
Protagonizado por Carolina Dieckmmann, (Des)controle (2025) estreou nesta quinta-feira (5) em oito cinemas de Porto Alegre, com 21 sessões diárias. Os números indicam uma boa expectativa de público, ainda mais que o lançamento coincide com a Semana do Cinema, promoção que oferece ingressos entre R$ 10 e R$ 12 nas redes Cineflix (no Shopping Total), Cinemark (Barra Shopping Sul, Bourbon Ipiranga e Bourbon Wallig), Cinépolis (Shopping João Pessoa), Cinesystem (Bourbon Shopping Country) e GNC (shoppings Iguatemi, Moinhos e Praia de Belas).
Pois bem.
Fui o único espectador da primeira exibição no Cinesystem, no horário das 13h.
Por um lado, fiquei livre da incômoda distração provocada pela luminosidade do celular das pessoas que não conseguem se concentrar na tela grande e, pior, não conseguem mais respeitar a experiência coletiva que o cinema representa.
Por outro, lamento o aparente desinteresse por (Des)controle. Afinal, trata-se de um baita filme, que conta com uma potente atuação de Dieckmmann — talvez a melhor de sua carreira, depois da Camila da novela Laços de Família (2000) e da Leona de Cobras & Lagartos (2006), sua primeira vilã de folhetim — e aborda um tema importantíssimo: o alcoolismo e suas consequências.
Aliás, em entrevista à CNN a atriz de 47 anos emocionou-se ao revelar que a personagem a fez revisitar questões pessoais, especialmente a relação com sua mãe, que morreu em 2019:
— Eu via minha mãe beber. Quando li o roteiro, deparei com um ponto de encontro com a personagem, um lugar de filha. Mas, ao mesmo tempo, ela era um pouco a minha mãe.

O enxuto longa-metragem — tem 95 minutos — é dirigido em dupla por Rosane Svartman, de Como Ser Solteiro (1998) e Tainá: A Origem (2011), e Carol Minêm, das séries Todo Dia a Mesma Noite (2023) e Máscaras de Oxigênio Não Cairão Automaticamente (2025). Escrito a 10 mãos, o roteiro parte de um argumento de Iafa Britz, produtora de sucessos comerciais do cinema nacional, como os dois filmes Se Eu Fosse Você (2006 e 2009) e a trilogia Minha Mãe É uma Peça (2013-2019). Em (Des)controle, Iafa também assina a produção e faz uma participação especial, no papel dela própria.
Na cena de abertura, a personagem interpretada por Carolina Dieckmmann desperta no topo do chafariz de uma praça pública do Rio de Janeiro, com vestido de festa e uma garrafa de vinho na mão. O filme retrocede alguns meses para mostrar o cotidiano da protagonista, a escritora Katia Klein, autora de uma bem-sucedida série de livros infantojuvenis.
Katia atravessa uma turbulência. A editora, conforme conta sua agente e melhor amiga, Léo (Júlia Rabello), pressiona pela entrega do novo livro, que já está atrasado por causa de um bloqueio criativo. Em casa, o casamento com Zeca (Caco Ciocler) não vai bem. Aliás, enquanto ele pratica ioga em meio ao caos doméstico e quer fazer uma viagem romântica com a esposa, ela só pensa na lista de tarefas a cumprir.
Essa lista inclui cuidar dos filhos adolescentes, Duda (Stéfano Agostini) e Bernardo (Rafael Fuchs Müller), providenciar o Bar Mitzvah do caçula e lidar com os pais, Levi (Daniel Filho) e Esther (Irene Ravache). Katia sente a sobrecarga característica das mulheres que conciliam a vida familiar com a carreira profissional, a exemplo das personagens do filme Se Eu Tivesse Pernas, Eu te Chutaria (2025) e da série All Her Fault (2025).

Assim, seus 15 anos de sobriedade, um orgulho regado a muitas latas de Coca Zero, estão à beira de um abismo. Qualquer lugar pode se revelar uma cilada, qualquer coisa pode ser gatilho. A recaída é uma questão de tempo.
Se o contexto sugere um dramalhão, saiba que (Des)controle é bastante parcimonioso no emprego da música para induzir a emoção do espectador. As diretoras Rosane Svartman e Carol Minêm deixam as cenas respirarem, dando voz também ao som ambiente. E o filme se permite momentos leves, até engraçados — os escorregões da trilha sonora são justamente quando adota um tom de comédia.
Mas não se engane: embora não seja amargo como os oscarizados Farrapo Humano (1945), de Billy Wilder, e Despedida em Las Vegas (1995), de Mike Figgis, (Des)controle também retrata uma jornada de autodestruição guiada pela dependência do álcool. E este é um problema muito difícil de tratar, pois de um lado há a negação do alcoolista, e de outro, a tolerância e até o incentivo da sociedade ao consumo de bebidas. Não à toa, entre os lemas do Alcoólicos Anônimos (AA) estão "Evite o primeiro gole" e "Um dia de cada vez".

Ao sucumbir à primeira tacinha de vinho, Katia firma uma espécie de pacto com o diabo. O álcool vai trazer a inspiração que faltava e alegrar as suas noites de mulher recém separada — é como diz o título da clássica canção que toca em uma boate, You Make me Feel (Mighty Real), lançada por Sylvester em 1978: "Você faz eu me sentir muito real". Mas o álcool também vai gerar esquecimento, constrangimentos para os filhos, irresponsabilidade, perdas afetivas ou econômicas. A protagonista vai inclusive se colocar em situações de altíssimo risco.
No dia seguinte, vêm a culpa e a cobrança — que acabam sendo empurrões para o copo ou a garrafa. É um ciclo vicioso.
— Fico achando que, se eu beber, vou me sentir melhor — diz Katia.
Como sair dessa enrascada? (Des)controle aponta um caminho em uma sequência absolutamente comovente. Chorei tanto que saí com o rosto lavado.
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