
O Morro dos Ventos Uivantes (Wuthering Heights, 2026) é o Emilia Pérez (2024) da temporada. Em cartaz nos cinemas, a nova adaptação de um clássico da literatura inglesa do século 19 talvez não se torne tema de um clube do livro, mas com certeza já virou alvo de um clube do ódio.
O filme tem roteiro e direção de Emerald Fennell, cineasta de 40 anos que pode ser acusada de qualquer coisa, exceto provocar indiferença. A controvérsia é uma marca dos seus três longas-metragens.
O primeiro foi Bela Vingança (2020), pelo qual Fennell ganhou o Oscar de melhor roteiro original. O filme fez uma crítica mordaz à cultura do estupro, sem poupar as próprias mulheres, por às vezes endossarem a culpabilização da vítima ou adotarem o discurso do "benefício da dúvida". O clímax dividiu opiniões — mas talvez fosse inevitável, porque cruelmente realista.
No segundo filme, Saltburn (2023), a diretora britânica, por meio de um protagonista que usa o sexo como arma, mirou o esnobismo, a hipocrisia e a alienação da aristocracia. Cenas como a da banheira, a do túmulo e a do sexo oral com menstruação deram o que falar — no mínimo, geraram questionamentos do tipo "será que o choque visual é apenas uma tentativa de encobrir a falta de substância?".

Agora chegou a vez de O Morro dos Ventos Uivantes. Protagonizado por Margot Robbie e Jacob Elordi, o filme é baseado no romance publicado em 1847 pela escritora britânica Emily Brontë. Conta a história de uma paixão proibida, obsessiva e destrutiva ambientada no condado de Yorkshire, no norte da Inglaterra, na segunda metade do século 18.
De um lado, está Catherine Earnshaw, interpretada pela estreante Charlotte Mellington na infância; do outro, o órfão Heathcliff, vivido inicialmente pelo talentoso Owen Cooper, premiado no Emmy pela sua atuação na minissérie Adolescência (2025). Heathcliff foi adotado pelo pai dela, Mr. Earnshaw (papel de Martin Clunes), que é ora bondoso, ora irascível.
A decadência da família Earnshaw acaba levando Cathy a se casar com um vizinho rico, Edgar Linton (encarnado por Shazad Latif), para o desgosto profundo de Heathcliff.
O elenco principal se completa com Hong Chau, indicada ao Oscar de melhor atriz coadjuvante por A Baleia (2022), como a dama de companhia Nelly, e Alison Oliver, da série Task (2025), que rouba a cena na pele da mimada e ingênua Isabella — no filme apresentada como pupila de Edgar, e não sua irmã caçula.
Por que odeiam "O Morro dos Ventos Uivantes"

A versão de Emerald Fennell para O Morro dos Ventos Uivantes gerou polêmica antes mesmo de começar a ser filmada. Bastou ser anunciada a escalação do elenco.
Indicada ao Oscar de melhor atriz por Eu, Tonya (2017) e ao de atriz coadjuvante por O Escândalo (2019), Margot Robbie, 35 anos, foi considerada velha demais para interpretar Catherine Earnshaw, que durante grande parte do livro tem entre 16 e 19 anos. Houve quem reclamasse também que a estrela australiana é loira, enquanto no original a personagem tem cabelos negros.
Egresso do elenco de Saltburn e concorrente ao Oscar de melhor ator coadjuvante por Frankenstein (2025), Jacob Elordi, que encarna Heathcliff, é um homem branco, mas no romance o personagem é descrito como um sujeito de "pele escura" e referido como "cigano" ou "lascar", um termo do século 19 para marinheiros indianos. (Vale mencionar que, curiosamente, agora uma atriz tailandesa interpreta Nelly, assim como o ricaço Edgar é vivido por um ator de ascendência paquistanesa.)
Críticos literários e fãs da obra de Brontë condenaram antecipadamente o filme por ignorar o contexto de racismo, xenofobia e exclusão social que é essencial para as ações de Heathcliff. Sua obsessão por vingança é consequência das interdições, das humilhações e da violência praticadas contra ele.
No perfil do Instagram Querido Clássico (@queridoclassico), Mia Sodré, mestre e doutoranda em Letras pela UFRGS e pesquisadora da obra de Emily Brontë, resumiu: escrever O Morro dos Ventos Uivantes foi "a maneira como Brontë criticou o desequilíbrio causado pela violência racial e de classe numa Inglaterra que avançava a passos largos na Revolução Industrial (que começou por volta de 1760)".
Justiça seja feita, Emerald Fennell não é a primeira diretora a embranquecer o personagem. As adaptações cinematográficas mais famosas têm atores brancos no papel: Laurence Olivier no filme de 1939 dirigido por William Wyler, Timothy Dalton no de 1970 assinado por Robert Fuest e Ralph Fiennes no de 1992 comandado por Peter Kosminsky. Em 2011, James Howson foi o primeiro ator negro a viver Heathcliff, na versão lançada por Andrea Arnold.
Outra das principais diferenças em relação ao livro é que Fennell cortou fora um personagem importante, Hindley, irmão de Cathy. No romance original, ele é o maior antagonista, a figura que realmente trata Heathcliff como um cachorro. No filme, esse irmão morreu antes mesmo de a história começar.
Suas funções na trama foram divididas entre Mr. Earnshaw e a governanta Nelly, que na nova adaptação cresceu quase como uma irmã adotiva da protagonista. Não tem mais uma afinidade maternal com Cathy, mas um ciúme amoroso mesmo, ainda que velado.
As primeiras imagens divulgadas do novo O Morro dos Ventos Uivantes também provocaram queixas. Muita gente torceu o nariz para a estética adotada e para a aposta no erotismo, que inclui doses generosas de sadomasoquismo.
"Quando você olha o pôster, te parece uma história de obsessão, violência e vingança ou te parece um 50 Tons de Cinza da Era Vitoriana?", perguntou Andressa Rocha no perfil do Instagram Minha Biblioteca Infinita (@minhabibliotecainfinita).
Por falar em visual, os cerca de 50 figurinos vestidos por Margot Robbie são assumidamente anacrônicos. Vencedora do Oscar por Anna Karenina (2012) e por Adoráveis Mulheres (2019), Jacqueline Durran afirmou ter buscado referências no período elisabetano (1558-1603) e na Era de Ouro de Hollywood (entre as décadas de 1920 e 1960). Já a trilha sonora conta com canções de Charli XCX, que em 2025 recebeu o prêmio Grammy de melhor álbum de dance/música eletrônica por Brat. Batizado de Wuthering Heights, o disco acabou de ser lançado no Spotify.

Emerald Fennell vem rebatendo todas as críticas nas entrevistas que concede. Aliás, sua estratégia de defesa começa no emprego de aspas no título original e nos cartazes: o filme não é uma cópia fiel do livro, mas uma visão muito pessoal da cineasta.
Bem, todas as contestações são compreensíveis e válidas, mas não custa lembrar: o romance de Emily Brontë continua existindo, intacto para quem o ama e à espera de novos leitores que possam surgir justamente por causa do filme.
E o filme é uma outra obra. Para o bem ou para o mal.
Pontos fracos e pontos fortes do filme

Algumas cenas fogosas fazem O Morro dos Ventos Uivantes parecer um thriller erótico retrô, uma espécie de 50 Tons de Ventos Uivantes.
Às vezes, por abrir mão de uma leitura mais sociopolítica, por desprezar a discussão de como a opressão contamina o oprimido, a diretora Emerald Fennell cai em uma armadilha, a de achar que a história de Catherine e Heathcliff é uma história de amor. Vale retomar o que escreveu a pesquisadora Mia Sodré no Querido Clássico: "Embora possamos entender que existe amor entre Cathy e Heathcliff, essa amor não é o foco da história. Quando muito, é um exemplo de como o racismo, a violência e a desigualdade social corrompem qualquer bom sentimento numa sociedade desequilibrada". Essa dimensão é timidamente sugerida, por exemplo, na repetição do lamúrio "Estamos condenados".
O esmero estético pode jogar contra: há cenas e cenários tão calculados que quebram o envolvimento emocional do espectador e denunciar a artificialidade. Vide a montanha de garrafas na casa do pai de Cathy. Mas em outros momentos O Morro dos Ventos Uivantes é de uma beleza acachapante.
A direção de fotografia do sueco Linus Sandgren, ganhador do Oscar da categoria por La La Land (2016), investe bastante na névoa, que tanto empresta um caráter etéreo às interações do par central quanto aponta para a existência de segredos, traições, mal-entendidos e perigos ocultos. Ou mesmo fantasmas, como evoca um monólogo de Heathcliff: "Esteja sempre comigo, assuma qualquer forma, me assombre".
Vale prestar atenção nas referências e homenagens — sejam intencionais ou não. Como mostrou o perfil Julietvampire no Instagram (@julietvampire), O Morro dos Ventos Uivantes tem imagens que lembram três títulos de outra diretora, Sofia Coppola: As Virgens Suicidas (1999), Maria Antonieta (2006) e O Estranho que Nós Amamos (2017). Outras cenas citam clássicos: ...E o Vento Levou (1939), Barry Lyndon (1975) e o Drácula (1992) de Francis Ford Coppola.

Embora Emerald Fennell queira que o público sofra — ou torça — por Cathy e Heathcliff, não se pode dizer que os personagens tenham sido adocicados ao ganharem o rosto e o corpo de duas das estrelas mais bonitas e desejadas de Hollywood. Continuam sendo egoístas, abusivos, cruéis, manipuladores e vingativos. O filme centra o foco na natureza tóxica do relacionamento entre Cathy e Heathcliff e deles com os coadjuvantes da história.
Nesse contexto, o sexo tem protagonismo. O tesão reprimido explode, e as transas dos personagens quase sempre envolvem o fetiche, o proibido, o controle sobre o outro e até a violência. Uma coadjuvante chega a se declarar enfeitiçada: reconhece o abuso físico e psicológico a que é submetida no casamento, mas não consegue se libertar — parece presa a seus impulsos carnais.
Aliás, desde a abertura o filme sinaliza para o potencial aniquilador da libido e estabelece a proximidade entre o sexo e a morte. Antes de surgir uma imagem na tela, a gente ouve gemidos que se assemelham ao de um homem prestes a gozar. Quando a primeira cena se torna visível, descobrimos que o som, na verdade, é de um homem prestes a morrer na forca, para o regozijo do público que assiste à execução.
É uma sequência marcante, mas também capaz de despertar críticas negativas. A jornalista e escritora inglesa Eleanor Penny (@eleanorpenny), na sua conta no Substack (Howl Noises), afirmou que a cena não tem impacto no resto da trama e serve apenas como metáfora do próprio filme: "O tédio da classe alta transforma a crueldade da classe média e a miséria da classe trabalhadora em um espetáculo erótico insípido".

A recepção tem sido mais positiva e homogênea às canções compostas por Charli XCX, que ora conjuram uma atmosfera sinistra, ora convidam ao êxtase dançante. Uma pena que seu uso seja discreto em O Morro dos Ventos Uivantes: elas salientam a fricção gostosa entre a beleza do filme (aí incluídos seus dois atores principais) e os sentimentos torpes dos personagens, entre os arroubos de paixão e o sofrimento obsessivo.
Adornadas por violinos e violoncelos, essas músicas são como uivos sedutores de amantes doentios. Falam sobre tentativas frustradas de fugir dos próprios desejos, como em Wall of Sound, uma das primeiras a se ouvir no filme. A letra de Chains of Love, por exemplo, ilustra como o amor — ou o que a gente acha que é amor — pode aprisionar e machucar. Nos versos da eufórica Dying for You, que acompanha apenas os créditos finais, Charli canta que "você é uma arma apontada para a minha cabeça e uma ferida no meu peito", "você é minha joia favorita, usada como uma corda no meu pescoço", "você é o veneno que eu bebo, eu te bebo duas vezes para ter certeza".
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