
Pode-se acusar a diretora Emerald Fennell de qualquer coisa, exceto provocar indiferença. Com seu terceiro filme, O Morro dos Ventos Uivantes (Wuthering Heights, 2026), que estreia nos cinemas nesta quinta-feira (12), a cineasta britânica de 40 anos novamente causa controvérsia, como aconteceu com Bela Vingança (2020) e Saltburn (2023).
Ganhador do Oscar de melhor roteiro original, Bela Vingança fez uma crítica mordaz à cultura do estupro, sem poupar as próprias mulheres, por endossarem a culpabilização da vítima ou adotarem o discurso do "benefício da dúvida". Seu clímax dividiu opiniões — mas talvez fosse inevitável, porque cruelmente realista.
Em Saltburn, por meio de um protagonista que usa o sexo (ou a promessa de sexo) como arma, Fennell mirou o esnobismo, a hipocrisia e a alienação da aristocracia. Cenas como a da banheira, a do túmulo e a do sexo oral com menstruação deram o que falar — no mínimo, geraram questionamentos do tipo "será que o choque visual é apenas uma tentativa de encobrir a falta de substância?".

Protagonizado por Margot Robbie e Jacob Elordi, O Morro dos Ventos Uivantes é baseado no romance homônimo publicado em 1847 pela escritora britânica Emily Brontë (1818-1848). Conta a história de uma paixão proibida, obsessiva e destrutiva ambientada no condado de Yorkshire, no norte da Inglaterra, na segunda metade do século 18. De um lado, está Catherine Earnshaw (interpretada pela estreante Charlotte Mellington na infância); do outro, o órfão Heathcliff (vivido inicialmente pelo talentoso Owen Cooper, premiado no Emmy pela minissérie Adolescência), que foi adotado pelo pai dela, Mr. Earnshaw (papel de Martin Clunes), que é ora bondoso, ora irascível.
A decadência da família Earnshaw acaba levando Catherine a se casar com um vizinho rico, Edgar Linton (encarnado por Shazad Latif), para o desgosto profundo de Heathcliff. O elenco principal se completa com Hong Chau (indicada ao Oscar de melhor atriz coadjuvante por A Baleia), como a governanta Nelly, e Alison Oliver (da série Task), como Isabella Linton, irmã caçula de Edgar.
A versão de Emerald Fennell para O Morro dos Ventos Uivantes gerou polêmica antes mesmo de começar a ser filmada. Bastou ser anunciada a escalação do elenco.
Indicada ao Oscar de melhor atriz por Eu, Tonya (2017) e ao de atriz coadjuvante por O Escândalo (2019), Margot Robbie, 35 anos, foi considerada velha demais para interpretar Catherine Earnshaw, que durante grande parte do livro tem entre 16 e 19 anos. Houve quem reclamasse também que a estrela australiana é loira, enquanto no original a personagem tem cabelos negros.
Egresso do elenco de Saltburn e concorrente ao Oscar de melhor ator coadjuvante por Frankenstein (2025), Jacob Elordi, que encarna Heathcliff, é um homem branco, mas no romance o personagem é descrito como um sujeito de "pele escura" e referido como "cigano" ou "lascar" (um termo do século 19 para marinheiros indianos). Críticos literários e fãs da obra de Brontë condenaram antecipadamente o filme por ignorar o contexto de racismo, xenofobia e exclusão social que é essencial para as ações de Heathcliff.
(Justiça seja feita, Emerald Fennell não é a primeira diretora a embranquecer o personagem. As adaptações cinematográficas mais famosas têm atores brancos no papel: Laurence Olivier no filme de 1939 dirigido por William Wyler, Timothy Dalton no de 1970 assinado por Robert Fuest e Ralph Fiennes no de 1992 comandado por Peter Kosminsky. Em 2011, James Howson foi o primeiro ator negro a viver Heathcliff, na versão lançada em 2011 por Andrea Arnold.)
As primeiras imagens divulgadas do novo O Morro dos Ventos Uivantes também provocaram queixas. Muita gente torceu o nariz para a estética adotada e para a aposta no erotismo, que inclui doses generosas de sadomasoquismo. "Quando você olha o pôster, te parece uma história de obsessão, violência e vingança ou te parece um 50 Tons de Cinza da Era Vitoriana?", perguntou Andressa Rocha no perfil do Instagram minhabibliotecainfinita.

Os cerca de 50 figurinos de Catherine, por sua vez, são assumidamente anacrônicos. Vencedora do Oscar por Anna Karenina (2012) e por Adoráveis Mulheres (2019), Jacqueline Durran afirmou ter buscado referências no período elisabetano (1558-1603) e na Era de Ouro de Hollywood (entre as décadas de 1920 e 1960). Já a trilha sonora conta com canções de Charli XCX, que em 2025 recebeu o prêmio Grammy de melhor álbum de dance/música eletrônica por Brat.
Emerald Fennell vem rebatendo críticas nas entrevistas que concede. Aliás, sua estratégia de defesa começa no emprego de aspas no título original e nos cartazes: o filme não é uma cópia fiel do livro, mas uma visão muito pessoal da cineasta.
Para o bem ou para mal.

Por vezes, o filme parece mesmo o que se poderia chamar de "thriller erótico retrô", uma espécie de 50 Tons de Ventos Uivantes — sobretudo nas sequências fogosas embaladas pelas canções de Charli XCX. O esmero estético se revela um tiro pela culatra: há cenas e cenários tão calculados que podem quebrar o envolvimento emocional do espectador e denunciar a artificialidade (vide a montanha de garrafas na casa de Mr. Earnshaw).
Em outros momentos, porém, O Morro dos Ventos Uivantes é de uma beleza acachapante. A direção de fotografia do sueco Linus Sandgren, oscarizado por La La Land (2016), investe bastante na névoa, que tanto empresta um caráter etéreo ao romance entre Catherine e Heathcliff quanto aponta para a existência de segredos, traições, mal-entendidos e perigos ocultos — ou mesmo fantasmas, como evoca um monólogo do personagem de Jacob Elordi: "Esteja sempre comigo, assuma qualquer forma, me assombre".
Adornada pelos desabalados violinos da música composta por Anthony Willis, a tensão sexual é praticamente tátil: o tesão transborda, pois que impossível de ser contido no corpo dos personagens. Fennell centra o foco na natureza tóxica do relacionamento entre Catherine e Heathcliff e deles com os coadjuvantes, marcado por abuso — físico e psicológico —, codependência, manipulação, crueldade, vingança. Não à toa, o lamúrio "Estamos condenados" é proferido mais de uma vez, funcionando como leitmotiv da trama.
Aliás, desde a abertura o filme sinaliza para o potencial aniquilador da libido e estabelece a proximidade entre o sexo e a morte. Antes de surgir uma imagem na tela, ouvimos gemidos que se assemelham ao de um homem prestes a gozar. Quando a primeira cena torna-se visível, descobrimos que o som, na verdade, é de um homem prestes a morrer na forca.
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