
Dois cinemas de Porto Alegre exibem desde quinta-feira (12) o documentário Hora do Recreio (2025), filme da renomada diretora Lucia Murat sobre o cotidiano de alunos das escolas públicas brasileiras. No Cinesystem do shopping Bourbon Country, as sessões são às 15h15min. Na Sala Norberto Lubisco da Cinemateca Paulo Amorim, na Casa de Cultura Mario Quintana, às 19h.
Carioca de 77 anos, Murat é a mesma diretora de Que Bom te Ver Viva (1989), que recebeu os Candangos de melhor filme, atriz (Irene Ravache) e edição no Festival de Brasília; de Quase Dois Irmãos (2004), laureado no Festival do Rio, nas categorias de melhor direção, melhor ator (o gaúcho de Santa Maria Flávio Bauraqui) e melhor filme latino-americano pela crítica, e no Festival de Havana, com os prêmios de edição (Mair Tavares) e música original (Naná Vasconcelos) no Festival de Havana; de Uma Longa Viagem (2011), ganhador do Kikito de melhor longa e do prêmio do júri popular no Festival de Gramado; e de Praça Paris (2017), vencedor dos troféus de direção e atriz (Grace Passô) no Festival do Rio.
Hora do Recreio conquistou a Menção Especial do Júri Jovem na mostra Generation 14plus do Festival de Berlim de 2025. O documentário mergulha na realidade da educação pública brasileira, tendo como personagens estudantes de 14 a 19 anos de quatro colégios do Rio de Janeiro.
O filme inclui a participação de três grupos de teatro das comunidades cariocas: Nós do Morro, do Vidigal; Vozes, do Pavão, Pavãozinho e Cantagalo; e Instituto Arteiros da Cidade de Deus. A cineasta utiliza a encenação de uma peça baseada no livro Clara dos Anjos, de Lima Barreto (1881-1922), como um espelho para que os jovens discutam temas como evasão escolar, racismo, tráfico de drogas, violência policial, feminicídio e gravidez na adolescência.
Por vídeo, Lucia Murat concedeu a seguinte entrevista:
Como surgiu a ideia de A Hora do Recreio? Houve algum filme que serviu de inspiração ou de referência?
Bom, como surgiu, consigo falar. Como obra de referência, fiquei pensando aqui. Tem tantos filmes importantes, eu ando meio obcecada pelo Panahi (Jafar Panahi, cineasta iraniano, autor de Foi Apenas um Acidente). Mas especificamente não tem um. O filme surgiu a partir do contato que tenho há muito tempo com esses grupos de teatro de periferia, particularmente com o pessoal do Nós do Morro. Tenho uma admiração muito grande pelo trabalho deles. E aí, nos demos conta de que nos grandes filmes de ficção eles acabam sempre fazendo papel de bandido. Então, pensei numa proposta em que eles pudessem se colocar como eles são, com as preocupações deles. Isso tinha, no meu entender, a ver com escola, com educação.

O filme prioriza a voz dos estudantes: eles são os protagonistas e têm todo o tempo para contarem suas histórias. Acho que isso casa com o que você me disse mais de 20 anos atrás, por conta da estreia de Quase Dois Irmãos: "Nós, os chamados intelectuais de classe média, quando criamos o personagem povo, ele se transforma num tratado sociológico".
Interessante você lembrar disso. Eu acho que é duro para a classe média ouvir essas histórias, a gente finge que isso não está acontecendo. Os estudantes falavam o que eles queriam. A gente estava ali dispostos a ouvir. E foi impressionante na hora das filmagens. A primeira menina que falou é a primeira menina que está no filme. Ela falou e depois foi um aluno atrás do outro. Cara, a gente chorou, a equipe chorava.
Embora tenham alguma leveza, alguma tirada de humor dos alunos, os relatos são pesados. Falam sobre violência doméstica, abandono familiar, feminicídio, racismo, homofobia, dependência química. Que tipo de cuidados foram tomados para não ultrapassar o limite de exposição desses personagens? Passa pela sua cabeça que alguém, um crítico, por exemplo, possa achar que existe uma certa exploração das dores desses alunos?
Pode ser que um crítico fale isso, mas talvez ele tenha que aprender que ele também tem que ouvir essas coisas. Uma coisa que foi muito interessante em Berlim é que eles falaram que selecionaram e premiaram o filme por que os estudantes não aparecem como vítimas. E é verdade. Eu queria muito que o final fosse aquele. Eu queria muito que no final eles estivessem sendo aplaudidos em um palco. Que é o lugar deles. Que é o lugar dessa capacidade de resistência, dessa capacidade artística.
A contundência dos relatos contrasta com o título do filme, A Hora do Recreio, que sugere uma descontração, um momento de alívio. Você pode falar sobre a escolha do nome: nasceu antes ou foi algo que apareceu depois?
A minha netinha de oito anos de idade viu o filme e depois chegou para mim e falou assim: "Vovó, por que o filme se chama Hora do Recreio se não tem recreio?". Bela observação. O título surgiu antes da declaração do Pedro, aquele menino que fala "Então vamos acabar com isso, vamos pra hora do recreio". Eu já tinha o título antes porque vinha do trabalho de pesquisa. É muito comum que, durante operações policiais, os alunos estejam na hora do recreio. Houve casos de crianças que foram baleadas na hora do recreio. Então, o nome partiu dessa situação: mesmo na hora do recreio eles não têm paz.
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