
A onda de violência no México deflagrada após uma operação do exército matar El Mencho, um dos maiores líderes do narcotráfico naquele país, no domingo (22), fez lembrar de um filmaço disponível na Netflix: A Noite do Fogo (Noche de Fuego, 2021).
Mas não se trata de um filme policial ou de ação sobre os confrontos entre o Estado e os cartéis, ao contrário do que o próprio título sugere. A diretora e roteirista Tatiana Huezo reduz o foco para ampliar a dimensão humana: o que ela mostra é como os barões das drogas violentam as pequenas comunidades.
Na primeiríssima cena, uma mulher e uma menina de seus oito, nove anos estão cavando com as mãos um buraco na terra. É uma cova? Um esconderijo?
"Entra, Ana", diz a personagem mais velha, que, logo adiante, se revelará sua mãe. Na sequência, após o letreiro informar secamente o nome do filme, Ana e mais duas gurias aparecem embrenhadas em uma floresta. Vemos e ouvimos as personagens recitando cores: amarelo, preto, amarelo, vermelho. Só na última imagem descobrimos o objeto de sua observação: uma cobra coral venenosa.
À noite, Ana, deitada à espera do sono, encolhe-se na cama ao flagrar, na parede, um escorpião. Pouco depois, Paula surge com os cabelos bem curtinhos, como os de um menino.
Essas quatro cenas simbolizam o que é viver em uma comunidade submetida pelo narcotráfico. O perigo e a morte estão sempre nas redondezas, o silêncio e a fuga são aliados vitais, o medo dita os passos — sobretudo os das mães e filhas.
A Noite do Fogo é baseado em romance publicado em 2014 pela escritora Jennifer Clement e lançado no Brasil como Reze pelas Mulheres Roubadas. Trata-se da primeira e até agora única ficção de Huezo, 54 anos, após os premiados documentários El Lugar más Pequeño (2011) e Tempestade (2016) e antes de El Eco (2023), que também colecionou troféus.
Há semelhanças entre os quatro filmes. No primeiro, rodado em El Salvador, onde a diretora nasceu, os habitantes de uma cidadezinha revivem suas experiências durante a guerra civil no país (1979-1992) enquanto lembram de seus entes queridos. O segundo acompanha as jornadas de duas mexicanas vítimas da corrupção policial e do tráfico humano. Em El Eco, Huezo visita o homônimo vilarejo mexicano, onde as crianças cuidam das ovelhas e dos avós.

Huezo faz uma abordagem próxima do documental em A Noite do Fogo, filme pelo qual ganhou menção honrosa na mostra Um Certo Olhar do Festival de Cannes e concorreu ao prêmio de estreante do Sindicato dos Diretores dos EUA. O elenco conta com crianças e adolescentes recrutados nas zonas rurais do México, a maioria sem experiência em atuação. A câmera se detém, sem pressa, sobre afazeres cotidianos, como subir a montanha para tentar obter sinal de celular, e diversões das personagens — um banho gelado de riacho, uma paquera platônica pelo professor.
A protagonista é Ana, vivida por Ana Cristina Ordóñez González na infância e por Marya Membreño na adolescência, filha de Rita (a atriz Mayra Batalla). Suas melhores amigas são Maria (Blanca Itzel Pérez/Giselle Barrera Sánchez), que tem lábio leporino, e Paula (Camila Gaal/Alejandra Camacho).
É pelos olhos das garotas que vemos a história. Por isso, nem tudo é dito ou mostrado: Ana espia por frestas, ouve conversas ao fundo. Aos poucos, vamos assimilando a dura rotina das famílias que, diante da falta de oportunidades e de autoridades, trabalham no cultivo da papoula, de onde se extrai o ópio que vai dar origem a drogas como heroína e metadona.

"Não somos os maus, somos pobres", disse um agricultor em uma reportagem assinada por Jan Martínez Ahrens e publicada pelo El País em 2016. Acuadas pelos cartéis, essas famílias também são penalizadas pelo exército, que trava uma guerra a distância: helicópteros militares, quando localizam uma plantação, destroem tudo o que encontram no caminho, incendiando florestas e envenenando fontes d'água e os moradores do local.
O povoado mexicano escolhido por Tatiana Huezo como cenário chama-se Neblinas por estar situado no alto da Sierra Gorda, no Estado de Querétaro. Mas o nome também alude à atmosfera fantasmagórica de um lugar que convive com a perda e o desaparecimento.
Dilacerante sem ser apelativo, A Noite do Fogo reflete sobre as consequências da violência sistêmica e da omissão do Estado. Como é crescer onde você provavelmente terá que lidar com a morte precoce? Não é vida: é sobrevivência.
A inocência da infância e os desejos da adolescência contrastam com o estado de alerta coletivo despertado pelo barulho de caminhonetes na estrada de chão batido ou pelo latido dos cachorros nos pátios das casas. O ponto de vista escolhido pela diretora também suscita momentos de poesia, carinho, sororidade e esperança. Mas um dia a noite há de cair sobre aquela comunidade, uma hora o fogo há de arder sem queimar a dor.
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