
Começa a milhão e termina deprê o filme mais visto na Netflix nos últimos dias. Mas pode ler sossegado: neste texto, não haverá spoilers nem do início, nem do fim de Salve Geral: Irmandade (2026), que foi lançado pela plataforma de streaming na quarta-feira (11).
Dirigido por Pedro Morelli e produzido pela O2 Filmes, o longa-metragem de ação é o primeiro spin-off de uma série brasileira da Netflix, Irmandade, que foi criada por Morelli e teve duas temporadas, lançadas em 2019 e em 2022.
Ambientado no meio da década de 1990, o seriado contou a história de Cristina (personagem de Naruna Costa), uma advogada honesta que descobre que o irmão, Edson (papel de Seu Jorge), desaparecido há anos, está preso por ser líder de uma facção que ascendeu nas penitenciárias de São Paulo. É a Irmandade do título, que tem algumas semelhanças com uma organização criminosa da vida real, o Primeiro Comando da Capital (PCC).
Escrito por Pedro Morelli com Julia Furrer, o filme se passa mais ou menos 10 anos depois da série. Traz no título o termo usado pelas lideranças do PCC para ordenar ações — sejam dentro dos presídios ou nas ruas. A ficção remete aos ataques coordenados que ocorreram em maio de 2006.
Em represália à transferência de 765 apenados — entre eles Marco Willians Herbas Camacho, o Marcola, considerado o líder da facção —, o PCC articulou rebeliões em cerca de 70 penitenciárias do Estado de São Paulo e transformou em alvo delegacias, viaturas, policiais e bancos.
Como reação, agentes do Estado e grupos de extermínio também foram para as ruas, que ficaram desertas: supermercados, bares, escolas, universidades e comércio fecharam as portas, e ônibus pararam de funcionar, principalmente nas periferias da capital paulista. A onda de violência deixou 564 mortos (sendo 59 agentes públicos). Relatório da Comissão Especial do Conselho de Defesa dos Direitos da Pessoa Humana, ligado à Secretaria Nacional de Direitos Humanos, apontou que em 60% dos casos as vítimas civis foram baleadas na cabeça, indicando execução sumária, sem confrontos entre policiais e criminosos.

Salve Geral: Irmandade reinventa esse contexto pela perspectiva de duas personagens femininas — e duas mulheres negras, vale frisar. Uma é Cristina, que, como advogada, vem tentando enfatizar na Irmandade a luta pelos direitos civis. Mas ela acaba sendo voto vencido quando o grupo se vê em um momento crítico por conta da transferência dos principais líderes para presídios de segurança máxima, incluindo Ivan (encarnado por Lee Taylor).
Na outra ponta da trama está Elisa, interpretada por Camilla Damião, do filme Marte Um (2022). Ela é filha de Edson, o Edinho Cabuloso, mas não se dá bem com a tia: as duas divergem sobre o legado da família. Porém, os laços de sangue vão falar mais alto quando Elisa é sequestrada por policiais corruptos.
Esse enredo permite a Salve Geral investir bastante nas cenas de ação, a começar por um plano-sequência sensacional, de quase 10 minutos, logo na abertura. Essa largada não deve nada às produções de Hollywood na fabricação da intensidade e no convite à imersão do espectador.
— É uma grande novidade do filme em relação à série: a ação muito mais presente e o emprego dos planos-sequência — comentou a atriz Naruna Costa em entrevista por vídeo realizada no dia 5 de fevereiro. — E foi uma novidade para todo mundo que trabalhou no filme. A gente pôde aprender junto a fazer a parada, que realmente requer uma concentração total e de todos. Se alguém falha num plano-sequência de sete minutos, de 10 minutos, dá ruim para todo mundo. A gente teve que ensaiar muito e se apropriar dessa técnica e dessa linguagem.

Naruna celebrou o protagonismo feminino em um gênero cinematográfico tão associado aos homens:
— É um universo que me interessa tanto para assistir quanto para atuar. Então, esse também foi um ganho.
Camilla Damião também participou da conversa e enalteceu a "conexão" que havia entre todas as pessoas do set, "desde a pessoa que está lá atrás trazendo o cafezinho até quem está fazendo a luz". A atriz acrescentou:
— Trabalhei meu condicionamento físico também, porque muitas vezes estou correndo em cena, e tive aulas de apneia, para fazer a cena da banheira.
Entrevista com Camilla Damião e Naruna Costa

A seguir, confira as respostas das atrizes Naruna Costa e Camilla Damião às minhas perguntas sobre o filme Salve Geral: Irmandade.
Salve Geral: Irmandade opõe o mundo do crime organizado com o mundo da corrupção policial. É um cenário de homens maus e propensos à violência. As personagens femininas, não só a Cristina e a Elisa, mas também a da atriz Marcélia Cartaxo, que faz a mãe de um policial, surgem como as figuras de cuidado e de coragem também. Vocês podem falar sobre os sentimentos e as ações das suas personagens?
Camilla Damião: Acho que o meu propósito cênico, para dar vida à Elisa, foi que eu pudesse ser o mais honesta possível, no sentido de conseguir trazer um lado humano dela. Então, acho que ela sente tudo ali. Ela vai sentir coisas boas, ela vai ter sentimentos ruins, ela vai fazer escolhas boas, ela vai fazer escolhas ruins. Quando você fala desse cenário de homens ruins, talvez eu enxergue isso como um cenário de pessoas mesmo. Não é que as personagens sejam boas ou más, mas essas emoções se permeiam. É uma coisa humana, de pessoas reagindo à violência, de pessoas reagindo àquela grande guerra que tudo vira de uma hora para outra. Está tudo bem, está todo mundo ali levando a vida, e de repente a gente está diante de uma guerra.
Naruna Costa: Nossa, muito bem lembrado, Marcélia Cartaxo, que honra poder fazer um filme com essa mulher, nossa deusa do cinema nacional. Acho que a série e o filme têm esse poder de mostrar quem são essas pessoas para além dos seus papéis. Os homens, de certa forma, estão apresentados como pessoas com mais habilidade nesse lugar do crime, da violência física, da corrupção. Mas em algum momento isso também se desfaz, como, por exemplo, na cena do Edson (personagem de Seu Jorge) com a Elisa criança, que revela a intimidade de pai e filha e na qual ele canta uma música que consegue traduzir tantas profundidades daquele homem. Um homem que anseia pela liberdade, que anseia por um momento assim com a filha na beira-mar, um homem que vai além do Edinho Cabuloso. As mulheres, aparentemente, se apresentam nesse lugar do papel feminino, do acolhimento, do cuidado. Mas quando elas precisam colocar a mão na massa, quando elas deparam com a violência, elas também são violentas, elas também podem ser criminosas. O filme mostra o que uma mãe é capaz de fazer para defender o filho dela, acreditando ou não na verdade das coisas.
O filme começa com um plano-sequência que termina com uma cena de nascimento em meio ao caos. E o filme acaba com uma cena de morte, mas que também marca uma espécie de renascimento. Só que é um epílogo amargo, não acham?
Naruna Costa: Cara, esse final... Eu acho que amargura é uma boa palavra, porque não é saboroso mesmo. É indigesto. É indigesto encarar a vida por essa perspectiva de que a violência muitas vezes rege o nosso comportamento. A reflexão que fica é justamente essa: é possível construir algo que seja palpável, que seja digno, que tenha dignidade humana, em um ambiente onde a violência é protagonista? Porque o "salve geral" é o dia da violência, ela é a grande protagonista desse dia. Eu acho que tem sim o lugar do nascimento e da perspectiva de esperança, mas não é uma esperança polida, não é uma esperança moralista, sabe? É uma esperança de que é possível, talvez, negociar a vida, mas sem negar essa trajetória, que é muito doída, muito amarga e muito indigesta. É um filme corajoso, eu não sei como vai chegar para a população em geral. Quando eu li o roteiro pela primeira vez, fiquei muito impactada. O filme é bastante ousado em relação às questões que pode gerar, mas esse filme foi muito debatido. Aliás, um dado que acho importante trazer é que eu fiz uma contribuição, uma consultoria de roteiro, houve uma abertura para que eu, pela minha experiência na série, pudesse colocar o meu olhar. E esse final foi bastante conversado. Acho que o epílogo é uma pergunta. Vamos ver como chega e os debates que vai gerar.
Camilla Damião: Acho que é essa palavra mesmo, indigestão. Eu não consigo elaborar, porque tem muita coisa que ficou viva em mim. O final deixa essa grande pergunta. Mas a arte se inspira muito na vida, né? Se inspira no cotidiano. Acho que esse final tem muito a ver com a realidade, porque muitas vezes a realidade é muito indigesta, esse amargor, infelizmente, está presente o tempo inteiro nas relações humanas. Talvez o caminho do filme seja de provocar isso nas pessoas, apontar essa indigestão que a gente sente o tempo inteiro.
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