
O ranking das bilheterias mundiais em 2026 consolida uma mudança de eixo que vinha se desenhando desde o início da década. Se nos anos 2010 apenas um filme da China havia aparecido entre os 10 primeiros lugares — Wolf Warrior 2, em 2017 —, o panorama atual é de predomínio chinês.
Conforme os números do site Box Office Mojo, até esta segunda-feira (16), quatro das 10 maiores bilheterias do planeta no ano pertencem a produções do país asiático: Pegasus 3 (título em inglês de Fei Chi Ren Sheng 3) lidera a lista, com US$ 532 milhões. Blade of the Guardians (Biao Ren) é o quarto colocado, com US$ 168,4 milhões, atrás de O Morro dos Ventos Uivantes (US$ 226,4 milhões) e Pânico 7 (US$ 177,1 milhões). Em sétimo e em oitavo, estão, respectivamente, Scare Out (Jing Zhe Wu Sheng), com US$ 160 milhões, e Boonie Bears: The Hidden Protector (Xiong Chu Mo: Nian Nian You Xiong), com US$ 139,9 milhões. Nenhum desses filmes tem estreia prevista no Brasil (saiba mais sobre cada título ao fim da coluna).
Até o fim de fevereiro, o faturamento do cinema chinês foi superior a US$ 970 milhões, contra US$ 938 milhões do mercado estadunidense.

O resultado não é por acaso. Desde 2020, a China já emplacou 15 filmes no top 10 do final de cada ano. Aliás, o campeão de 2025 foi Ne Zha 2, com US$ 2,2 bilhões. É a maior arrecadação de um filme de animação. E a quinta maior bilheteria de todos os tempos.
Essa dominação se apoia em uma infraestrutura colossal e em um mercado interno de 1,4 bilhão de pessoas. Com mais de 80 mil salas de cinema espalhadas pelo país, a China construiu uma rede de exibição mais de duas vezes superior à dos Estados Unidos.
Segundo o pesquisador de cinema asiático Josmar de Oliveira Reyes, doutor em Ciências da Informação e da Comunicação, Artes do Espetáculo e Novas Tecnologias, essa ascensão é fruto de uma estratégia deliberada:
— O governo percebeu que o audiovisual era uma fonte econômica, de turismo e de visibilidade. Houve uma intervenção muito grande e potente para incentivar a economia e a difusão do cinema.
Josmar lembra que essa revolução audiovisual chinesa não começa hoje:
— Na China, já estamos falando de uma sexta geração de cineastas.
Recentemente, durante o Ano-Novo Chinês, Josmar esteve em Xangai e viu de perto o impacto de Pegasus 3. Havia filas enormes nos cinemas de rua e nos shoppings.
— A China está respirando cinema — resume.
O professor aponta que o sucesso reside na conexão com o público jovem, que consome comédias, aventuras e animações que refletem sua própria cultura.
— Cinema só consegue ter repercussão se encontra o seu público — afirma o especialista, destacando que o movimento atual é alimentado por décadas de investimento em educação para a cultura e formação de novos talentos.
Nesse contexto, há ainda uma cota que limita a exibição de filmes estrangeiros a pouco mais de 30 produções por ano. A medida amplia o espaço para o cinema nacional e ajuda a fortalecer não só a produção local, mas também a formação de plateia.
Quando estava na Coreia do Sul, conversando com um professor da Universidade de Seul, Reyes ouviu que há hoje uma avalanche de estudantes chineses nos cursos de cinema do país. A busca de qualificação no Exterior, e num país que até já ganhou o Oscar, com Parasita (2019), reflete a ambição da China.
Como conclui Reyes, o que estamos presenciando é uma faceta crucial de uma “guerra econômico-cultural”, na qual a China, assim como os Estados Unidos fazem desde o século passado, utiliza o cinema como uma estratégia de poder simbólico para projetar uma imagem de modernidade e liderança tecnológica para o restante do mundo.
Os filmes chineses no top 10 de 2026
Para além da bilheteria, a qualidade técnica das produções chinesas agora rivaliza diretamente com os blockbusters ocidentais. Filmes como Scare Out, dirigido pelo veterano Zhang Yimou, utilizam tecnologias de ponta, como IA e drones, enquanto épicos de artes marciais como Blades of the Guardians mobilizam orçamentos de US$ 123 milhões e equipes de dublês de nível internacional.
— É um cinema de ação que não menospreza a narrativa. É uma conciliação entre a técnica e a História. Isso chama a atenção do público nacional e internacional — comenta o pesquisador Josmar Reyes.
Pegasus 3

De Han Han. Pegasus 3 marca o retorno do lendário piloto Zhang Chi, personagem interpretado por Shen Teng. Na trama, Zhang é convidado a liderar uma equipe nacional no Rali Muchen 100, uma competição internacional onde ele descobre conspirações ocultas e precisa lutar para proteger sua dignidade e a pureza do esporte.
Definida como uma comédia esportiva, a produção buscou um realismo visual extremo ao filmar em locações reais com altitudes superiores a 4,5 mil metros, em regiões como Sichuan e Qinghai. O primeiro título da trilogia está disponível na Netflix, sob o nome Pégaso.
Blades of the Guardians

De Yuen Woo-ping. Dirigido por um mestre de artes marciais, é um épico wuxia (gênero popular de ficção chinês focado em heróis marciais) baseado em uma história de quadrinhos. Ambientado na Dinastia Sui, o filme segue o caçador de recompensas Dao Ma (papel de Wu Jing) em uma missão perigosa para escoltar um revolucionário através do deserto, enfrentando tropas imperiais e outros mercenários.
O filme teve um orçamento impressionante de US$ 123 milhões, valor que subiu após a necessidade de refilmagens de emergência para substituir a atriz principal. O elenco inclui ícones do gênero, como Nicholas Tse e Jet Li.
Scare Out

De Zhang Yimou. Diretor consagrado por filmes de época como Lanternas Vermelhas (1991), Herói (2002), O Clã das Adagas Voadoras (2004) e A Sombra do Reino (2018), Yimou assina este thriller de espionagem contemporâneo protagonizado por Jackson Yee. A história foca em uma unidade de inteligência que corre para impedir o vazamento de segredos críticos sobre o desenvolvimento de caças chineses de sexta geração.
Ambientado na metrópole futurista de Shenzhen, o filme utiliza tecnologias como drones e IA para compor suas cenas de perseguição. A crítica destacou o comando técnico magistral de Zhang Yimou na criação de sequências de ação altamente cinéticas.
Boonie Bears: The Hidden Protector

De Huida Lin. É o 12º filme da franquia de animação que já faturou mais de US$ 1,3 bilhão. Nesta aventura, os irmãos ursos e o humano Vick — que misteriosamente ganha cabelos e chifres — unem-se a irmãs gêmeas que podem se transformar no mítico Nian Shou (uma fera mitológica chinesa) para proteger o mundo de um monstro multi-cabeças.
O longa reimagina o folclore chinês, transformando o tradicional monstro do Ano Novo em uma figura de "protetor oculto" da humanidade.
*Produção: João Vítor Debiasi




