
Já assisti a 27 dos 35 longas-metragens que foram indicados ao Oscar 2026. Tirando a presença de Frankenstein na categoria de melhor filme e a ausência completa de Sorry, Baby, acho que a seleção feita pela Academia de Hollywood está muito boa. Há pelo menos cinco títulos imperdíveis.
Deixei O Agente Secreto de fora da lista porque o thriller político dirigido por Kleber Mendonça Filho é mais do que imperdível: é obrigatório. Afinal, além de ser um filmaço, tornou-se uma baita vitrine do cinema brasileiro ao ganhar prêmios no Festival de Cannes e no Globo de Ouro. No Oscar, já igualou o recorde de indicações para uma produção nacional, estabelecido em 2004 por Cidade de Deus. Está concorrendo em quatro categorias: melhor filme, ator (Wagner Moura), longa internacional e elenco.
Priorizei filmes que me surpreenderam, que me levaram para caminhos inesperados, que fugiram da mesmice. Adoro quando os diretores se arriscam, seja no tema, na trama ou na forma, e quando nos tiram da zona de conforto.
1) Pecadores (2025)

De Ryan Coogler. A lista começa com o novo recordista de indicações ao Oscar: são 16, superando a meta que havia estabelecida por A Malvada, em 1951, e depois igualada por Titanic, em 1998, em La La Land, em 2017. Dentro do contexto dos grandes estúdios de Hollywood, o diretor e roteirista exibe uma virtude escassa por lá: a audácia. Coogler criou um filme muito original ao misturar drama histórico sobre o racismo nos Estados Unidos, musical blues e terror com vampiros.
A trama se passa em 1932, no Estado do Mississippi, onde ainda vigoravam as leis de segregação racial. O cenário é Clarksdale, pequena cidade importante tanto na luta dos direitos civis quanto na história do blues, gênero musical nascido da confluência de ritmos africanos e cantos religiosos desenvolvida por negros escravizados enquanto trabalhavam nas plantações de algodão do sul dos Estados Unidos.
Michael B. Jordan interpreta dois personagens, os irmãos gêmeos Fumaça e Fuligem, que voltaram de Chicago, onde eram gângsteres, para abrir um clube noturno para a comunidade negra. Na noite de abertura, Pecadores oferece um plano-sequência absolutamente mágico. É uma grande, contagiante e comovente celebração da música como meio de expressão das dores e das alegrias da comunidade negra; a música como veículo de acesso a suas origens e de prospecção por dias melhores; a música como um território de identidade, comunhão e liberdade.
Não é por acaso, portanto, que o vilão da história seja um vampiro branco. A presença desse monstro sagrado do terror não é nada aleatória em Pecadores: permite a Coogler fazer um incisivo comentário social. Se, como diz o personagem de Delroy Lindo, "os brancos gostam muito de blues, só não gostam das pessoas que tocam o blues", o vampiro serve como uma alegoria de como a sociedade majoritariamente branca dos Estados Unidos vampiriza e se apropria da cultura produzida pela minoria negra. (HBO Max)
2) Bugonia (2025)

De Yorgos Lanthimos. Talvez seja a obra mais acessível do cineasta grego, o mesmo de Dente Canino (2009), O Lagosta (2015), A Favorita (2018) e Pobres Criaturas (2023), célebre por provocar desconforto, choque ou perplexidade no público. Mas Bugonia continua sendo um filme de Yorgos Lanthimos: tem um olhar misantropo e um pé no bizarro, combina senso de humor com pessimismo, crueldade e violência, examina e ridiculariza as dinâmicas e as figuras de poder.
Bugonia recebeu quatro indicações ao Oscar: melhor filme, atriz (Emma Stone), roteiro adaptado e música original. Na trama, Michelle, a CEO de uma megacorporação farmacêutica, é sequestrada pelo apicultor Teddy (papel de Jesse Plemons) e por seu primo. Ele acredita que ela é uma alienígena disfarçada, vinda do planeta Andromeda para acabar com a vida na Terra.
Os diálogos entre Teddy e Michelle refletem sobre o capitalismo, a polarização política e o comportamento humano — ou talvez a desumanização decorrente da ganância e do radicalismo. O enredo satiriza nossa tendência de nos escorarmos no chamado viés de confirmação, ou seja: buscamos e interpretamos informações que validam crenças já existentes, ignorando ou minimizando as evidências contrárias.
Lanthimos mostra como, a despeito do maior acesso à informação providenciado pela internet, a gente se tornou mais suscetível a acreditar em teorias da conspiração. E Teddy também prefere encontrar um único culpado para os problemas, sejam os seus ou os do mundo, desconsiderando — de propósito ou por visão obtusa — que quase sempre as razões são multifatoriais. Não à toa, em dado momento Michelle dá-se por vencida em um debate natimorto como muitos que acontecem nas redes sociais: "Não posso mudar sua opinião". (Disponível para aluguel em Amazon Prime Video, Google Play e YouTube)
3) Se Eu Tivesse Pernas, Eu te Chutaria (2025)

De Mary Bronstein. Está disputando apenas uma categoria, a de melhor atriz, com Rose Byrne, já premiada no Festival de Berlim e no Globo de Ouro. Mas deveria estar competindo pelo Oscar de melhor filme também.
A diretora e roteirista de Se Eu Tivesse Pernas, Eu te Chutaria mescla comédia amarga, toques de terror e clima sufocante. Sentimos claustrofobia desde a primeira cena, que consiste em um close no rosto da protagonista, uma psicóloga chamada Linda. A câmera fica mais de dois minutos concentrada nas expressões da Rose Byrne. Mary Bronstein quer que o público sinta literalmente na pele a rotina infernal de Linda, uma mulher e uma mãe que está sempre exausta, sempre frustrada, sempre no limite, sempre à beira de um colapso.
Ora ela precisa lidar com o tratamento do raro e complicado transtorno alimentar que a sua filha tem; ora ela sente a ausência do marido, que fica muitos dias longe de casa por causa do trabalho; ora o problema é um enorme vazamento que fez desabar o teto do apartamento onde moram; ora Linda se vê na obrigação de procurar uma paciente que desapareceu.
Todos esses problemas vão se acumulando, mas Linda, mesmo sem o marido por perto, sem muita ajuda do próprio psiquiatra e sendo cobrada o tempo todo, precisa dar conta de tudo. Nem sempre, ou talvez quase nunca, ela vai conseguir, mas Se Eu Tivesse Pernas, Eu te Chutaria nunca cai no dramalhão. Há sempre um elemento de comédia, mesmo que bizarra ou mórbida. E Rose Byrne nunca resvala para o melodramático. Com o rosto sempre vigiado pela câmera, a atriz equilibra nervosismo, impulsividade, impaciência, vulnerabilidade. Este não é um filme sobre a mãe perfeita que enfrenta toda sorte de adversidades. (Disponível para aluguel em Apple TV, Google Play e YouTube e estreia no Telecine no dia 3 de março)
4) A Vizinha Perfeita (2025)

De Geeta Gandbhir. Indicado ao Oscar de melhor documentário, o filme parte de um caso aparentemente banal — uma briga entre vizinhas em um subúrbio da Flórida — para fazer um retrato contundente do racismo e da violência legalizada nos Estados Unidos.
A Vizinha Perfeita é sobre uma tragédia que teve início com as reclamações de uma mulher branca, Susan Lorincz, por causa das crianças que ficavam brincando perto da casa dela. As relações de Susan são especialmente tensas com uma das mães dessas crianças, AJ Owens, uma mulher negra. A briga reflete o conflito racial que marca a sociedade estadunidense, principalmente nos Estados do Sul.
Um grande diferencial do documentário é a forma escolhida pra contar essa história. A diretora construiu o filme sem recorrer aos recursos tradicionais do gênero conhecido como true crime. Não tem reconstituições com atores, não tem depoimentos em frente à câmera, não tem narração em off nem música para conduzir a emoção do espectador.
O filme aposta só em registros oficiais: imagens de câmeras corporais da polícia, imagens das câmeras de segurança da vizinhança, imagens de interrogatórios policiais, ligações para o serviço de emergência. Dito assim, pode parecer algo burocrático, mas Geeta Gandbhir opera uma subversão ao transformar dispositivos de vigilância em ferramentas da memória afetiva, e a edição torna A Vizinha Perfeita muito envolvente. Não conseguimos parar de assistir até conhecer o desfecho da história. Aliás, apesar de ser um documentário, recomendo não ler muito sobre o filme antes de ver. (Netflix)
5) Sirât (2025)

De Oliver Laxe. Também convém não saber muito sobre o título que representa a Espanha no Oscar de melhor filme internacional.
Sirât acompanha a busca de um pai (interpretado por Sergi López) por sua filha, desaparecida em uma rave no sul do Marrocos. Ao lado do filho caçula, ele segue uma jornada angustiante pelo deserto, acompanhando um grupo de festeiros em meio a um contexto de guerra.
Trata-se de uma obra bastante sensorial (não à toa, concorre também ao Oscar de melhor som) e que pode ser enquadrada no tipo ame ou odeie. Se o jornal The New York Times disse que é o filme mais indescritível e aterrorizante de 2025, a Rolling Stone definiu como uma travessia sádica rumo ao inferno feita para público masoquista.
Eu não estava nem um pouco pronto para o que acontece na história. Fiquei profundamente impressionado, mas acho que Sirât vai além do choque. O filme consegue falar sobre a barbárie e o niilismo do mundo contemporâneo, mas também sobre como, de alguma forma, a humanidade segue criando conexões, sobre como a gente precisa de uns dos outros, sobretudo nas horas ruins. Existe um horizonte. Tem de existir um horizonte. (Em cartaz nos cinemas)
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