
O único filme que saiu do 53º Festival de Gramado sem levar Kikito estreou na quinta-feira (19) no Telecine, que pode ser acessado via Amazon Prime Video (com sete dias de teste grátis) ou Globoplay. Um dos seis longas-metragens nacionais na competição, Sonhar com Leões (2025) recebeu apenas uma menção honrosa por sua abordagem corajosa de um tema espinhoso: a morte digna, a eutanásia, o suicídio assistido.
Pois bem.
Eu reconheço a necessidade e a urgência do debate proposto por Sonhar com Leões: precisamos falar sobre esses temas, que são um tabu no Brasil.
— Falar da morte é falar da vida — disse no palco do Palácio dos Festivais, em Gramado, a atriz Denise Fraga, protagonista da trama escrita e dirigida por Paolo Marinou-Blanco.
Eu reconheço a virtude da ousadia no tratamento em chave de comédia do assunto que recentemente foi abordado por dois mestres europeus do cinema: o grego naturalizado francês Costa-Gavras, em Uma Bela Vida (2024), e o espanhol Pedro Almodóvar, em O Quarto ao Lado (2024).
— O filme nasceu de experiências difíceis e dolorosas, mas das quais quis criar coisas bonitas e corajosas — declarou, também em Gramado, Marinou-Blanco, cineasta filho de pai português e mãe grega.

O filme se apresenta como "uma tragicomédia surreal sobre a eutanásia". Gilda, a personagem interpretada por Denise Fraga, é uma imigrante brasileira vivendo em Lisboa. Ela tem uma doença terminal — a expectativa é de apenas um ano de vida pela frente, mas Gilda não aguenta mais a dor nem saber que seu corpo vai parar aos poucos. Seu único desejo é morrer enquanto ainda tem sua dignidade.
Portanto, Gilda acaba procurando a Joy Transition International, empresa alinhada ao que podemos chamar de ditadura do sorriso: tanto os empregados (vividos por Joana Ribeiro, Sandra Faleiro e Alexander Tuji Nam) quanto os clientes precisam manter uma atitude constantemente positiva, mesmo diante da morte.
— Hoje em dia tem multinacional pra tudo, até pra morrer — a protagonista comenta diretamente com o público.

Eu reconheço o frescor e a criatividade do roteiro, que, além de quebrar a quarta parede, também faz a Gilda adulta coabitar, via flashback, o mesmo quarto de hospital onde a Gilda criança viu seu pai (interpretado por Felipe Rocha) sofrer até partir por causa de um câncer no pâncreas. Enquanto isso, na outra ponta da história Amadeu (encarnado pelo ator português João Nunes Monteiro) é um agente funerário capaz de bater papo com os cadáveres que prepara para o enterro.
Eu reconheço a qualidade da dobradinha entre o trabalho de câmera comandado pelo diretor de fotografia gaúcho Glauco Firpo e a montagem de Bruno Lasevicius e Kathryn J. Schubert: os quadros costumam estar bem arquitetados, eles sabem quando acelerar e quando acalmar o ritmo, há fluidez nas transições — inclusive quando o script pede o rompimento das fronteiras entre um cenário e outro, entre um tempo e outro.

Eu reconheço a pertinência de muitas reflexões — "Mesmo morrendo, você precisa pensar nos sentimentos dos outros", reclama Gilda — e a ourivesaria na construção dos diálogos.
Eu reconheço a equalização sem pasteurização de Marinou-Blanco na direção do elenco: todos os atores estão no mesmo filme, mas cada um tem seu registro próprio de interpretação.
Eu reconheço mais um desempenho cativante de Denise Fraga, premiada em Gramado e no Festival de Havana pela atuação em Por Trás do Pano (1999) e em Brasília por Felicidade É... (1995) e Hoje (2011).
Reconheço tudo isso, mas fiquei encucado desde a primeiríssima cena de Sonhar com Leões. A pulga se instalou atrás da minha orelha e não saiu mais de lá.
É que Sonhar com Leões não é estritamente "uma tragicomédia surreal sobre a eutanásia". O filme não aborda só a eutanásia: aborda também o suicídio — e com uma perturbadora riqueza de detalhes.
Talvez metade dos seus 87 minutos de duração seja dedicada a retratar as tentativas de suicídio de Gilda. Tudo, vale repetir, é visto sob as lentes do humor.
Sonhar com Leões não apenas apresenta, com encenação ou no mínimo representação gráfica, um manual com vários métodos para tirar a própria vida, como faz piada, repetidamente, sobre o "jeito certo" em uma das formas descritas.
No jornalismo, procuramos seguir uma cartilha elaborada pela Associação Brasileira de Psiquiatria (ABP), mediante orientações da Organização Mundial da Saúde (OMS), que manifesta contrariedade ao compartilhamento de notícias sobre suicídio que contenham informações explícitas sobre o meio letal.
A arte, claro, vive de transgredir, de desafiar normas e convenções, de provocar e perturbar.
Mas a ficção está isenta de responsabilidade quando trata de um assunto sensível?
Comédias têm passe livre sempre?
Como as pessoas que têm ideação suicida reagem à exposição e à explicação de métodos?
Como os espectadores traumatizados por casos de suicídio na família ou de amigos encaram as piadas sobre as tentativas de se matar postas em prática por Gilda?
Será que Sonhar com Leões não deveria ter, nos créditos iniciais, um alerta de gatilho, um aviso prévio sobre conteúdos que podem desencadear reações emocionais intensas, desconfortáveis ou angustiantes?
A exibição no Festival de Gramado não contou com este cuidado e este gesto de empatia — aliás, a arte também vive de se colocar no lugar do outro. Mas, conforme prometido pelo produtor executivo Eduardo Rezende Lima durante o debate sobre Sonhar com Leões, o filme estreou nos cinemas e agora chegou ao Telecine trazendo um aviso: "Este filme contém cenas e temas relacionados ao suicídio". Há quem seja contra alertas de gatilho, mas acho que mal não faz em casos como este.
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