
Eternidade (Eternity, 2025), que estreou no menu do Apple TV na sexta-feira (13), é como se fosse uma mistura adocicada dos dramas Depois da Vida (1998), de Hirokazu Kore-eda, e Vidas Passadas (2023), de Celine Song.
Em Depois da Vida, os burocratas ajudam os mortos a escolher uma única lembrança, que será reencenada, filmada por uma equipe e assistida em uma sala de cinema, se transformando na única memória que eles levarão para o além.
Dirigido pelo irlandês David Freyne, o mesmo de Meus Amores com Amber (2020), Eternidade é uma comédia romântica ambientada no mundo depois da morte, uma cruza de repartição pública com feira de negócios em que funcionários orientam as almas a decidir, no prazo de uma semana, como, onde e com quem querem passar a eternidade.

Em Vidas Passadas, a protagonista é uma escritora casada que vê ressurgir sua grande paixão da adolescência. O que fazer?
Um dilema muito semelhante é imposto à personagem interpretada em Eternidade por Elizabeth Olsen (indicada ao Emmy por WandaVision), que acaba vivendo um triângulo amoroso. De um lado, Joan tem o homem com quem chegou a comemorar 65 anos de casamento antes de os dois falecerem, Larry (papel de Miles Teller, de Whiplash e The Offer); do outro, seu primeiro amor, Luke (Callum Turner, da minissérie Mestres do Ar), que morreu na Guerra da Coreia e desde então ficou esperando a chegada dela a esse posto de transição da existência.

Coescrita pelo diretor David Freyne com o roteirista Patrick Cunnane, a trama de Eternidade começa quando Joan e Larry ainda estão vivos, bem velhinhos e encarnados por Betty Buckley e Barry Primus. Nas palavras da esposa, o marido é um sujeito que só está feliz quando está triste. Mas o companheirismo impera: um não vive sem o outro. Literalmente: pouco depois de Larry morrer inesperadamente, será a vez de Joan, que vinha enfrentando um câncer.
No mundo do além, os personagens remoçam, porque lá as pessoas assumem a forma da época em que foram mais felizes. É por isso que há tantas crianças — mas não muitos adolescentes, como graceja a Coordenadora de Pós-Morte chamada Anna, que é interpretada por Da'Vine Joy Randolph, ganhadora do Oscar de melhor atriz coadjuvante por Os Rejeitados (2023).

Anna e outro Coordenador de Pós-Morte, Ryan (papel de John Early), que é seu rival, têm boas piadas, mas servem sobretudo como guias do próprio espectador no fascinante mundo de Eternidade.
A designer de produção Zazu Myers seguiu à risca o pedido do diretor David Freyne: com inspiração na arquitetura brutalista dos anos 1960, criou um cenário que mescla uma estação de trem, um pavilhão de exposições e um hotel.

Nesse ambiente, os espíritos são bombardeados por outdoors, cartazes, comerciais de TV e vendedores ambulantes. Todos oferecem opções de "hospedagem" na eternidade que são paradisíacas.
Não necessariamente pela paisagem, mas por estarem imunes a problemas terrenos — por exemplo, todo mundo pode fumar sem ter medo de câncer, pois todo mundo já está morto; e ninguém vai morrer por overdose de cocaína. Há o Mundo Livre de Homens, o Mundo do Satanismo, o Mundo de Paris, o Mundo Weimar ("100% sem nazis", promete a propaganda)...
Talvez a duração de Eternidade seja longa em demasia, mas o filme cumpre bem o seu papel de comédia romântica: faz rir e, ao mesmo tempo, apresenta um drama com o qual podemos nos identificar.
A decisão que Joan precisa fazer é irrevogável, e a combinação da terna atuação de Elizabeth Olsen com a integridade imperfeita dos personagens de Miles Teller e Callum Turner contribui para que a gente acredite na incerteza da protagonista: ela realmente não sabe com quem ficar. Como escolher entre a ardência de uma paixão da juventude e o amor que foi construído durante décadas? Como escolher entre o que poderia ter sido e o que foi vivido?
É assinante mas ainda não recebe minha carta semanal exclusiva? Clique aqui e se inscreva na newsletter.
Já conhece o canal da coluna no WhatsApp? Clique aqui: gzh.rs/CanalTiciano




