
Adicionado ao menu do Amazon Prime nesta sexta-feira (20), Coração de Lutador: The Smashing Machine (The Smashing Machine, 2025) rendeu a Benny Safdie o Leão de Prata de melhor direção no Festival de Veneza e valeu a Dwayne Johnson, o eterno The Rock, uma indicação ao Globo de Ouro de melhor ator em filme de drama.
Ele chegou a ser bem cotado para o Oscar, mas acabou fora da lista (o filme só disputa a categoria de maquiagem e cabelos). Aliás, sequer concorre ao The Actor, o novo nome do prêmio do Sindicato dos Atores dos EUA. Embora, descontando o Maui da animação Moana (2016), esta seja a melhor atuação na carreira de Johnson, a aposta era exagerada.
O prêmio para Benny Safdie em Veneza foi ainda mais exagerado. O diretor fez um filme bastante convencional na narrativa, sem ousadia na reconstituição das lutas de MMA (sigla em inglês de artes marciais mistas) do personagem biografado, Mark Kerr, duas vezes campeão do Torneio Peso Pesado do UFC, e talvez contido demais — ou respeitoso demais — no retrato dos dramas pessoais do protagonista, que, fora dos ringues, enfrentou o vício em analgésicos e um relacionamento tóxico com Dawn Staples (encarnada por Emily Blunt, que também apareceu nas especulações para o Oscar, na categoria de atriz coadjuvante).

A atuação de Johnson, com cabelos pretos cobrindo sua careca famosa e com próteses no rosto, é realmente o grande trunfo de Coração de Lutador.
Mas possivelmente estamos usando como régua trabalhos anteriores do ator — sua filmografia, cheia de comédias familiares e aventuras escapistas, é marcada por personagens sem complexidade dramática. No novo filme, embora novamente seu corpo bombadaço esteja sempre em evidência, o astro de Jumanji: Bem-vindo à Selva (2017) e Adão Negro (2022) pode exibir talentos insuspeitos e uma vulnerabilidade inédita.
Produzido por um estúdio queridinho dos críticos, o A24 (o mesmo de Moonlight e Tudo em Todo o Lugar ao Mesmo Tempo, ambos ganhadores do Oscar), Coração de Lutador é o primeiro longa-metragem solo do diretor Benny Safdie. Com o irmão, Josh Safdie, ele assinou títulos como Amor, Drogas e Nova York (2014), Bom Comportamento (2017) e Joias Brutas (2019).
Josh também fez um longa sozinho, outra cinebiografia ambientada no mundo do esporte. Timothée Chalamet interpreta um personagem livremente inspirado no lendário jogador de tênis de mesa Marty Reisman (1930-2012) em Marty Supreme (2025) — este, sim, amplamente indicado ao Oscar. Disputa nove categorias, e Josh Safdie tornou-se um dos recordistas em indicações na mesma premiação (são quatro: melhor filme, melhor direção, melhor roteiro original e melhor edição).

No papel de Mark Kerr (que hoje tem 57 anos e é visto brevemente no final de Coração de Lutador), Dwayne Johnson relembra o seu próprio passado de lutador profissional, antes de iniciar sua trajetória em Hollywood como o Escorpião Rei de O Retorno da Múmia (2001). A trama se passa entre 1997 e 2000, começando com a recriação da estreia de Mark Kerr em uma competição realizada em São Paulo, o World Vale Tudo Championship 3.
É um dos melhores momentos do filme: ali vemos a selvageria do combate, mas também o coração de Kerr, preocupado com o estado de saúde do oponente que acabou de esmagar. Esse contraste entre a brutalidade do atleta e a delicadeza da pessoa fascina e intriga o espectador.

Quando vai ao Japão para lutar no Pride, que era o maior e mais popular evento de MMA naquele período, Kerr é questionado por um jornalista: já imaginou como seria perder? O lutador estadunidense não sabe responder, sequer consegue imaginar uma derrota, evita pensar nisso, como uma estratégia mental.
Mas Kerr não é tão forte quanto parece ou quanto ele próprio pensa que é. Os remédios opioides, altamente viciantes, são um alívio tanto para as dores do seu corpo quanto para os problemas da vida amorosa. Ele ama Dawn, mas o relacionamento com a namorada é nocivo para sua carreira, inclusive dificultando suas tentativas de se manter sóbrio.
Um ombro amigo para Kerr é o de outro lutador, Mark Coleman, vivido por um bicampeão do torneio Bellator, o estadunidense Ryan Bader. Quando o protagonista telefona por causa de uma crise doméstica, Coleman promete ajudá-lo prontamente: "Vou pegar o primeiro avião". Como será se um tiver de brigar contra o outro no ringue?
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