
O ano mal começou e já temos uma sexta-feira 13, data sagrada para ver filmes de terror. (A propósito, em março haverá mais uma, e depois só em novembro.)
Fiz uma lista com 13 dos melhores títulos do gênero (embora alguns não se notabilizem exatamente por provocar medo) lançados nos anos 2020.
Todos estão disponíveis nas plataformas de streaming e permitem uma pequena volta ao mundo: vêm da Argentina, da Austrália, da Bélgica, da Dinamarca, dos EUA, da Inglaterra e de Taiwan. A ordem é puramente alfabética. Clique nos links se quiser saber mais.
1) Faça Ela Voltar (2025)

De Danny Philippou e Michael Philippou. Os irmãos gêmeos australianos aprimoram todas as virtudes demonstradas no seu primeiro longa-metragem, Fale Comigo (2022). Estão lá, por exemplo, a atmosfera sinistra e o despudor para a violência gráfica (para a qual a sonoplastia é fundamental). O ritual macabro que vemos na sequência de abertura não é gratuito: deriva de uma dor emocional, é como uma súplica. E outra vez a dupla dá protagonismo a adolescentes solitários. Em Faça Ela Voltar, dois irmãos, após a morte do pai, são enviados para um lar adotivo, o da excêntrica Laura (Sally Hawkins, injustamente esnobada pelo Oscar), que também acolhe um menino mudo chamado Oliver (Jonah Wren Phillips, assombroso). Eis um filme absolutamente perturbador: prepare-se para se sentir mal. (HBO Max)
2) O que Ficou para Trás (2020)

De Remi Weekes. O diretor e roteirista inglês fez um filme de casa mal-assombrada, de fantasmas e de sustos, mas usa esses elementos clássicos para retratar um drama real e atual. É o dos refugiados, vindos de países em guerra ou onde sofrem perseguição política, religiosa, étnica etc. Em O que Ficou para Trás, eles são encarnados pelos personagens de Sope Dirisu e Wunmi Mosaku, que escaparam do Sudão do Sul para experienciar o terror num subúrbio da Inglaterra. (Netflix)
3) O Homem Invisível (2020)

De Leigh Whannell. O diretor australiano mostra como as histórias de terror podem se adaptar aos tempos. Na sua versão para o clássico escrito por H.G. Wells em 1897, o foco não está no cientista que descobre a fórmula da invisibilidade nem nos dilemas éticos e morais que revestem a trama, como a intoxicação pelo poder e os riscos trazidos pela impunidade. E, em vez de um, temos uma protagonista: pelo olhar da personagem de Elisabeth Moss, o Homem Invisível transforma-se em um símbolo dos relacionamentos tóxicos. (Amazon Prime Video e HBO Max)
4) A Hora do Mal (2025)

De Zach Cregger. Como no caso do primeiro filme do diretor, Noites Brutais (2022), o ideal é sabermos o mínimo sobre a trama. O ponto de partida é o seguinte: na cidadezinha de Maybrook, 17 crianças da mesma sala de aula acordaram no meio da madrugada, saíram da cama, desceram as escadas, abriram a porta de casa e, sem dizer uma palavra e com os braços estendidos como asas, caminharam em direção à escuridão para nunca mais voltarem. Apenas um aluno não desapareceu. Por quê? Onde estão seus colegas? Esses são alguns dos mistérios investigados por personagens como o policial interpretado por Alden Ehrenreich, a professora vivida por Julia Garner e o pai de um garoto sumido (Josh Brolin). A estrutura narrativa, que embaralha o tempo, é um dos trunfos de A Hora do Mal, que valeu à veterana Amy Madigan uma indicação ao Oscar 2026 de melhor atriz coadjuvante, no papel de tia Gladys. (HBO Max)
5) Host: Cuidado com Quem Chama (2020)

De Rob Savage. Eis um filme de terror que captou o espírito de seu tempo. Literalmente. Um grupo de amigas em distanciamento social, oscilando entre o tédio e a ansiedade provocados pela pandemia de covid-19, resolve apimentar suas reuniões via Zoom. E a história toda de Host é contada como se estivéssemos vendo uma reunião no Zoom. O algo novo a que se propõem é uma sessão espírita virtual, que acaba virando uma roubada. (Amazon Prime Video)
6) O Mal que nos Habita (2023)

De Demián Rugna. Os moradores de uma pacata cidade do interior da Argentina recebem uma notícia alarmante: um homem infectado pelo diabo está prestes a dar à luz um demônio real. Desesperados, os habitantes tentam escapar do local. Atenção: O Mal que nos Habita tem uma das cenas mais chocantes dos últimos tempos. (Netflix)
7) Megalomaníaco (2023)

De Karim Ouelhaj. Os personagens principais são os supostos filhos de um assassino serial que assombrou a Bélgica nos anos 1990, o Carniceiro de Moons. Megalomaníaco mostra como o mal pode ser transmitido, como o mal contamina, como a vítima pode se tornar agressor. E controla as explosões de violência (cenas de estupro, assassinato, humilhação, sequestro, cárcere privado, espancamento, marteladas na cabeça, golpes de faca...) para que tenham o maior impacto possível quando ocorrem. (BOOH!, que tem sete dias de teste grátis no Amazon Prime Video)
8) Ninguém Vai te Salvar (2023)

De Brian Duffield. A invasão alienígena, logo nos minutos iniciais, funciona como catalisadora do processo pelo qual a personagem interpretada pela ótima atriz Kaitlyn Dever deve passar. É um processo solitário, como indica o título, que também alude à situação da personagem no enfrentamento aos E.T.s. E o diretor praticamente prescinde do diálogo ao longo dos 93 minutos de duração de Ninguém Vai te Salvar, espelhando tanto a incomunicabilidade da protagonista com os demais moradores da cidade quanto seu silêncio em relação a um episódio traumático. Essa combinação do terror físico com o psicológico conquistou Stephen King e Guillermo del Toro. (Disney+)
9) Não Fale o Mal (2022)

De Christian Tafdrup. Vem da Dinamarca esta pedrada. Atenção: não confunda com a refilmagem estrelada por James McAvoy e Mackenzie Davis. É o Não Fale o Mal original que vai te marcar para sempre. No filme, uma família dinamarquesa de férias na Itália faz amizade com um casal holandês que tem um filho pequeno. Pouco a pouco, a trama ilustra como se comprometer com a civilidade pode ser muito perigoso. (Reserva Imovision, que tem sete dias de teste grátis no Amazon Prime Video)
10) A Primeira Profecia (2024)

De Arkasha Stevenson. Eu confesso que quase deixei passar quando estreou nos cinemas, cansado de tantas apostas de Hollywood na nostalgia e do excesso de títulos de terror protagonizados por freiras. Mas o prelúdio do clássico A Profecia (1976) parte de uma ótima ideia: contar a história da mãe de Damien, o Anticristo, mulher que não havia recebido atenção nos cinco filmes e no seriado anteriores. A trama de A Primeira Profecia, a época (os anos 1970) e o cenário (Roma) convidam a diretora a citar clássicos como O Bebê de Rosemary (1968) e O Exorcista (1973), a emular o clima da trilogia da paranoia de Alan J. Pakula e a pegar emprestado elementos do giallo. (Disney+)
11) Suaves e Discretas (2022)

De Beth de Araújo. A diretora estadunidense que tem pai brasileiro retrata a primeira reunião de um grupo de mulheres neonazistas arregimentado pela professora Emily na Califórnia. Suaves e Discretas ilustra como a teoria vira prática, como uma "brincadeira" pode descambar para algo muito sério. Basta uma fagulha para provocar um incêndio sufocante, e essa sensação é reforçada pela narrativa em tempo real que simula ser em um único plano-sequência, ou seja, sem cortes entre uma cena e outra. (BOOH!, que tem sete dias de teste grátis no Amazon Prime Video)
12) A Tristeza (2021)

De Rob Jabbaz. Filmes de zumbi sempre se prestam a metáforas sobre a época em que foram gestados. Vindo de Taiwan, este título reflete explicitamente a pandemia de coronavírus, mas no fundo vale para qualquer época, como uma fábula, só que muito violenta e muito sangrenta. Na odisseia por sobrevivência do jovem casal Jim e Kat, há membros decapitados por tesouras de jardinagem, olhos perfurados com um cabo de guarda-chuva, torturas com arame farpado, mordidas que dilaceram a vítima, estupros coletivos, atos de necrofilia... Entrementes, A Tristeza pergunta: o que seria de uma sociedade polarizada se a gente só atendesse aos impulsos do id? Que civilização seria possível se não houvesse as instâncias mediadoras e repressoras do ego e do superego? (Reserva Imovision, que tem sete dias de teste grátis no Amazon Prime Video)
13) Você Não Estará Só (2022)

De Goran Stolevski. Convém não esperar sustos: este filme australiano é um terror meditativo. Estrelado pela sueca Noomi Rapace, Você Não Estará Só se passa em um vilarejo da Macedônia do século 19, onde as ações de uma bruxa de pele toda queimada conhecida como Maria Donzela (interpretada pela romena Anamaria Marinca) desencadeiam reflexões à la Terrence Malick sobre o que significa ser humano, sobre a visão de mundo das crianças, sobre os papéis sociais atribuídos às mulheres, sobre a masculinidade tóxica, sobre a descoberta do amor e da vida em comunidade, sobre colocar-se no lugar do outro. (Aluguel em Amazon Prime Video, Apple TV e Google Play)
Bônus: Maligno (2021)

De James Wan. O cineasta australiano nascido na Malásia homenageia o italiano Dario Argento, o estadunidense Brian De Palma e o canadense David Cronenberg neste filme que é um desbunde do ponto de vista técnico: as movimentações de câmera, os planos zenitais (quando as cenas são vistas de cima), os jogos de ilusão entre cenários, maquetes e efeitos especiais, o despudor nas explosões de violência. Há um clima oitentista em Maligno que é realçado pela música composta por Joseph Bishara, pela estupidez dos personagens em relação ao perigo, pela canastrice dos coadjuvantes, pelos diálogos expositivos, pela névoa que envolve os ambientes, pela intersecção de experiência científica com geração de monstros e pela tentativa de imprimir humor em cenas mórbidas.
Se o clima é dos anos 1980, a trama começa em 1993. Estamos em um sinistro hospital psiquiátrico à beira de um penhasco, tipo um castelo de Frankenstein, onde um grupo de médicos e enfermeiros tenta controlar a fúria sanguinária de um paciente chamado de Gabriel. Corta (em mais de um sentido!) para os dias de hoje, quando Madison Mitchell, vivida com gana e carisma por Annabelle Wallis, lida com uma gravidez de risco e um marido violento. A partir daí, a protagonista e o espectador passam a ser assombrados pela aparição de um personagem grotesco e por assassinatos sangrentos. (HBO Max)
É assinante mas ainda não recebe a minha carta semanal exclusiva? Clique AQUI e se inscreva na minha newsletter.
Já conhece o canal da coluna no WhatsApp? Clique aqui: gzh.rs/CanalTiciano





