O Apple TV anunciou na terça-feira (3) as principais produções que serão lançadas em 2026. Uma delas, prevista para estrear no dia 5 de junho, é a série Cape Fear, baseada no filme Cabo do Medo (1991), de Martin Scorsese, e no romance The Executioners (1957), de John D. MacDonald.
A série tem como showrunner Nick Antosca, um dos criadores da minissérie O Ato (2019). Na trama, uma tempestade aproxima-se do casal de advogados Anna (papel de Amy Adams) e Tom Bowden (Patrick Wilson) quando Max Cady (encarnado pelo espanhol Javier Bardem), um notório serial killer do passado deles, sai da prisão em busca de vingança. O diretor norueguês Morten Tyldum, indicado ao Oscar por O Jogo da Imitação (2014), assina o primeiro dos 10 episódios.
Atualmente disponível para aluguel digital em Amazon Prime Video, Apple TV e Google Play, Cabo do Medo (Cape Fear, 1991) é uma das 10 parcerias de Martin Scorsese com o ator Robert De Niro. Trata-se da refilmagem de Círculo do Medo (1962), adaptação do diretor J. Lee Thompson para o romance de MacDonald. Pelas mãos de Scorsese e do roteirista Wesley Strick, a história tornou-se incandescente e transcendente.

A trama é basicamente a mesma: ao sair da cadeia, após cumprir 14 anos de sentença por estupro, o psicopata Max Cady (papel de Robert De Niro) busca vingança contra seu advogado de defesa, Sam Bowden (Nick Nolte), que é casado com Leigh (Jessica Longe), mulher sempre desconfiada da fidelidade do marido, e pai da adolescente Danielle (Juliette Lewis).
Os atores Gregory Peck (1916-2003), Robert Mitchum (1917-1997) e Martin Balsam (1919-1996) estão presentes nas duas versões, e a tensa trilha sonora composta pelo lendário Bernard Herrmann (1911-1975) foi brilhantemente reformulada por Elmer Bernstein (1922-2004).
Ironicamente, Gregory Peck e Robert Mitchum trocaram de lado. No original, o primeiro interpretou Sam Bowden, e o segundo viveu Max Cady. Em Cabo do Medo, Peck é Lee Heller, advogado do estuprador, e Mitchum faz o tenente Elgart, da polícia da Flórida.
Cabo do Medo foi um sucesso comercial — custou US$ 35 milhões e arrecadou US$ 182,2 milhões nas bilheterias — e recebeu duas indicações ao Oscar e ao Globo de Ouro, nas mesmas categorias: melhor ator, para Robert De Niro, e melhor atriz coadjuvante, para Juliette Lewis.

Embora De Niro tenha encarnado Al Capone (em Os Intocáveis) e o próprio Diabo (em Coração Satânico), além de mafiosos icônicos, não é exagero considerar Max Cady o grande vilão da sua carreira. O ator realmente apavora na sua combinação de brutalidade e malícia.
Seu corpo malhado e todo tatuado já é um terrível cartão de visitas. A propósito, há um lance metalinguístico na composição visual do seu Max Cady: ao usar tatuagens de cunho religioso, De Niro emprestou à recriação de um dos personagens mais conhecidos de Robert Mitchum elementos de outro, o falso pastor de O Mensageiro do Diabo (1955).

Martin Scorsese disse que Cabo do Medo é um filme sobre "punição para tudo aquilo que excite sexualmente o ser humano, a batalha moral básica da ética cristã". Nesse sentido, Max Cady é o catalisador da sexualidade latente da filha adolescente de Max Bowden.
À época da estreia nos cinemas, o crítico José Onofre (1942-2009), em Zero Hora, ofereceu outra rica leitura: a mitologia dos EUA é calcada no "dilema com que depararam os primeiros homens brancos a chegarem naquele território para recomeçar a vida: a construção da família ou a aceitação da solidão. É a grande metáfora da vida, a América em sua vastidão quase desabitada é o cosmos desafiante, surgindo a família como a solução de grupo que faça a mediação com o inexplicável e coloque as raízes da sociedade. Cabo do Medo é a batalha da família para expulsar a selvageria inconsciente do mundo".
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