
Até a noite deste domingo (1º), a entrega do Oscar de melhor filme para Uma Batalha Após a Outra (One Battle After Another, 2025) parecia só uma questão de tempo. Afinal, o título dirigido por Paul Thomas Anderson vinha conquistando todos os prêmios que antecedem a distribuição das estatuetas douradas pela Academia de Hollywood, em cerimônia marcada para o dia 15 de março no Dolby Theatre, em Los Angeles.
A coleção de vitórias começou no dia 1º de dezembro, no Gotham Awards, que abre a temporada de premiações da indústria cinematográfica dos Estados Unidos. Depois vieram o troféu da National Board of Review (uma organização de críticos), o Critics Choice, o Globo de Ouro de melhor comédia ou musical e o Bafta (da Academia Britânica).
Um passo muito importante foi dado no sábado (28). Uma Batalha Após a Outra venceu a categoria de melhor filme no PGA Awards, o troféu da Associação dos Produtores dos EUA. Essa premiação costuma se mostrar bem alinhada à escolha da Academia de Hollywood. Desde o seu surgimento, em 1990, houve 26 coincidências entre o PGA Awards e o Oscar em 36 vezes, incluindo as últimas cinco (Nomadland, No Ritmo do Coração, Tudo em Todo o Lugar ao Mesmo Tempo, Oppenheimer e Anora).

Na noite de domingo, porém, ganhou força a candidatura de Pecadores (Sinners, 2025), justamente o campeão de indicações ao Oscar — e o novo recordista na história da premiação, superando as 14 recebidas por A Malvada (1950), Titanic (1997) e La La Land: Cantando Estações (2016). O filme escrito e dirigido por Ryan Coogler soma 16 indicações, contra as 13 de Uma Batalha Após a Outra.
No palco do Shrine Auditorium, em Los Angeles, Pecadores recebeu dois troféus de peso no The Actor, o novo nome da premiação do Sindicato dos Atores dos EUA. Venceu na categoria principal, a de melhor elenco, e na de melhor ator, com Michael B. Jordan.

O prêmio de melhor elenco não coincide tanto com o Oscar de melhor filme. Desde que foi instituído, as escolhas foram as mesmas em 15 oportunidades e diferentes em outras 15.
Houve ocasiões em que o Sindicato dos Atores repetiu o ganhador do PGA Awards, mas depois o título eleito não confirmou o favoritismo no Oscar. Foram os casos, por exemplo, de Apollo 13, que perdeu para Coração Valente em 1996, e de Pequena Miss Sunshine, derrotado por Os Infiltrados em 2007.
Mas também houve vezes em que o The Actor de melhor elenco foi o ponto de virada na corrida pelo Oscar. Em 2006, Crash: No Limite bateu O Segredo de Brokeback Mountain, que havia conquistado o prêmio da Associação dos Produtores, o Globo de Ouro e o Bafta. Em 2020, Parasita sobrepujou 1917, que também tinha vencido o PGA Awards, o Globo de Ouro e o Bafta.
O que vai acontecer no Oscar 2026? Com a palavra, o crítico gaúcho Waldemar Dalenogare, que tem 320 mil seguidores no seu canal no YouTube, o Dalenogare Críticas, integra o Critics Choice Association, é autor do livro Histórias do Oscar: Os Anos Iniciais (2019) e que será novamente um dos comentaristas do Oscar na TV Globo:
— Uma Batalha Após a Outra conquistou vários prêmios da crítica e tem um retrospecto excelente com a indústria. A questão principal do The Actor era: Uma Batalha Após a Outra dominaria tudo ao estilo Oppenheimer? Não foi o que ocorreu! A vitória de Pecadores vai deixar uma ponta de dúvida até o dia do Oscar. Pecadores teve recorde de indicações e é um filme de grande repercussão. Ainda penso que o longa de Paul Thomas Anderson é o favorito, mas existe disputa.
Vale lembrar que a votação do Oscar ainda não terminou — o prazo se encerra na quinta-feira (5). Ou seja, o triunfo de Pecadores "pode influenciar quem estava na dúvida ou refletindo sobre a força do filme", diz Dalenogare.

Disponíveis na plataforma de streaming HBO Max, ambos os filmes falam alto junto aos estadunidenses.
Uma Batalha Após a Outra mistura filme de ação, drama familiar e comédia maluca para refletir sobre a política anti-imigração do governo de Donald Trump, a censura a vozes contrárias, o recrudescimento do racismo e a divisão alarmante do país, onde ideias absurdas vem sendo normalizadas e onde a violência é uma resposta cada vez mais recorrente.

Pecadores mescla drama histórico sobre o racismo nos EUA, musical blues e terror com vampiros. O vilão da trama serve como uma alegoria de como a sociedade majoritariamente branca dos EUA vampiriza e se apropria da cultura produzida pela minoria negra.
Um ponto-chave na campanha pelo Oscar é a surpreendente vitória de Michael B. Jordan no The Actor.
Por um lado, aumenta o suspense na briga pelo Oscar de melhor ator — ele agora está em pé de igualdade ou mesmo com vantagem em relação a Timothée Chalamet (Marty Supreme) e Wagner Moura (O Agente Secreto), que foram premiados no Globo de Ouro.

Por outro, pode ser um indicativo de como os atores — que formam um dos maiores colégios eleitorais na premiação da Academia de Hollywood — vão votar no Oscar de melhor filme.
Já o cineasta Paul Thomas Anderson parece que finalmente vai se livrar da pecha de maior perdedor do Oscar. Ele concorreu 11 vezes, como produtor, diretor ou roteirista de seis filmes diferentes: Boogie Nights: Prazer Sem Limites (1997), Magnólia (1999), Sangue Negro (2007), Vício Inerente (2014), Trama Fantasma (2017) e Licorice Pizza (2021). Nunca venceu.

Por Uma Batalha Após a Outra, PTA já ganhou o Bafta de melhor direção, o prêmio da National Board of Review e o DGA Awards, o troféu do Sindicato dos Diretores dos EUA. Desde a estreia dessa premiação, em 1949, apenas oito vezes o vencedor não repetiu o feito no Oscar. E as escolhas coincidiram em 26 das últimas 31 edições.
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