
John Travolta pode estar há um tempão sem fazer nada de muito interessante — talvez seu último papel de destaque tenha sido o vilão de O Sequestro do Metrô 1 2 3, em 2009 —, mas o ator estadunidense de 71 anos tem no currículo uma série de filmes que poderiam ser levados para uma ilha deserta.
Para começo de conversa, há os dois títulos que valeram sua indicação ao Oscar de melhor ator: Os Embalos de Sábado à Noite (1977) e Pulp Fiction (1994). Existe o fã-clube do musical Grease: Nos Tempos da Brilhantina (1979). Com Nicolas Cage, Travolta estrelou um ícone dos filmes de ação dos anos 1990, A Outra Face (1997). E, na mesma década, ele protagonizou uma distopia que merecia ser resgatada do limbo digital: A Cor da Fúria (1995).
Mas o filme com John Travolta que eu levaria para uma ilha deserta é Um Tiro na Noite (Blow Out, 1981), de Brian De Palma, que terá sessão única na Cinemateca Capitólio, em Porto Alegre, às 17h15min desta terça-feira (3). A exibição faz parte da mostra carta branca selecionada pelos cineastas gaúchos Filipe Matzembacher e Marcio Reolon. Eles selecionaram títulos que dialogam com seu terceiro longa-metragem, o suspense erótico Ato Noturno (2025), que segue em cartaz na própria Capitólio e também na Sala Norberto Lubisco da Cinemateca Paulo Amorim, na Casa de Cultura Mario Quintana.
Brian De Palma, o gênio que o Oscar despreza

Um Tiro na Noite foi um exitoso fracasso. Produzido ao custo de US$ 20 milhões, o filme arrecadou US$ 13,8 milhões, a despeito das críticas positivas dos prestigiados Roger Ebert (1942-2013) e Pauline Kael (1919-2001). Reza a lenda que a propaganda boca a boca sobre o tom desolador do final arruinou as pretensões comerciais. E tampouco o título foi lembrado na temporada de premiações — uma constante na carreira do diretor Brian De Palma, hoje com 85 anos.
Ele nunca concorreu ao Oscar, embora alguns de seus longas-metragens tenham sido indicados e até laureados. Foi o caso, por exemplo, de Carrie, a Estranha (1976), que teve Sissy Spacek e Piper Laurie na briga pelas estatuetas de melhor atriz e atriz coadjuvante, e de Os Intocáveis (1987), que deu a Sean Connery o troféu de ator coadjuvante e disputou também direção de arte, figurinos e música original (do lendário Ennio Morricone).
Se o Oscar o ignorou, o Framboesa de Ouro, infelizmente, não. O prêmio de galhofa promovido por um publicitário de Los Angeles indicou De Palma cinco vezes como pior diretor da temporada (nunca "venceu", pelo menos isso). Foram por Vestida para Matar, Scarface (1983), Dublê de Corpo (1984), A Fogueira das Vaidades (1990) e Missão: Marte (2000).
De Palma tampouco é um rei das bilheterias. Seu único filme a chegar perto do meio bilhão de dólares mundialmente foi Missão: Impossível (1996), mas claro que a presença de Tom Cruise como protagonista e o valor afetivo da revitalização do seriado dos anos 1960 foram os chamarizes para arrecadar US$ 458 milhões. Apenas outros três de seus 29 longas-metragens lançados desde 1968 superaram os cem milhões: Missão: Marte (US$ 111 milhões), Os Intocáveis (US$ 106 milhões) e Olhos de Serpente (US$ 104 milhões).

Em compensação, os críticos da prestigiada revista parisiense Cahiers du Cinéma elegeram O Pagamento Final (Carlito's Way, 1993) como o filme da década de 1990 (empatado com As Pontes de Madison, de Clint Eastwood) e Guerra Sem Cortes (Redacted) como a melhor obra de 2007. Mais três longas apareceram no top 10 anual da publicação: Missão: Impossível (oitavo lugar em 1996), Olhos de Serpente (nono em 1998) e Missão: Marte (quarto em 2000). Seu cartaz na Europa inclui um Urso de Prata por Saudações (Greetings, 1968), no Festival de Berlim, e um Leão de Prata por Guerra Sem Cortes, no Festival de Veneza.
Mas também houve e há fãs fervorosos em solo estadunidense. Além dos já citados Ebert e Kael, vale citar os cineastas Terrence Malick, Noah Baumbach — que dirigiu com Jake Paltrow o documentário De Palma, em 2015 — e Quentin Tarantino. Aliás, à época de Pulp Fiction Tarantino disse que Um Tiro na Noite era um dos três filmes que levaria para uma ilha deserta (os outros dois eram Onde Começa o Inferno, 1959, de Howard Hawks, e Taxi Driver, 1976, de Martin Scorsese).

Embora retrate um cineasta que sempre se destacou pela narrativa visual, esse documentário de Baumbach e Paltrow é extremamente formal. Careta mesmo. Sentado em uma cadeira, com uma lareira às costas, o autor dos provocativos Irmãs Diabólicas (1972) e Femme Fatale (2002) narra sua vida e principalmente sua carreira. Desde a infância em Newark, a cidade mais populosa do Estado de New Jersey, onde nasceu em 11 de setembro de 1940, até Paixão (2012), seu último filme até então.
É apenas Brian De Palma que fala durante todo o tempo em um enquadramento estático. Seu depoimento é intercalado com cenas das obras citadas, imagens de bastidores, fotos. A opção estética dos diretores logo se justifica. Como eles poderiam fazer jus ao maestro que orquestrou o tiroteio com um carrinho de bebê no filme sobre a caçada ao mafioso Al Capone?
Por falar em Os Intocáveis, De Palma é um diretor autoral mesmo sendo referencial. Suas citações e homenagens a clássicos de Sergei Eisenstein, Alfred Hitchcock, Michelangelo Antonioni e Francis Ford Coppola tornaram-se uma assinatura própria.
Do primeiro, pegou a famosa sequência da escadaria de Odessa em O Encouraçado Potemkin (1926). Do segundo, bebe direto e seguidamente: Trágica Obsessão (1976) tem como base Um Corpo que Cai (1958), Dublê de Corpo retoma a trama de Janela Indiscreta (1954), e Vestida para Matar é uma celebração de Psicose (1960). Por fim, Um Tiro na Noite mistura elementos de Blow-Up (1966), de Antonioni, e de A Conversação (1974), de Coppola.
Qual é a trama de "Um Tiro na Noite"?

Na trama de Um Tiro na Noite, escrita pelo diretor Brian de Palma com Bill Mesce Jr., John Travolta interpreta Jack Terry, um técnico de efeitos sonoros que, sem querer, registra um acidente de carro, do qual salva uma moça encarnada por Nancy Allen (então esposa de De Palma). Ao ouvir suas gravações, o sonoplasta se descobre testemunha de um possível atentado político que envolve o perigoso personagem vivido por John Lithgow — nos filmes do diretor, a presença masculina é sempre uma ameaça às mulheres.
A partir daí, De Palma engendra um suspense angustiante que alude a dois rumorosos episódios envolvendo a família Kennedy: o assassinato, em 1963, do presidente John F., um dos grandes traumas dos Estados Unidos, e o caso Chappaquiddick, em 1969, quando automóvel dirigido pelo senador Ted caiu de uma ponte em uma lagoa, provocando a morte de uma jovem acompanhante e minando suas pretensões de concorrer à presidência do país.
Como se estivesse lidando com a célebre fita em que o cineasta amador Abraham Zapruder registrou os últimos momentos de JFK nas ruas de Dallas, Jack Terry combina som e imagem para reconstituir os acontecimentos daquela noite. É uma aula sobre o processo de fazer um filme.

Nessa reflexão sobre o ofício cinematográfico, De Palma retrabalha temas de Hitchcock: sexo, culpa, misoginia, voyeurismo, obsessão. Como seu mestre, o diretor também tem uma sádica afeição por personagens que estão sendo manipulados, que são vítimas de conspirações.
É um modo de espelhar o próprio jogo de manipulação do cinema. De fato, em muitas obras o cineasta aborda o duplo (e o ator não deixa de ser um duplo), mais um tema hitchcockiano, e a representação da verdade, ou seja: a imagem, o que vemos, nem sempre corresponde à realidade; é algo forjado, como o próprio cinema.

Esses temas levam à identidade visual de seus filmes — exemplos clássicos podem ser encontrados em Um Tiro na Noite: a angulação da câmera é um sinalizador de distúrbios psicológicos. Os planos-sequência ilustram os passos ou nos colocam na posição de um voyeur. A espera e a preparação para a explosão de violência é algo equivalente às preliminares do sexo.
Uma das marcas de De Palma é a quebra da tela ao meio para mostrar dois eventos que acontecem simultaneamente (o que pode esclarecer ou embaralhar a "verdade"). As lentes split focus diopter,ao manter em foco tanto personagens/objetos em primeiro plano quanto os que estão ao fundo, por um lado nos alertam para prestarmos atenção aos detalhes, por outro, ressaltam a artificialidade da imagem, já que o olho humano não consegue enxergar as coisas assim. Outro recurso característico do diretor que conjuga seus temas com suas técnicas é a desconstrução e reconstrução de uma mesma cena sob diferentes pontos de vista.
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