
Nesta quinta-feira (5), o thriller erótico A Empregada (The Housemaid, 2025) entra na sua sexta semana de exibição nos cinemas do Brasil. Já atraiu mais de 3 milhões de espectadores e vem superando o público de candidatos ao Oscar de melhor filme ou de superproduções como Avatar: Fogo e Cinzas.
O fenômeno de bilheteria é mundial. Orçado em US$ 35 milhões, o título já faturou US$ 300 milhões. É o maior sucesso comercial na carreira da atriz Sydney Sweeney, superando a comédia romântica Todos Menos Você (2023), que arrecadou US$ 220 milhões. Uma continuação já está em desenvolvimento.
É fácil entender por que A Empregada alcançou esses números. A explicação começa pela base de espectadores em potencial.
O filme é a adaptação do livro homônimo publicado em 2022 por Freida McFadden, que vendeu cerca de 3,5 milhões de exemplares e deu origem a uma trilogia. No BookTok, um nicho de leitores do TikTok, a hashtag sobre o título da obra soma mais de 1 bilhão de visualizações.

A protagonista de A Empregada, por sua vez, tem quase 26 milhões de seguidores no Instagram, onde acabou de lançar sua coleção de lingeries sensuais. Vista nas séries O Conto da Aia, Euphoria e The White Lotus e em filmes como Reality (2023), Imaculada (2024) e Madame Teia (2024), Sydney Sweeney, 28 anos, é uma das atrizes mais midiáticas dos últimos tempos. Mesmo que não raro devido a controvérsias — a campanha publicitária dos jeans American Eagle, por exemplo, deu margem para ser interpretada como uma exaltação da supremacia branca e uma defesa da eugenia.
O pacote de sedução inclui o próprio gênero de A Empregada, o thriller erótico, que estava um tanto marginalizado pelos estúdios de cinema de Hollywood — mas não pelas plataformas de streaming, como comprovam alguns campeões de audiência da Netflix nos anos 2020: a trilogia polonesa 365 Dias, o seriado mexicano Desejo Sombrio, o filme brasileiro O Lado Bom de Ser Traída.
Por fim, como indicou a curva ascendente na bilheteria, vale destacar a sempre eficiente propaganda boca a boca, impulsionada por outro fator importante de atratividade: a trama que é cheia de reviravoltas — o povo adora plot twist — e que aborda um tema muito atual (revelá-lo seria dar um tremendo spoiler).
A trama de "A Empregada" (sem spoilers)

A Empregada tem direção de Paul Feig, o mesmo de Missão Madrinha de Casamento (2011), Um Pequeno Favor (2018) e Uma Segunda Chance para Amar (2019).
Sydney Sweeney interpreta Millie, uma ex-presidiária em liberdade condicional que busca um emprego para reconstruir sua vida — no momento, ela dorme no carro. Certo dia, um milagre acontece: a jovem é contratada para ser a empregada — incluindo moradia — na mansão dos Winchester: Nina (papel de Amanda Seyfried, indicada ao Oscar de coadjuvante por Mank e ganhadora do Emmy de melhor atriz pela minissérie The Dropout), sua filha, Cecilia, e seu marido, Andrew (encarnado por Brandon Sklenar, da série 1923).

Logo Millie percebe que Nina é uma mulher temperamental e imprevisível, com oscilações bruscas de humor e mudanças repentinas de planos. Em contraste, Andrew desfila sua calma e sua sensatez — e também seus bíceps e seus tríceps. Em casa, o maridão anda de regata branca e não demora a aparecer nos sonhos da empregada.
Qualquer espectador acostumado aos thrillers eróticos que eram populares em Hollywood nas décadas de 1980 e 1990 consegue intuir os próximos passos da trama. Aliás, o que não faltam em A Empregada são pistas: o filme usa e abusa do conceito narrativo conhecido como Arma de Tchekhov (em referência ao contista e dramaturgo russo Anton Tchekhov). Ou seja: quase tudo que é dito ou mostrado no início da história vai ter um propósito mais adiante.

Mas pelo menos para quem nunca leu o livro, A Empregada também tem muitas surpresas a oferecer. Uma delas é o despudor para abraçar os clichês e os estereótipos — vide o jardineiro Enzo, vivido pelo ator italiano Michele Morrone, egresso da trilogia soft porn 365 Dias (2020-2022). Este é um filme em que ninguém tem medo ou vergonha de ser exagerado. Desde o compositor da trilha sonora, Theodore Shapiro (premiado duas vezes no Emmy pela série Ruptura, em 2022 e em 2025), até, principalmente, Amanda Seyfried, que rouba o holofote de Sydney Sweeney tanto por ter mais talento quanto por sua personagem ter mais camadas.
E quem não leu o livro pode acabar se deliciando enquanto o elenco e a equipe técnica de A Empregada se lambuzam no inverossímil e no estapafúrdio — ainda que, vale repetir, todas as reviravoltas sejam detalhadamente explicadas neste filme que transforma um problema sério em uma divertida montanha-russa: na última cena, o esboço de um sorriso malicioso por uma personagem pode detonar gargalhadas na plateia.
É assinante mas ainda não recebe minha carta semanal exclusiva? Clique aqui e se inscreva na newsletter.
Já conhece o canal da coluna no WhatsApp? Clique aqui: gzh.rs/CanalTiciano


