
O fim do mundo é um mundo sem fim em Hollywood. Em cartaz nos cinemas do Brasil a partir desta quinta-feira (5), Destruição Final 2 (Greenland 2: Migration, 2026) é o mais recente título de um subgênero inesgotável: o dos filmes e seriados sobre o apocalipse ou pós-apocalípticos.
Essas produções ganham impulso e relevância quando o mundo se vê acuado pelas tensões geopolíticas, pelas mudanças climáticas, pelos avanços tecnológicos e pelos boletins epidemiológicos.
Há as guerras entre Rússia e Ucrânia e entre Israel e o Hamas, as ações e os discursos do presidente dos EUA, Donald Trump, contra a Venezuela, o Irã e sobre a Groenlândia.
Os desastres ambientais estão cada vez mais frequentes por causa do aquecimento global.
O veloz desenvolvimento da inteligência artificial provoca incerteza, medo e involução: já não sabemos distinguir se uma imagem é real, muitos temem ser substituídos no mercado de trabalho, e o uso massivo da IA pode nos levar à dependência cognitiva e à perda do pensamento crítico.
E, traumatizados pela ainda recente pandemia de covid-19, que matou pelo menos 7 milhões de pessoas, ficamos assustados quando surgem notícias como a do vírus Nipah, na Índia, cuja infecção pode causar síndromes respiratórias agudas e encefalites letais.
Esse cenário mundial é convidativo, digamos, para o surgimento de Destruição Final 2. Trata-se da sequência de Destruição Final: O Último Refúgio (2020), lançado diretamente no streaming em vários mercados justamente por causa do coronavírus, que forçou o fechamento de cinemas e obrigou o público ao isolamento social.
No primeiro filme, escrito por Chris Sparling, dirigido por Ric Roman Waugh e atualmente disponível nas plataformas de aluguel digital, a Terra está severamente ameaçada pela aproximação de um enorme cometa. O engenheiro civil John Garrity (papel do ator escocês Gerard Butler), sua esposa, Allison (vivida pela atriz brasileira Morena Baccarin), e o filho do casal, o menino Nathan (Roger Dale Floyd) estão entre os raros cidadãos dos EUA selecionados para uma espécie de Arca de Noé. Chegar a ela em meio ao caos será a odisseia dos Garrity, temperada pelo desespero dos vizinhos preteridos e pela inveja inflamável dos estranhos com quem cruzam no caminho.

Sem um orçamento astronômico (perdão pelo trocadilho), o diretor fez um uso parcimonioso dos efeitos de computação gráfica, evitando aquelas exageradas sequências apocalípticas que pautam os filmes de um Roland Emmerich — Independence Day, O Dia Depois de Amanhã, 2012... O foco está na família Garrity e na sua relação com os demais personagens enquanto lutam pela sobrevivência. Assim, Destruição Final permite-se, mesmo em meio à catástrofe, ensaiar reflexões pertinentes: por que eles e não nós? Como é saber que as pessoas com quem convivemos estão condenadas à morte? A dignidade vale mais do que a chance de escapar?
Destruição Final 2 também tem direção de Ric Roman Waugh, e Chris Sparling assina o roteiro ao lado de Mitchell LaFortune. Gerard Butler e Morena Baccarin reprisam seus personagens, agora com Roman Griffin Davis, de Jojo Rabbit (2019) e A Longa Marcha (2025), na pele de Nathan.

A trama se passa cinco anos depois. O cometa Clarke — uma provável referência ao escritor de ficção científica Arthur C. Clarke (1917-2008) — destruiu ou tornou inabitável 75% do planeta. A família Garrity sobrevive em um bunker subterrâneo na Groenlândia. Não é recomendado ir para o lado de fora, por causa dos resíduos radioativos e da formação repentina de tempestades eletromagnéticas. Mas o pior ainda está por vir: a movimentação de placas tectônicas gera terremotos e tsunamis. O último refúgio deixou de ser seguro, e os Garrity precisam fugir de novo. Dessa vez, para um suposto oásis verde que floresceu no sul da França.
Ou seja: Destruição Final 2 conta praticamente a mesma história de Destruição Final.
Há poucas diferenças, quase sempre para pior. Os coadjuvantes, por exemplo, são absolutamente insossos e esquecíveis, enquanto o elenco do primeiro filme contava com atores como David Denman, Hope Davis, Holt McCallany e o veterano Scott Glenn.
Uma das principais diferenças se percebe de cara. A continuação custou US$ 90 milhões, contra os US$ 35 milhões do primeiro filme, e assim pôde investir mais em cenas de ação e de efeitos visuais. O destaque positivo é uma sequência vertiginosa na travessia do Canal da Mancha, entre a Inglaterra e a França, agora completamente seco. De resto, não há nada de inédito ou de impressionante.

Com mais dinheiro, o diretor Ric Roman Waugh abriu mão dos dilemas morais para enveredar de vez pela aventura pós-apocalíptica. Um raro questionamento é feito ainda dentro do bunker: o que fazer se alguém lá fora pede socorro? Onde fica o espírito solidário que tornou possível a evolução da humanidade?
Depois que o chacoalhar da Groenlândia compele os Garrity a procurar outro refúgio, Destruição Final 2 cai no ramerrame do subgênero, incluindo o enfrentamento de ondas gigantes e os contatos perigosos com outras pessoas. Tudo é sublinhado por uma trilha sonora tão onipresente quanto pouco inspirada, composta por David Buckley, das séries The Good Fight, O Poder e a Lei e Sandman. Verdade seja dita, no final há um "casamento perfeito" entre a pieguice da trama e a pieguice da música.
Por que assistimos ao fim do mundo?

Todos os anos, as plataformas de streaming e as salas de cinema são bombardeadas com narrativas sobre o fim do mundo (às vezes, o fim é dos Estados Unidos, o que dá na mesma para Hollywood).
A lista de séries mais ou menos recentes é longa: The Walking Dead, Os 100, Os 12 Macacos, O Último Cara da Terra, O Último Navio, 3%, The Rain, See, Black Summer, Cidade dos Mortos, O Expresso do Amanhã, Sweet Tooth, Estação Onze, The Last of Us, Silo, Fallout...
Entre os filmes, estão A Avaliação, Batem à Porta, Bird Box, O Céu da Meia-Noite, O Declínio, A Grande Inundação, A Guerra do Amanhã, O Mundo Depois de Nós, Não Olhe para Cima, Ruído Branco, A Tristeza e os novos segmentos de franquias como Extermínio, Um Lugar Silencioso, Mad Max e Planeta dos Macacos.
Por que o público é tão fascinado pelo apocalipse? Por que assistimos a tantos filmes e seriados apocalípticos e pós-apocalípticos?
Talvez porque essas produções, geralmente ambientadas no amanhã, nos convidem a refletir sobre inquietações de hoje. Como diz Rudinei Kopp, autor do livro Quando o Futuro Morreu? (2011), as distopias encenadas se apresentam não exatamente como profecias, mas pesadelos do nosso tempo.
"A ficha do aquecimento global está caindo primeiro na ficção", comentou comigo, certa vez, o psicólogo e psicanalista Mário Corso, colunista de GZH. "A maioria das pessoas não quer saber disso, e o não falado aparece nos filmes e nas séries."
Sua esposa, a também psicóloga e psicanalista Diana Corso, acrescentou: "Acho que ninguém gosta de se saber mais um elo da história da humanidade e do planeta que tende a ser superado. Daqui a pouco a gente vira pó e também cinza na memória. Todo mundo gosta de pensar que talvez nós sejamos a última geração do planeta. Quando a gente vê um filme apocalíptico, não pensamos que fazemos parte do exército de zumbis, mas do eleito grupo que vai sobreviver. Nem que seja em más condições, nós vamos ser a forma final da humanidade. A gente não vai ser superado, a gente tem o protagonismo".
Fiz a mesma pergunta a Érico Assis, crítico de quadrinhos (um campo ainda mais fértil para esse tipo de narrativa, já que não depende de orçamento polpudo para a construção de cenários e os efeitos visuais) e tradutor: "Acho que é o mesmo princípio que faz a capa de jornal com notícia ruim vender mais do que a capa com notícia boa: é um princípio antropológico que nos leva a buscar informação para se proteger, proteger a família, proteger sua vida. Claro que, se você levar isso a sério, conscientemente, você pode estudar sobrevivencialismo, equipar seu bunker e efetivamente se preparar para o pior. Os filmes, os quadrinhos e os seriados desenham com todas as cores como a situação pode ser e conversam melhor do que as previsões sérias com esse instinto, que, óbvio, leva tão poucos a se preparar de fato. Mas o instinto ainda existe e nos leva a ler ou assistir, a se colocar naquele apocalipse".
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