
Começaram em fevereiro as comemorações dos 40 anos da história que promoveu uma transformação radical do Batman e que revolucionou os quadrinhos de super-herói: O Cavaleiro das Trevas (The Dark Knight Returns, 1986), minissérie em quatro partes escrita e desenhada por Frank Miller, que hoje tem 69 anos, com arte-final de Klaus Janson e cores de Lynn Varley.
Ao longo de 2026, a editora do personagem, a DC Comics, vai fazer uma série de eventos e lançamentos nos EUA. É provável que a celebração se estenda ao Brasil, via editora Panini.
Nos EUA, o primeiro festejo foi um painel na convenção ComicsPro, em Glendale, na Califórnia, sobre o legado da HQ que apresentou um Homem-Morcego envelhecido, amargo e ultraviolento. Como de praxe, vários artistas foram convidados a desenhar capas variantes comemorativas, e haverá uma reedição de luxo, prevista para sair no Batman Day, em setembro. A DC também vai lançar uma versão menor e mais barata, para atrair novos leitores.
A partir de março, as quatro edições originais serão republicadas no mercado estadunidense em versões fac-símile, ou seja, exatamente como chegaram às bancas de revistas de 40 anos atrás, incluindo os anúncios. Aliás, vale lembrar que O Cavaleiro das Trevas inaugurou nos EUA o termo prestige format.
Os gibis da época eram panfletos de 20 e poucas páginas impressos em papel jornal com dois grampos e que custavam 75 centavos de dólar. Cada edição da minissérie tinha cerca de 50 páginas, com papel acetinado de gramatura alta, lombada quadrada e preço de US$ 2,95.
— Você tinha que sentir na mão que estava lendo um gibi diferente — resumiu o crítico e tradutor gaúcho Érico Assis em um texto sobre o 40º aniversário publicado na Virapágina, a sua newsletter no Substack.
Na lista dos mais vendidos do New York Times

O Cavaleiro das Trevas também furou a bolha. Em 1986, quadrinhos eram assunto para fanzines ou publicações especializadas. Mas a HQ ganhou destaque em jornais e revistas de grande circulação. A Rolling Stone, por exemplo, entrevistou Frank Miller. No The New York Times, saiu uma crítica — nada elogiosa, é verdade: “Se esse gibi foi feito para crianças, duvido que elas gostem. Se o alvo forem os adultos, não são aqueles com quem eu tomaria um drink”, escreveu Mordechai Richler.
Bem, fossem crianças, fossem adultos, os leitores devoraram O Cavaleiro das Trevas. A primeira edição esgotou quatro tiragens. A versão encadernada tornou-se o primeiro gibi de super-herói a entrar na lista dos livros mais vendidos do New York Times, onde permaneceu durante 38 semanas.
“Miller derrubou as fronteiras dos guetos dos quadrinhos e conseguiu fazer gente comprar gibi. Gente que nem sabia da existência ou que não tocava em gibi desde a infância”, disse a historiadora Mila Bongco, autora do livro Reading Comics: Language, Culture, and the Concept of the Superhero in Comic Books (2014).
Reflexo da Era Reagan e inspiração em Dirty Harry

O Cavaleiro das Trevas se passa em uma versão alternativa dos EUA da Era Ronald Reagan, que presidiu o país de 1981 a 1988. Entre as marcas de seu governo, estão a política externa agressiva, o forte conservadorismo social e o aumento da desigualdade social. Em Nova York, a metrópole que é emulada na Gotham City de Batman, a criminalidade nos anos 1980 atingiu níveis recordes, impulsionada pela epidemia de crack.
A distopia imaginada por Frank Miller é pautada por gangues de rua sanguinárias, mísseis nucleares e uma imprensa sensacionalista. O Batman é inspirado em Clint Eastwood, talvez não tanto na fisionomia, mas nas características de um personagem recorrente do ator, o policial Dirty Harry. Uma influência específica foi o filme Impacto Fulminante (1983). Na trama, o detetive sisudo que não hesita em cruzar os limites do certo e do errado para fazer justiça volta à ativa após um período longe das ruas.
Por ocasião dos 20 anos da HQ, Miller escreveu: “Procurei usar a escalada da criminalidade ao meu redor para retratar um mundo que precisava de um gênio obsessivo, hercúleo e razoavelmente maníaco para pôr as coisas em ordem. Mas isso era apenas metade do serviço. Eu não guardei meu veneno mais poderoso para o Coringa ou o Duas-Caras, mas para as insípidas e apelativas figuras da mídia que cobriam de forma tão pobre os gigantescos conflitos daquela época”.
Na HQ, Bruce Wayne tem 55 anos e não protege mais Gotham: abandonou o uniforme após a morte de Jason Todd, o Robin, uma década atrás. O crime corre solto, e a maior ameaça são os jovens da Gangue Mutante. Então, Bruce decide retomar seu papel de vigilante — agora sem freio no emprego da violência.
O retorno desperta seu arqui-inimigo, o Coringa, do estado catatônico no Asilo Arkham. E o Homem-Morcego também atrai a atenção do Homem de Aço, o Superman, agora um agente da Casa Branca. O quebra-pau entre os dois personagens foi reverenciado pelo diretor Zack Snyder no filme Batman vs Superman (2016).
No livro A Cruzada Mascarada: Batman e o Nascimento da Cultura Nerd (2016), o crítico Glen Weldon apontou que Miller, retomando as origens do personagem criado em 1939 por Bob Kane e Bill Finger, assumiu o status de justiceiro fora da lei, que entra em conflito com bandidos, com a polícia e, por fim, com a própria sociedade e com autoridades “tão venais e moralmente falidas quanto os criminosos”. O “deus da vingança”, nas palavras de Miller, pode ser visto como um fascista ou até um terrorista.
O impacto da diagramação com 16 quadros

Rei dos quadrinhos nos anos 1980 e 1990, graças a sua passagem pelo Demolidor, da Marvel, e a títulos que depois foram adaptados para o cinema, como Sin City e 300 de Esparta, Frank Miller influenciou um exército de roteiristas. Siderados por O Cavaleiro das Trevas e também por Watchmen, publicado por Alan Moore e Dave Gibbons a partir do mesmo ano, e preocupados com o risco de a Guerra Fria evoluir para uma guerra nuclear, eles produziram HQs de super-heróis com temáticas mais adultas. Imperam o medo e a desconfiança nos cenários, e o indivíduo precisa prevalecer sobre o Estado. Nasciam os gibis chamados, nos EUA, de grim and gritty: os personagens tornaram-se cruéis e raivosos, até escorregarem, na metade dos anos 1990, para o caricato e o ridículo.
A arte inspirou na mesma medida uma série de desenhistas, fascinados pelo traço veloz, a ação brutal, a anatomia grotesca, as onomatopeias exageradas, o jogo de luzes e sombras. Miller bebeu do Expressionismo Alemão, do cinema noir de Hollywood e dos quadrinhos japoneses, os mangás — sobretudo Lobo Solitário (1970-1976), vide a dinâmica da dupla formada por Bruce Wayne com Carrie Kelley, a adolescente que assume o posto de Robin.
Na diagramação, Miller usou uma escala de 16 quadros, em vez dos habituais quatro, seis, oito ou nove. Essa disposição dá profundidade, pois permite mais conteúdo, visual e textual, e um sentido de urgência. O autor controla o ritmo da narrativa para extrair impacto dramático quando, por exemplo, deixa a figura do Batman explodir na página inteira.
Miller rompeu de vez com a imagem colorida e cômica do Batman que muitos ainda podiam ter por causa do popularíssimo seriado de TV que teve três temporadas entre 1966 e 1968, eternamente reprisadas. A HQ criou um paradigma incontornável do Homem-Morcego.
— Por mais que um resgate do seu lado mais sério já tivesse acontecido a partir do final dos anos 1960 e começo dos anos 1970 com (o roteirista) Dennis O’Neil, Neal Adams e Frank Robbins (ambos desenhistas), a obra máxima de Frank Miller conseguiu atingir patamares que ultrapassaram sua mídia. O filme Batman (1989), de Tim Burton, bebeu um pouco das influências na época do Batman do Miller, e esse filme foi uma pedra muito importante na popularização cultural do Homem-Morcego — comenta Fábio da Luz, do canal no YouTube Caverna do Morcego, que tem quase 90 mil seguidores.
— Não existe HQ do Batman pós-O Cavaleiro das Trevas que não sinta alguma influência. Nem Bat-filme, nem Bat-desenho animado, nem Bat-videogame. Alguns historiadores dos quadrinhos falam inclusive em uma "Era das Trevas" nas HQs dos EUA. Absolute Batman, sucesso recente e estrondoso nos quadrinhos, deixa todas as influências à mostra — diz o crítico Érico Assis.
Fábio da Luz complementa:
— O Cavaleiro das Trevas pode ter criado um padrão envolvendo o super-herói aposentado que tem que voltar à ativa, com um lado mais agressivo. Mesmo produções fora do nicho de super-heróis trazem marcas da HQ. O último game da série Doom, Doom: The Dark Ages, usou como referência o Batman de O Cavaleiro das Trevas para construir o personagem principal.
Érico Assis compara:
— A minissérie transformou o Batman em uma espécie de Hamlet. Se Hamlet é o papel que pode consagrar um ator, fazer o “seu” Batman virou marca de distinção e prestígio entre autores de quadrinhos. E talvez dê para ver essa mesma lógica no cinema, a partir do Tim Burton. Que muito obviamente leu O Cavaleiro das Trevas, assim como qualquer pessoa que mexeu com Batman em qualquer mídia.
Gaúcho desenhou última continuação da HQ

O próprio Frank Miller conseguiu fazer um novo Hamlet: repetiu a dose com Ano Um (1987), história desenhada por David Mazzucchelli que virou cânone das aventuras iniciais do Batman. O autor já voltou quatro vezes ao universo de O Cavaleiro das Trevas, mas nunca mais com as mesmas receptividade e repercussão.
Em 2001, ele lançou O Cavaleiro das Trevas 2, que se passa três anos depois e introduz outros heróis, como o Flash, agora escravizado pela ditadura de Lex Luthor.
O Cavaleiro das Trevas III: A Raça Superior saiu em 2015. Já debilitado por um alcoolismo severo que muita gente confundiu com uma doença degenerativa, Miller apenas colaborou com Brian Azzarello no roteiro e desenhou algumas histórias complementares (o artista principal é Andy Kubert).
Depois, veio o especial A Última Cruzada (2016), um preâmbulo da trama original, estrelado por Batman, Jason Todd e Coringa e assinado por Azzarello e Miller e com John Romita Jr. na arte.
A última investida teve mãos gaúchas: o pelotense Rafael Grampá, com cores de Jordie Bellaire, ilustrou Cavaleiro das Trevas: A Criança Dourada (2019). Na trama escrita por Frank Miller, Carrie Kelley, agora como Batwoman, une forças com Lara Kent e Jonathan Kent, filhos de Superman e da Mulher-Maravilha, para combater a aliança dos vilões Coringa e Darkseid.
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