maluca, tudo temperado com comentários políticos.
Inclui tiroteios, explosões, fugas pelos telhados dos edifícios, uma sequência antológica de perseguição automobilística em uma estrada no meio do deserto — cheia de subidas e descidas, sol cegante e olhares aflitos pelo retrovisor — e personagens e grupos com nomes exóticos: Ghetto Pat (uma das alcunhas do protagonista interpretado por Leonardo DiCaprio), Perfidia Beverly Hills (papel de Teyana Taylor, atriz e cantora vista no recente Até a Última Gota), Sensei Sergio St. Carlos (Benicio Del Toro), Junglepussy (Shayna McHayle), os Aventureiros Natalinos e as Irmãs do Castor Valente, freiras que cultivam maconha e ensinam a atirar com metralhadoras nas fictícias Montanhas Chupacabra.
A capacidade de entreter o público, a aprovação da crítica e a grife do diretor e do protagonista influenciam bastante as especulações sobre o Oscar, mas há um outro fator importantíssimo: o discurso político, alinhado às preocupações de grande parte da indústria cinematográfica em relação a temas como a ascensão da extrema-direita, a possibilidade do fim da separação entre Estado e Igreja nos Estados Unidos (o presidente Donald Trump já questionou publicamente a laicidade e já emitiu ordem executiva para eliminar o que ele chamou de "viés anticristão" dentro do governo federal), o autoritarismo, o racismo e a xenofobia.
Uma Batalha Após a Outra é livremente baseado no romance Vineland, do escritor Thomas Pynchon, o mesmo autor da história de Vício Inerente. O livro foi publicado em 1990 e se passa em 1984, ano da reeleição de Ronald Reagan à presidência dos EUA. Mas o filme está ambientado nos dias de hoje — portanto, é um retorno de Paul Thomas Anderson ao tempo contemporâneo, o que não ocorria desde Embriagado de Amor (2002), embora o diretor tenha abordado questões atuais nas suas narrativas situadas no passado. E PTA reflete, em uma realidade alternativa, a divisão alarmante do país, onde ideias absurdas vem sendo normalizadas e onde a violência é uma resposta cada vez mais recorrente.

Desde o início de Uma Batalha Após a Outra, é inevitável enxergar paralelos entre o que se vê na tela e o que acontece nos EUA sob o comando de Trump, incluindo as ações para calar as vozes contrárias ao governo. Na sequência de abertura, o personagem de Leonardo DiCaprio é um dos guerrilheiros de um grupo rebelde, o French 75, que invade um centro de detenção na fronteira com o México para libertar os imigrantes. Um dos ataques seguintes é a um senador que trabalhou pela proibição do aborto.
O protagonista acaba se envolvendo romanticamente com Perfidia Beverly Hills, que vem de uma família de revolucionárias negras. Os dois têm uma filha, Charlene (vivida na adolescência, sob o nome Willa, com gana e brilho pela novata Chase Infiniti), mas o casal logo se separa, por motivos que você vai descobrir quando assistir ao filme.
O que se pode contar sem dar spoiler é que essa família vira alvo da obsessão do capitão e depois coronel Steven J. Lockjaw, encarnado por Sean Penn — que rouba a cena. Ganhador do Oscar de melhor ator por Sobre Meninos e Lobos (2003) e por Milk: A Voz da Igualdade (2008), Penn se credencia para vencer a categoria de coadjuvante na pele de um sujeito que é ao mesmo tempo ridículo e perigoso, reprimido e agressivo.

Do outro lado, o Ghetto Pat/Bob Ferguson de Leonardo DiCaprio vai, aos trancos e barrancos, desempenhar o seu papel de pai. Ambos são tipos já clássicos na obra de Paul Thomas Anderson, especialista em construir histórias intensas e de alta densidade emocional ao redor de um personagem masculino complexo, contraditório e pleno de conflitos, envolvendo temas como famílias disfuncionais, solidão, alienação, culpa, fantasmas do passado, destino e redenção.
Lockjaw empreende uma caçada humana porque ele quer entrar em uma organização milionária e secreta de supremacistas brancos, os Aventureiros Natalinos. Um dos membros dessa elite racista, Virgil Throkmorton (papel de Tony Goldwyn), cuida da Distorção e da Purificação, ou seja, cria protocolos que "justifiquem uma limpeza étnica na sociedade".
Apesar de seu coração estar claramente do lado esquerdo, Paul Thomas Anderson não deixa de ser satírico na representação dos revolucionários, que lançam surradas frases de efeito enquanto erguem o punho com a mão fechada. Alguns são figuras quixotescas, outros envelheceram e perderam o viço. Há os radicais que podem acabar jogando contra a própria causa e também aqueles que, contraditoriamente, burocratizam a insurgência — "Talvez você devesse ter estudado o manual da rebelião com mais afinco", diz o Camarada Josh (Dan Chariton) quando o protagonista não lembra de uma palavra-código, provavelmente pelo excesso de álcool e outras drogas que consumiu depois de virar um guerrilheiro aposentado que passa os dias vestido com um roupão.
Por falar em contradição, uma das melhores piadas de Uma Batalha Após a Outra utiliza um símbolo da indústria de Hollywood como símbolo do ideal revolucionário: "Liberdade é não ter medo", declara o Sensei Sergio St. Carlos. "Como Tom "fucking" Cruise!"
Paul Thomas Anderson no Oscar
- Boogie Nights: Prazer Sem Limites (1997) — Paul Thomas Anderson concorreu ao Oscar de melhor roteiro original. O filme também disputou os prêmios de ato coadjuvante (Burt Reynolds) e atriz coadjuvante (Julianne Moore). (Aluguel em Apple TV, Google Play e YouTube)
- Magnólia (1999) — Outra indicação ao Oscar de roteiro original. Tom Cruise disputou a categoria de ator coadjuvante, e Aimee Mann, a de canção, com Save Me. (HBO Max e Netflix)
- Sangue Negro (2007) — PTA competiu em dose tripla: melhor filme (como um dos produtores), direção e roteiro adaptado. Daniel Day-Lewis venceu como melhor ator, e Robert Elswit conquistou a categoria de fotografia. Houve mais três indicações: edição, direção de arte e edição de som. (Aluguel em Amazon Prime Video e Apple TV)
- O Mestre (2012) — Dessa vez, Anderson não recebeu indicação, mas o filme concorreu nas categorias de melhor ator (Joaquin Phoenix), ator coadjuvante (Philip Seymour Hoffman) e atriz coadjuvante (Amy Adams). (Amazon Prime Video)
- Vício Inerente (2014) — PTA foi indicado ao troféu de roteiro adaptado, e o filme também competiu em figurino. (Aluguel em Amazon Prime Video, Apple TV, Google Play e YouTube)
- Trama Fantasma (2017) — O cineasta disputou os prêmios de melhor filme e direção. Mark Bridges foi premiado na categoria de figurino, e houve mais três indicações: ator (Daniel Day-Lewis), atriz coadjuvante (Lesley Manville) e música original. (MUBI)
- Licorice Pizza (2021) — Outra indicação tripla: melhor filme, direção e roteiro original. (MUBI)
- Uma Batalha Após a Outra (2025) — Mais uma indicação tripla: melhor filme, direção e roteiro adaptado. (HBO Max)
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