
Logo depois de Uma Batalha Após a Outra conquistar seis estatuetas douradas, as apostas para o Oscar de 2027 já começaram, e um dos possíveis indicados à 99ª premiação da Academia de Hollywood acaba de estrear nos cinemas de Porto Alegre. Trata-se de Devoradores de Estrelas (Project Hail Mary, 2026), candidato a categorias como melhor filme, ator (Ryan Gosling), atriz coadjuvante (Sandra Hüller), roteiro adaptado e efeitos visuais.
As especulações citam filmes como o épico A Odisseia, de Christopher Nolan, Duna: Parte Três, de Denis Villeneuve, Josephine, de Beth de Araújo, As Aventuras de Cliff Booth, de David Fincher, Wild Horse Nine, de Martin McDonagh, e Digger, de Alejandro González Iñárritu.
Devoradores de Estrelas se credencia para essa lista graças a uma série de trunfos, a começar pelo sucesso de público — no Oscar, há sempre lugar para pelo menos um campeão de bilheteria. No seu primeiro fim de semana de exibição, o filme faturou US$ 141 milhões globalmente, sendo o melhor lançamento de Hollywood em 2026 e o título mais assistido em 60 dos 82 países nos quais estreou. Nos Estados Unidos, tornou-se, ao lado de Oppenheimer (2023), um dos dois únicos títulos dos últimos 10 anos que ultrapassaram a marca dos US$ 80 milhões na abertura sem ser uma continuação ou integrar uma franquia (caso de Barbie, que arrecadou US$ 162 milhões).
Os principais nomes do filme já são bem conhecidos pela Academia de Hollywood ou ganharam muita evidência recentemente. O protagonista, Ryan Gosling, concorreu ao Oscar de melhor ator por Half Nelson: Encurralados (2006) e por La La Land: Cantando Estações (2016) e disputou o troféu de ator coadjuvante por Barbie (2023). A alemã Sandra Hüller foi indicada ao prêmio de melhor atriz por Anatomia de uma Queda (2023). E os diretores Phil Lord e Christopher Miller venceram o Oscar de melhor longa de animação como produtores de Homem-Aranha: No Aranhaverso (2018) e competiram na mesma categoria por A Família Mitchell e a Revolta das Máquinas (2021) e por Homem-Aranha: Através do Aranhaverso (2023).
O cenário também conta pontos, pois astronautas são figurinhas carimbadas no Oscar. Entre filmes que foram premiados ou apenas indicados, estão 2001: Uma Odisseia no Espaço (1968), Os Eleitos (1983), Apollo 13 (1995), Gravidade (2013), Interestelar (2014), Perdido em Marte (2015), O Primeiro Homem (2018) e Ad Astra: Rumo às Estrelas (2019).
Aliás, Devoradores de Estrelas pode provocar um certo déjà vu. Novamente, Ryan Gosling interpreta um astronauta, como em O Primeiro Homem, cinebiografia de Neil Armstrong (1930-2012), primeira pessoa a pisar na Lua. Novamente, o personagem principal embarca em uma missão para salvar a Terra, como em Interestelar. Novamente, um romance do escritor Andy Weir é adaptado para o cinema, como em Perdido em Marte, e pelo mesmo roteirista, Drew Goddard.

Na trama, Gosling encarna Ryland Grace, sujeito que acorda de um coma dentro de uma nave espacial. Ele está cabeludo, barbudo, inerte e desmemoriado. Sequer sabe o seu nome.
Aos poucos, Grace percebe que está em outro sistema planetário — distante quase 12 anos-luz —, lembra que era um professor de Ciências em um colégio do Ensino Fundamental e descobre ser o único sobrevivente de uma missão crucial para salvar a Terra de uma ameaça cósmica que está consumindo a energia do Sol.
A narrativa, então, passa a alternar o presente e o passado enquanto o personagem vai montando um quebra-cabeças formado por fragmentos de sua memória. Os flashbacks informam que cientistas observaram o escurecimento do astro rei, o que pode resultar em um catastrófico esfriamento do nosso planeta ao longo dos próximos 30 anos — a temperatura na Terra pode cair de 10ºC a 15ºC. A causa é um microrganismo batizado de astrofágico que se reproduz e se move na chamada Linha de Petrova, entre o Sol e Vênus.

Grace foi recrutado pela agente Eva Stratt (papel de Sandra Hüller) devido a seus conhecimentos sobre biologia molecular. A equipe conta com um piloto chinês, o comandante Yao (interpretado por Ken Leung), e uma engenheira russa, Olesya Ilyukhina (Milana Vayntrub). Há um outro coadjuvante muito importante, um inusitado aliado do protagonista, mas, embora ele surja em cena relativamente cedo, convém mantê-lo em segredo para não privar o espectador da surpresa. O que se pode dizer sem dar spoiler é que existe uma mensagem otimista em Devoradores de Estrelas, um convite à aproximação com o outro, a aprender com o outro e a cooperar.
Com duas horas e meia de duração, Devoradores de Estrelas jamais cansa o espectador graças a suas idas e vindas no tempo e à mistura equilibrada de seus elementos de ficção científica, aventura, suspense, drama e até — ou principalmente — comédia. Ryan Gosling empresta seu carisma a diálogos bem-humorados que incluem referências ao clássico Rocky, um Lutador (1976) e embalam a formação de uma bela e pétrea amizade que supera diferenças.

Mas é Sandra Hüller quem acaba roubando a cena em um karaokê. Aliás, a atriz alemã já havia arrasado ao cantar Greatest Love of All, um sucesso lançado em 1985 por Whitney Houston (1963-2012), em As Faces de Toni Erdmann (2016), filme indicado ao Oscar internacional. Em Devoradores de Estrelas, Hüller dá voz a Sign of the Times (2017), uma canção de Harry Styles.
Essa cena não estava no roteiro: nasceu por uma sugestão de Ryan Gosling, após ouvir Sandra Hüller cantarolando nos intervalos das filmagens. A ideia era criar um momento de contraste: Stratt, a personagem da atriz, é um modelo de pragmatismo alemão, dada a dizer verdades duras e a praticar ações que podem desagradar seus subordinados. Ao pegar o microfone em uma noite de celebração a bordo de um porta-aviões, ela poderia demonstrar sensibilidade e vulnerabilidade.
Hüller topou a proposta, com uma condição: ela mesma escolheria a canção. Foi uma escolha perfeita.
Harry Styles escreveu Sign of the Times na perspectiva de uma mãe que morre logo após o parto. A letra sobre despedida, aceitação e esperança, que convida a "aproveitar ao máximo" o "último show", casou muito bem com um filme sobre a iminência de um evento apocalíptico: "Apenas pare de chorar / É um sinal dos tempos / Precisamos sair daqui / Precisamos sair daqui (...) / Lembre-se, tudo vai ficar bem / Podemos nos encontrar de novo em algum lugar / Em algum lugar bem longe daqui". Na interpretação de Sandra Hüller, esses versos se tornaram tão cortantes quanto acolhedores.
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