
A comédia dramática Isso Ainda Está de Pé? (Is This Thing On?, 2025), que estreia nesta quinta-feira (19) nos cinemas de Porto Alegre, é o terceiro filme dirigido pelo ator Bradley Cooper. Ele também atua, mas desta vez abriu mão de ser o protagonista, como em Nasce uma Estrela (2018) e em Maestro (2023). Aliás, se a cinebiografia do regente e compositor Leonard Bernstein (1918-1990) era narcisista e exibicionista, o novo título investe em tanta simplicidade e discrição que chega a virar o fio. Pode ser rapidamente esquecido da memória.
Não à toa, foi totalmente esnobado no circuito de premiações, diferentemente de Nasce uma Estrela, que recebeu oito indicações ao Oscar, e de Maestro, que competiu em sete categorias.
Escrito por Cooper com o ator e dublador Will Arnett (das séries Arrested Development e BoJack Horseman) e com Mark Chappell, o roteiro é livremente baseado na vida de um humorista britânico, John Bishop, 59 anos. Ele já tinha 40 quando largou o emprego em uma empresa farmacêutica para se dedicar integralmente à carreira de comediante.
Bishop separou-se da esposa, Melanie, em outubro de 2000, alegando que o relacionamento se desgastou "depois de terem três filhos tão rapidamente". Para se animar, frequentou o clube de comédia Frog and Bucket, em Manchester, onde se inscreveu para uma noite de "microfone aberto" sem saber do que se tratava — só queria evitar pagar as quatro libras da taxa de entrada.
Diante das sete pessoas que formavam a plateia, contou piadas sobre seu casamento e sua separação. Agradou e acabou incentivado a voltar mais vezes. Aquilo tornou-se sua terapia, ou pelo menos um espaço onde podia falar barbaridades sem risco de ser preso — em uma de suas anedotas recorrentes, dizia sentir tanta falta da ex que guardava na geladeira a cabeça decepada dela!

O filme transpõe a ação para Nova York, onde Arnett, exibindo insuspeitados dotes dramáticos, interpreta Alex Novak. Laura Dern — ganhadora do Oscar de melhor atriz coadjuvante por História de um Casamento (2019) — encarna sua esposa, Tess. Eles são pais de dois meninos, Felix e Jude, talvez o único sustento da relação.
Isso Ainda Está de Pé? retrata com precisão ácida o deterioramento do amor. As interações entre Alex e Tess são marcadas pelo silêncio, e as raras conversas não prosperam — os diálogos se interrompem bruscamente. Quando estão entre amigos, como em um jantar na casa do casal Balls (papel de Bradley Cooper) e Christine (Andra Day, indicada ao Oscar 2022 de melhor atriz por Estados Unidos vs. Billie Holiday), as indiretas e alfinetadas doem mais.

Vem a separação, ainda que amigável. Um tanto perdido na nova configuração familiar, Alex às vezes pega o carro e dirige até a casa onde Tess ficou morando com os filhos, apenas para, estacionado na rua, assistir ao apagar das luzes na hora de dormir.
Certa noite, seu destino é um bar qualquer. Como aconteceu com John Bishop, o protagonista acaba se inscrevendo para o microfone aberto de um clube de stand-up, o Comedy Cellar. E ali ele encontra uma maneira de lidar com seu sofrimento emocional e também um novo propósito para sua vida.
Mas Alex também vira alvo de chistes sarcásticos de sua própria mãe (papel de Christine Ebersole) e de seu próprio pai (Ciarán Hinds, concorrente ao Oscar 2023 de melhor ator coadjuvante por Belfast e sempre aproveitando cada segundo em cena).
— Que graça tem a sua vida? — pergunta um.
— Não sabia que sua vida era tão ruim — comenta o outro.
Ao contrário do que o enredo sugere, porém, Isso Ainda Está de Pé? não chega a mergulhar no universo dos comediantes nem a examinar como eles transformam a dor em humor. O foco recai sobre a tentativa de Alex para reatar o casamento com Tess — situação que leva um dos colegas de stand-up a soltar uma piada escatológica, mas realmente engraçada.
O que o filme oferece de melhor é a química, ou melhor, o casamento perfeito entre Will Arnett e Laura Dern. Seus personagens ora trocam tiradas de humor seco ou autodepreciativo, ora compartilham, com o público, meditações maduras sobre frustrações e vulnerabilidades da vida a dois — sobretudo quando atravessada pela passagem do tempo ou transformada, pela chegada dos filhos, em vida a três ou a quatro.
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