
Em 2026, comemoram 20 anos cinco filmaços que, à primeira vista, só têm em comum o fato de terem sido lançados em 2006: Borat: O Segundo Melhor Repórter do Glorioso País Cazaquistão Viaja à América, O Caminho para Guantánamo, O Grande Truque, Os Infiltrados e O Plano Perfeito.
Mas eu acho que esses cinco filmes conversam bastante uns com os outros.
Todos tratam de trapaça, de ilusão, de simulação da realidade. Todos têm personagens que fingem ser uma coisa ou que escondem seus reais objetivos. Todos enganam personagens ou o próprio espectador: a gente pode ficar sem saber quem é quem, a gente pode levar uma virada do roteiro e a gente pode até se confundir sobre os limites da ficção com o documentário.
1) O Caminho para Guantánamo (2006)

De Michael Winterbottom e Mat Whitecross. O primeiro filme a comemorar os 20 anos é O Caminho para Guantánamo (The Road to Guantanamo), que em fevereiro de 2006 valeu a Winterbottom e Whitecross o Urso de Prata de melhor direção no Festival de Berlim. Trata-se de um docudrama, um híbrido entre documentário e drama, a exemplo de A Voz de Hind Rajab (2025), concorrente ao Oscar internacional.
O filme reconstitui a história de três jovens muçulmanos da Inglaterra que foram considerados terroristas pelo exército dos Estados Unidos. Esses três amigos viajaram para um casamento no Paquistão dias depois dos atentados do 11 de Setembro, em 2001, e resolveram esticar até o Afeganistão, país que recém havia sido invadido pelos americanos, na caçada ao terrorista Osama bin Laden. Por uma combinação de azar e caos, o trio acaba preso injustamente e enviado ilegalmente pra base militar de Guantánamo, em Cuba, onde sofrem torturas e humilhações.
Para contar essa história, os diretores usam entrevistas com os três jovens e imagens históricas, mas também ferramentas da dramaturgia. Os três amigos são, na verdade, interpretados por atores. No começo do filme, podemos achar que são de arquivo as cenas no Paquistão, nas vésperas do casamento. Mas elas são uma dramatização dos fatos. E a prisão de Guantánamo não é a verdadeira, porque o governo dos Estados Unidos não autorizou filmar lá. A saída foi recriar o cenário no Irã.
A terrível ironia em relação a O Caminho para Guantánamo é que, ao voltarem do Festival de Berlim para a Inglaterra, alguns atores foram detidos por cerca de uma hora pela polícia no aeroporto de Londres. Um deles era Riz Ahmed, que anos depois concorreu ao Oscar de melhor ator pelo papel em O Som do Silêncio (2019). (Indisponível no streaming)
2) O Plano Perfeito (2026)

De Spike Lee. Na trama do segundo aniversariante (o filme estreou em 20 de março de 2006), assaltantes vestidos com uniformes de pintor invadem um banco em Nova York e fazem reféns. A polícia chega ao local esperando resolver a situação rapidamente, mas o detetive vivido por Denzel Washington se surpreende com a inteligência e a frieza do líder dos bandidos, que é encarnado por Clive Owen.
O Plano Perfeito (Inside Man) acompanha o jogo intelectual entre um policial e um ladrão, cada um tentando antecipar a jogada do outro. O filme é armado como uma charada. Mas como o diretor é Spike Lee, este não é só um filme de assalto.
Lee é um cineasta preocupado com questões sociais, raciais e políticas. O filme lembra constantemente, em cenas ora cômicas, ora dramáticas, que Nova York tem um perfil multirracial e uma diversidade cultural que às vezes geram atrito. E eu não quero dar spoiler sobre a história, mas preciso dizer que, por trás da motivação do roubo, existe um segredo sinistro que conecta o passado com o presente e que reconfigura O Plano Perfeito. (Amazon Prime Video e HBO Max)
3) O Grande Truque (2006)

De Christopher Nolan. Lançado nos cinemas em 20 de outubro de 2006, O Grande Truque (The Prestige) se passa em Londres, na virada para o século 20, época em que os espetáculos de mágica, com seu convite à ilusão, ocupavam o espaço que em breve seria do cinema. Dois jovens buscam o estrelato: Robert Angier, personagem de Hugh Jackman, e Alfred Borden, interpretado por Christian Bale. Após um acidente de trabalho, os dois mágicos se transformam em terríveis rivais. E ainda vão disputar uma assistente de palco encarnada pela Scarlett Johansson.
Na abertura, o engenheiro de gaiolas para pombos e tanques de água vivido por Michael Caine faz um monólogo que fala sobre o trabalho de mágico e dá pistas sobre o grande truque do filme. Esse monólogo é ilustrado por cenas que atiçam a curiosidade, como a de vários chapéus espalhados em uma floresta, e antecipam situações sinistras e revelações chocantes.
Mas a todo instante estaremos nos iludindo, nos confundindo e nos surpreendendo, porque, a exemplo do que diz o personagem de Caine, talvez não estivéssemos prestando atenção, talvez não quiséssemos realmente saber. Eis uma bela metáfora para o cinema em si, onde somos cúmplices dos enganadores. (Disponível para aluguel em Amazon Prime Video, Apple TV e YouTube)
4) Os Infiltrados (2006)

De Martin Scorsese. O quarto filmaço a completar 20 anos em 2026 também estreou em outubro de 2006. Talvez não seja o favorito dos fãs de Scorsese. E nem é o mais característico, já que o cineasta troca a sua amada Nova York pela cidade de Boston. Mas foi por Os Infiltrados (The Departed) que ele conseguiu ganhar seu único Oscar até agora, o de melhor direção.
Os Infiltrados é a adaptação de um filme policial de Hong Kong, Conflitos Internos (2002), mas também permite a Scorsese misturar o drama criminal com um painel histórico dos Estados Unidos. Os personagens principais andam ao mesmo tempo ao lado e fora da lei. Billy Costigan, papel de Leonardo DiCaprio, é um policial infiltrado na máfia irlandesa. Colin Sullivan, que é encarnado por Matt Damon, ingressou na polícia de Boston a mando do chefão do crime, Frank Costello, vivido por Jack Nicholson.
O diretor narra a trajetória de Billy e Colin em paralelo, contrapondo a angústia e a solidão do primeiro ao estilo sedutor e calculista do outro. Logo um personagem estará à procura da identidade do outro, em uma caçada que toma rumos surpreendentes.
De novo, eu não quero dar spoiler, mas deixo uma dica: prestem atenção em como a letra X aparece em janelas, nas paredes, no chão e até na iluminação das cenas. O X está ali como um símbolo da morte e também como uma cruz virada, sinalizando a visão de Scorsese sobre o mundo contemporâneo, onde os limites entre o bem e o mal estão borrados. E onde a moralidade não existe, não existe mais pecado, portanto, não existe mais redenção. Nesse contexto, parece não haver espaço para um dos grandes temas do cineasta, a culpa católica. (Amazon Prime Video e Telecine)
5) Borat (2006)

De Larry Charles. O filme que estreou em novembro de 2006 deu fama e um Globo de Ouro ao comediante britânico Sacha Baron Cohen, que interpreta um falso jornalista de TV cazaque.
Hoje em dia já estamos bem acostumados com o estilo de documentário falso praticado em Borat: O Segundo Melhor Repórter do Glorioso País Cazaquistão Viaja à América (Borat: Cultural Learnings of America for Make Benefit Glorious Nation of Kazakhstan), que zomba dos entrevistados na cara-dura, expondo as pessoas a momentos embaraçosos ou mesmo ultrajantes. Às vezes até desconfiamos da autenticidade, achamos que é tudo encenação. Mas o que dizem de Borat é que, na maioria dos casos, os entrevistados não foram avisados de que estavam participando de uma comédia.
O filme começa com o protagonista mostrando sua pobre aldeia natal e refletindo a visão estereotipada que muitos estadunidenses têm dos países do Leste Europeu e da Ásia Central. Essas cenas não foram filmadas no Cazaquistão, mas em um vilarejo da Romênia. Aliás, em nenhum momento de Borat a língua cazaque é ouvida de fato. E a maioria das palavras que aparecem escritas estão mal digitadas ou não fazem sentido.
As piadas antissemitas, escatológicas, misóginas, racistas e homofóbicas se multiplicam quando o repórter e seu produtor, Azamat Bagatov, desembarcam em Nova York. Quem cruza o caminho de Borat sofre constrangimentos e diz coisas das quais deveria se envergonhar.
Nessas cenas, Sacha Baron Cohen se torna um infiltrado na sociedade dos EUA e opera o seu grande truque, aplica o seu plano perfeito, fazendo a ficção ganhar contornos de documentário. Imaginando que tudo o que dissessem só seria ouvido no distante e obscuro Cazaquistão, alguns entrevistados de Borat soltam o freio e revelam uma série de preconceitos. (Disney+)
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