
A Sala Eduardo Hirtz, na Casa de Cultura Mario Quintana, realiza às 19h15min desta quarta-feira (25) uma sessão de pré-estreia do filme mais chocante do Oscar 2026: Sirât (2025), do diretor Oliver Laxe, que concorre nas categorias de longa internacional — representando a Espanha — e de melhor som. Na quinta (26), o título entra em cartaz na própria Cinemateca Paulo Amorim e também no CineBancários e no Cinesystem.
Este é o quarto filme dirigido por Laxe, e todos receberam troféus no Festival de Cannes. Todos São Capitães (2010) e Mimosas (2016) foram laureados pela crítica; O que Arde (2019) e Sirât ganharam o Prêmio do Júri _ o primeiro, na mostra Um Certo Olhar, e o segundo, na competição pela Palma de Ouro.
Sirât foi um dos títulos derrotados pelo brasileiro O Agente Secreto na categoria de filme em língua estrangeira do Critics Choice, do Globo de Ouro e do Film Independent Spirit Awards. Também foi rival do thriller político de Kleber Mendonça Filho no Bafta, da Academia Britânica, vencido por Valor Sentimental, e compete no César, da Academia Francesa.

Escrito por Oliver Laxe com Santiago Fillol, Sirât acompanha a busca de um pai, Luis (interpretado pelo ator espanhol Sergi López, de Coisas Belas e Sujas e O Labirinto do Fauno), por sua filha, que está desaparecida há alguns meses. Acompanhado pelo filho caçula, Estebán (Bruno Núñez Arjona), ele chega a uma rave — uma festa ao ar livre com música eletrônica — no sul do Marrocos. Os dois vão empreender uma jornada angustiante pelo deserto do Saara, em meio a um contexto de guerra e tendo ao lado um grupo de festeiros — aliás, o filme valoriza bastante o caráter catártico da dança e seu poder de autoconexão e conexão com os outros.
Esses personagens coadjuvantes são todos encarnados por atores amadores, selecionados nas ruas pela figurinista Nadia Acimi, ex-parceira romântica de Laxe e frequentadora de raves. Jade Oukid, por exemplo, que faz a homônima Jade, é uma fotógrafa francesa, cineasta diletante e costureira que foi descoberta em um festival em Portugal. Tonin Janvier, o Tonin, é um artista de rua francês que morou na África Ocidental e perdeu uma perna em um acidente de moto. Stefania Gadda, a Steff, é uma rancheira italiana que vive isolada da sociedade e foi encontrada na cidade espanhola de Órgiva, por recomendação de moradores locais.

Para quem vai assistir ao filme, há dois requisitos básicos. O primeiro é não saber mais nada sobre a trama. O segundo é estar preparado para uma obra bastante sensorial e chocante — por isso, pode ser enquadrada no tipo ame ou odeie.
Se o jornal The New York Times disse que Sirât é o filme mais indescritível e aterrorizante de 2025, a Rolling Stone definiu como uma travessia sádica rumo ao inferno feita para público masoquista.
— Oliver Laxe claramente propõe um cinema de tensão, de nervos à flor da pele. Ele bebe na fonte dos grandes, como William Friedkin (1935-2023) e seu O Comboio do Medo (1977). A trama de Sirât percorre caminhos que são difíceis de se ver no cinemão atual e, ao final, o choque pode demorar a passar — diz o crítico Rodrigo de Oliveira, que comentará a sessão de pré-estreia na Sala Eduardo Hirtz, onde vai lançar a Revista Almanaque 21 dedicada ao Oscar 2026.

Rodrigo entrevistou o diretor franco-espanhol. Na conversa por vídeo, Laxe disse que Sirât "tem três dimensões: física, existencial e metafísica". Para a primeira, a aventura e o suspense tiveram como referência o já mencionado O Comboio do Medo, o clássico francês O Salário do Medo (1953), de Henri-Georges Clouzot, e a saga Mad Max, iniciada em 1979 pelo cineasta australiano George Miller.
— Para a dimensão existencial, fui muito influenciado pelo filmes americanos dos anos 1970, como Sem Destino (1969), de Dennis Hopper, Corrida Sem Fim (1971), de Monte Hellman, Corrida Contra o Destino (1971), de Richard C. Sarafian, e Apocalypse Now (1979), de Francis Ford Coppola — listou Oliver Laxe. — Esses filmes que falavam sobre os sonhos e medos de sua geração e de uma sociedade realmente contraditória, com a Guerra do Vietnã e muita contracultura.
Laxe também citou Zabriskie Point (1970), do italiano Michelangelo Antonioni, e Paris, Texas (1984), do alemão Wim Wenders. E afirmou que o russo Andrei Tarkovski, de Solaris (1972), Stalker (1979) e Nostalgia (1983), foi seu "amado mestre" para a dimensão metafísica.
— Eu dialogo com mestres — disse Laxe, para logo em seguida se corrigir: — Na verdade, tento copiá-los. Tento estar no nível que é impossível.

Essa dimensão metafísica é explicitada no título do filme. Sirât é uma palavra árabe que designa a ponte, na tradição islâmica, que os fiéis devem atravessar.
— A explicação do nome logo no início do filme nos dá uma chave de entendimento importante — comenta o crítico Rodrigo de Oliveira. — Estamos, basicamente, vendo um purgatório na Terra.
Eu não estava nem um pouco pronto para assistir a esse purgatório na Terra. Fiquei profundamente abalado, mas acho que Sirât vai além do choque. O filme consegue falar sobre a barbárie e o niilismo do mundo contemporâneo, mas também sobre como, de alguma forma, a humanidade segue criando vínculos; sobre como a gente precisa de uns dos outros, sobretudo nas horas ruins. Existe um horizonte. Tem de existir um horizonte.
É assinante mas ainda não recebe minha carta semanal exclusiva? Clique aqui e se inscreva na newsletter.
Já conhece o canal da coluna no WhatsApp? Clique aqui: gzh.rs/CanalTiciano



