
A Netflix lançou nesta quarta-feira (18) os cinco episódios da minissérie Emergência Radioativa (2026), que reconstitui a história do acidente com Césio-137 em Goiânia, em 1987. Foi o maior desastre radioativo do mundo fora de usinas nucleares.
No dia 13 de setembro daquele ano, dois catadores entraram em um laboratório desativado onde uma máquina de radioterapia havia sido negligentemente abandonada. A dupla desmontou o aparelho e vendeu a sucata para o dono de um ferro-velho, dando início a um rastro de contaminação pelo Césio-137, um pó azul brilhante que gerou cerca de 6 mil toneladas de rejeitos e provocou mortes. Quatro pessoas, incluindo uma menina de seis anos, morreram em outubro, em decorrência direta da exposição à radiação, e estima-se que mais de cem faleceram nos anos seguintes por causa de câncer ou outros problemas.
Emergência Radioativa tem dois objetivos centrais: mostrar como a desinformação pode levar a eventos trágicos e homenagear os cientistas, os profissionais da saúde e os cidadãos anônimos que se dedicaram a interromper a contaminação e a salvar vidas. A trama foi criada por Gustavo Lipsztein, roteirista do filme O Paciente: O Caso Tancredo Neves (2018) e autor da minissérie Todo Dia a Mesma Noite (2023), sobre a tragédia da boate Kiss, em Santa Maria. Produzida pela Gullane, tem direção geral do cineasta Fernando Coimbra, realizador de O Lobo Atrás da Porta (2013) e Os Enforcados (2024).
GZH participou de uma entrevista coletiva, por vídeo, com os três principais atores da minissérie, que interpretam personagens fictícios baseados na história real. Johnny Massaro, que estrelou a série Máscaras de Oxigênio Não Cairão Automaticamente (2025), sobre o início da epidemia de aids no Brasil, encarna Márcio, físico nuclear que estava em Goiânia apenas para o aniversário do pai e, no dia em que descobre que será pai, acaba envolvido na investigação dos casos de pacientes internados por radiação.
— Quando fui fazer o teste, li a sinopse e achei que era ficção _ contou Massaro, que nasceu em 1992. — Quando descobri que era verdade, falei: meu Deus, que história horrorosa. Que importante estarmos contando agora. Se eu não conhecia, talvez muita gente também não conheça.

Em seu primeiro papel de destaque, Ana Costa dá vida a Antônia, a esposa do dono do ferro-velho, Evenildo (Bukassa Kabengele). E Paulo Gorgulho, que foi um dos catadores no filme Césio 137: O Pesadelo de Goiânia (1990) e um dos pais das vítimas da Kiss em Todo Dia a Mesma Noite, agora é Orenstein, personagem integrante da Comissão Nacional de Energia Nuclear (CNEN).
O elenco inclui Tuca Andrada, como o governador de Goiás, e Antonio Saboia, na pele de um médico. Leandra Leal e Emílio de Mello fazem participações especiais.
Entrevista com Johnny Massaro, Ana Costa e Paulo Gorgulho

A seguir, confira as respostas dos atores Johnny Massaro, Ana Costa e Paulo Gorgulho às minhas perguntas sobre a minissérie da Netflix Emergência Radioativa (2026):
Johnny, você foi protagonista em Máscaras de Oxigênio Não Cairão Automaticamente, a minissérie que retratou o início da epidemia de aids no Brasil, e agora estrela Emergência Radioativa, a minissérie sobre a tragédia do césio-137 em Goiânia. Nas duas produções, o seu personagem é tragado para dentro do furacão. Você vê semelhanças entre essas duas histórias, fora a época em que se desenrolam?
Esses dias eu vi no Twitter (o X) uma frase: "O Johnny não tem um minuto de paz, acabou de resolver o problema da aids no Brasil e agora vai resolver o problema do Césio-137". E aí eu fiquei pensando sobre essa oportunidade de fazer duas séries que lidam com histórias reais. Meu trabalho é sempre buscar o humano dentro de uma história. No caso de uma história real, eu busco redobrar o meu respeito, a minha escuta, dentro do que eu considero que é a função do ator, que é ser um contador de histórias. Fico realmente feliz. A arte pode ser realmente só um entretenimento, mas também pode informar, nutrir a sociedade, ter uma função social, política e tudo mais. E essas duas séries, eu acho que cumprem esse ciclo completo de entreter e de informar. Acho que a série honra os médicos, os físicos, os políticos, os moradores de Goiânia que se envolveram no caso do Césio-137 para resolver aquela situação. Não podemos deixar essa história ser esquecida, porque pode acontecer de novo. E se as pessoas não sabem, não têm informação, é mais fácil que se repita. Mas uma vez que as pessoas tenham informação, tenham consciência, talvez a gente possa evitar situações análogas.
Em Emergência Radioativa, o Márcio se vê num dilema: de um lado, a responsabilidade da sua profissão, como físico nuclear, de outro, o medo de se contaminar e de contaminar a própria família, incluindo o filho que recém está sendo gestado. Na vida real, o que você acha que as pessoas priorizariam?
Acho que cada um vai agir de acordo com suas próprias ferramentas. O Márcio, que é um físico, tem algum conhecimento de como lidar com a situação, mas mesmo assim tem medo de contaminar a família. Acho que dá para partir do princípio do medo: quando a gente não conhece, é óbvio que vamos sentir medo. Se fosse comigo, meu Deus do céu, eu acho que iria fugir, pegar um ônibus, um carro, tentar me afastar ali, porque realmente a coisa era tão louca... Quando a gente estava fazendo a preparação para a série, conheci um físico que trabalhou em Goiânia na época e tinha a idade do Márcio. Ele falou que eles precisaram inventar, porque não tinha protocolo, nunca tinha acontecido. Foi a partir do acidente com o Césio-137 que hoje em dia existe um protocolo mundial. Na época, eles tinham que descobrir o que fazer. Ele ia em lojas de construção e comprava coisas para tentar conter a radiação. Precisavam usar aqueles equipamentos de proteção em um calor absurdo. Esses caras foram verdadeiros heróis, com muita coragem. É isso, né? Com o medo, você lida de duas formas: ou fugindo, ou encarando. Aqueles homens e aquelas mulheres encararam.

Ana, a sua personagem em Emergência Radioativa, a Antônia, impediu que o desastre de Goiânia tomasse proporções ainda maiores. E ela fez isso não por conhecimento, mas por intuição. Assim, uma tragédia que nasceu da negligência e da desinformação foi atenuada por uma mulher que resolveu cuidar da família e buscar as autoridades em saúde. Gostaria que você falasse sobre sua personagem.
A Antônia é essa mulher que abraça a família toda. No nosso processo de construção de personagem, a gente teve um encontro na minha casa, recebi os cunhados, recebi as crianças, para vivenciar o prazer muito grande que a Antônia tinha nesse convício familiar. Ela o tempo todo sabe de tudo o que acontece com o marido, com a cunhada, com as sobrinhas. Ela teve muita percepção dentro de casa, ela conseguiu, de forma intuitiva, perceber que tinha algo errado desde o momento em que aquilo chegou em casa. Eu admiro demais a coragem dessa personagem. Emergência Radioativa mostra o drama desses heróis anônimos, as pessoas que contribuíram da maneira que puderam. A Antônia estava muito certa de que a marmita do marido tinha algo de errado, e assim ela evitou que a tragédia tivesse uma proporção muito maior.
Paulo, você trabalhou em Todo Dia a Mesma Noite, a minissérie sobre a tragédia da boate Kiss, e agora está no elenco de Emergência Radioativa, a minissérie sobre a tragédia do césio-137. Você consegue enxergar paralelos entre essas duas produções? Qual é o papel e a responsabilidade da ficção ao rememorar e reconstituir histórias trágicas e de grande repercussão do nosso país?
Em Todo Dia a Mesma Noite, tratava-se de uma questão de saúde pública. Era preciso denunciar aquilo. Foram 242 mortes e mais de 600 pessoas machucadas. Os donos da boate estavam em liberdade na época. Era preciso denunciar aquilo, era preciso fazer um serviço à população, para dizer, olha, essas pessoas que foram vítimas merecem justiça, o poder público tem que cuidar delas. Emergência Radioativa é diferente: vem fazer um tributo à população e à comunidade científica. Pessoas que talvez nunca tenham sido reconhecidas. E essa atuação acabou sendo conjunta. A população acaba, num certo momento, entendendo a gravidade da história e, mesmo sendo vítima de tudo aquilo, tenta colaborar com os cientistas na medida do possível. Eu acho muito importante ter dado protagonismo nessa série para esses cientistas brasileiros. Como vimos na época da covid, o Brasil tem cientistas capazes e brilhantes, mas muitas vezes sem os recursos necessários e sem o reconhecimento necessário. A série mostra este lado do Brasil, a nossa expertise, que muitas vezes não é retratada.
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