
Velhos Bandidos (2026), que estreia nesta quinta-feira (26) nos cinemas, pode ser o último filme da atriz Fernanda Montenegro, 96 anos. Tomara que não seja. Protagonista de títulos como A Falecida (1965), Elas Não Usam Black-Tie (1981), Central do Brasil (1998) — pelo qual foi premiada no Festival de Berlim e indicada ao Globo de Ouro e ao Oscar —, O Outro Lado da Rua (2004) e Vitória (2025) e coadjuvante de luxo em O Auto da Compadecida (2000), A Vida Invisível (2019) e Ainda Estou Aqui (2024), ela merecia uma despedida mais digna.
Este filme de assalto é uma roubada. Tem mais valor afetivo do que artístico. Aliás, afeto é o sentimento que marcou as entrevistas concedidas por Fernanda sobre Velhos Bandidos, que foi dirigido e coescrito por Cláudio Torres, filho da atriz e realizador de Redentor (2004) e O Homem do Futuro (20110 e da série Magnífica 70 (2015-2018):
— Há uma hora na vida em que a gente não tem mais futuro, sem morbidez. Eu acho que só tenho o presente. E, no presente, estar com essa família de opção e ter meu filho me comandando é um momento especial na minha vida. Um presente do meu filho.
A família de opção à qual Fernanda se refere é o elenco estelar de Velhos Bandidos: Ary Fontoura, Bruna Marquezine, Vladimir Brichta e Lázaro Ramos.
— É um filme de cinco protagonistas. Isso não acontece todo dia. Tem coisa mais linda dentro da nossa área que um jogo cênico de cinco protagonistas, e ninguém querer ganhar de ninguém? — comentou a atriz.
Há outros nomes ilustres — Vera Fischer, Reginaldo Faria, Nathália Timberg, Tony Tornado e Teca Pereira —, mas todos são subaproveitados. Ou pior: alguns personagens servem apenas como veículo de chacotas de cunho sexual.

Como comédia, Velhos Bandidos provocou silêncio constrangedor na sessão para a imprensa. Como filme de roubo a banco, segue uma cartilha hollywoodiana, mas sem capricho no roteiro, na cenografia, na ação, na montagem... Como escreveu o crítico Bruno Carmelo no site Meio Amargo, "caso o espectador esteja disposto a procurar falhas e absurdos (todos eles facilmente corrigíveis com um mínimo de apuro lógico), encontrará uma lista interminável de problemas a apontar". Trata-se de uma obra preguiçosa e presunçosa: acredita que basta a reunião de um time dos sonhos para garantir o entretenimento do espectador.
Na trama, Vladimir Brichta e Bruna Marquezine interpretam o casal Sid e Nancy — a alusão ao conturbado e trágico relacionamento entre Sid Vicious (1957-1979), baixista da banda punk Sex Pistols, e sua namorada, Nancy Spungen (1958-1978), jamais se justifica em Velhos Bandidos.
Para alimentar o sonho de morar em Bora Bora — ou pelo menos em Saquarema, no Rio de Janeiro —, a dupla comete furtos em residências de idosos. Sid e Nancy dão azar quando invadem a casa vazia dos nonagenários Rodolfo (papel de Ary Fontoura) e Marta (Fernanda Montenegro). Acabam rendidos por suas vítimas e cooptados para um crime mirabolante: assaltar o cofre de um banco para levar barras de ouro que valem milhões de reais. Enquanto o quarteto ensaia para o grande roubo, surge em cena o personagem de Lázaro Ramos, o policial Osvaldo, que logo estará no seu encalço.

Todos esses personagens são parcamente construídos: existem somente por causa do talento e do carisma de seus intérpretes. Sua artificialidade pelo menos é coerente com a direção de fotografia (vide as noites excessivamente azuladas) e com os cenários (o banco, por exemplo, parece todo de mentirinha). Quem mais se esforça em dar vida interior é Vladimir Brichta. Bruna Marquezine, por sua vez, a certa altura acaba reduzida à condição de símbolo sexual: seu corpo vira o centro das atenções quando veste o traje de vinil que será usado no assalto.
E todos esses personagens são, no fundo, gente boa que se viu "obrigada" a praticar o ilícito, como explicam os diálogos expositivos do filme, que jamais dão brecha para a ambiguidade e infantilizam o público. Das motivações às reviravoltas, tudo é explicadinho. E até repetido, caso o espectador já esteja distraído olhando seu celular.
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