
Nesta coluna, eu fiz uma lista com 10 minisséries que considero maravilhosas (não à toa, algumas já recomendei mais de uma vez).
Todos os títulos estão disponíveis no streaming: um no Amazon Prime Video, dois no Apple TV, um no Disney+, três na HBO Max e três na Netflix. A ordem é puramente alfabética. Clique nos links se quiser saber mais.
1) Bebê Rena (2024)

Vencedora de seis prêmios no Emmy, três Baftas (da Academia Britânica) e dois Globos de Ouro, esta minissérie impactante e inesquecível foi criada pelo escocês Richard Gadd para processar publicamente seu trauma. Ele mesmo interpreta o personagem principal, Donny Dunn, que trabalha como garçom em um pub de Londres enquanto sua carreira de comediante não decola. Logo conhecemos Martha Scott (papel de Jessica Gunning), a versão ficcional da mulher que, ao longo de quatro anos, enviou para Gadd cerca de 41 mil e-mails, 350 horas de mensagens de voz, 746 tuítes e 106 páginas de cartas, criando para ele apelidos como o Bebê Rena do título.
Martha é obesa, transparece solidão e diz não ter dinheiro nem para comprar um chá. "É um sentimento arrogante, sentir pena de alguém que mal conhece, mas eu senti. Senti pena dela", afirma o protagonista na narração em off — ferramenta dramatúrgica que amplia o caráter confessional e terapêutico de Bebê Rena. Mas essa é a só a superfície: há algo mais pesado que Donny demora para trazer à tona. (Netflix, 7 episódios)
2) Black Rabbit (2025)

Jude Law interpreta Jake Friedken, o proprietário e cofundador do Black Rabbit, uma mistura de bar e restaurante com três andares localizada em Nova York, bem perto da rampa de acesso para a Ponte do Brooklyn. Aliás, a ambientação, que vai do cru ao charmoso, é um dos trunfos da minissérie criada por Zach Baylin e Kate Susman. Quando Black Rabbit começa, Jake está celebrando uma noite muito especial no gastropub onde a chef Roxie (vivida por Amaka Okafor) prepara "hambúrgueres de 50 dólares". A clientela inclui Wes Williams (Sope Dirisu), músico de sucesso e um dos investidores do restaurante. Do lado de fora, uma dupla mascarada se prepara para tentar roubar as joias valiosíssimas que serão exibidas na festa.
Assim que o assalto ao restaurante chega a um ponto de ebulição, a narrativa recua um mês no tempo, quando Jake vivia a expectativa da presença da crítica do jornal The New York Times ao seu estabelecimento. Entrementes, conhecemos seu irmão mais velho, o pé-rapado Vince (papel de Jason Bateman), que tem um histórico de compulsão — jogo, bebida, drogas, apostas... Após se meter em uma senhora enrascada, ele acaba reaparecendo na vida no mano caçula. Aí, a trama de suspense se mistura esplendidamente a um drama familiar: quando os laços que unem se tornam laços que prendem? (Netflix, 8 episódios)
3) Chernobyl (2019)

Criada por Craig Mazin, apresenta uma versão ficcional do pior acidente nuclear da história, o da usina de Chernobyl, ocorrido entre 25 e 26 de abril de 1986 perto da cidade de Pripyat, na Ucrânia. Ao reconstituir suas consequências imediatas e as primeiras ações tomadas pelo governo soviético, a obra ganhou assustadora atualidade durante a pandemia: cenas e falas parecem refletir o que vimos e ouvimos desde o surgimento do coronavírus.
Chernobyl arrebatou 10 prêmios Emmy, incluindo melhor minissérie, e concorria a outros nove, entre eles ator (Jared Harris, no papel do renomado químico Valery Legasov), atriz coadjuvante (Emily Watson, como a fictícia cientista Ulana Khomyuk) e ator coadjuvante (Stellan Skarsgård, que interpretou Boris Shcherbina, vice-presidente do Conselho de Ministros da URSS de 1984 a 1989, designado para supervisionar a gestão da crise). O elenco multifacetado — que inclui Jessie Buckley como a esposa grávida de um bombeiro e Paul Ritter como o engenheiro que comandou o fatídico teste na usina — permite enxergarmos as dimensões científica, política e humana do desastre. (HBO Max, 5 episódios)
4) Cortina de Fumaça (2025)

As perguntas suscitadas por esta minissérie policial criada pelo escritor Dennis Lehane despertam mais curiosidade do que o habitual: quais são as motivações dos incendiários? Qual é o seu modus operandi? O que o fogo traz de recompensa? O que a fumaça pode estar encobrindo?
Em Cortina de Fumaça, Taron Egerton interpreta Dave Gudsen, um investigador de incêndios criminosos que tem pretensões literárias. A contragosto, Gudsen terá de formar uma dupla com a detetive Michelle Calderone (Jurnee Smollett), uma policial que carrega um pesadíssimo trauma familiar relacionado justamente a fogo. O objetivo é deter não apenas um, mas dois incendiários que vêm agindo na região, ora causando apenas danos materiais e prejuízos financeiros, ora provocando mortos e feridos. Não vou dar spoiler, mas preciso dizer: o final é antológico. (Apple TV, 9 episódios)
5) Disclaimer (2024)

"Disclaimer" é o nome dado às declarações de isenção de responsabilidade, uma proteção contra possíveis problemas legais, como aqueles avisos, nas primeiras páginas de um livro de ficção, de que "qualquer semelhança com pessoas vivas ou mortas é mera coincidência". A protagonista vivida por Cate Blanchett é a documentarista Catherine Ravenscroft, que construiu sua reputação ao trazer à tona os erros e as transgressões de governos, empresas e pessoas proeminentes. Agora, ela se vê às voltas com um livro (enviado pelo personagem do espantoso Kevin Kline) que expõe um episódio nefasto de quando era mais jovem.
A trama é perfeita para quem curte segredos de família, mistérios mórbidos a desvendar e um vaivém entre o presente e o passado. A forma também seduz: Disclaimer intercala três pontos de vista, talvez nenhum deles absolutamente confiável, como a ilustrar o quão podem ser fabricadas, ou seja, não exatamente reais, as histórias que contamos sobre nós mesmos e aqueles que amamos. (Apple TV, 7 episódios)
6) Dopesick (2021)

Com idas e vindas no tempo, a minissérie criada por Danny Strong mostra como a Purdue Pharma promoveu de forma agressiva e mentirosa o OxyContin, analgésico considerado responsável pela crise de opioides que provocou 500 mil mortes nos EUA a partir de 1999. Há cinco núcleos narrativos em Dopesick. O principal é o de Finch Creek, uma fictícia cidade onde moram o médico Samuel Finnix (Michael Keaton, premiado no Emmy, pelo Sindicato dos Atores dos EUA e no Globo de Ouro) e a jovem Betsy Mallum (Kaitlyn Dever), operária em uma mina de carvão.
Will Poulter encarna um revendedor que tenta seduzir uma colega sem o pingo de escrúpulo que ele tem, e Rosario Dawson faz uma agente do DEA, órgão federal encarregado da repressão aos narcóticos. Em outras duas pontas, estão personagens reais. Dona da farmacêutica, a família Sackler vive em meio a intrigas e disputas por conta da ambição de Richard Sackler (Michael Stuhlbarg). E Rick Mountcastle (Peter Sarsgaard) e Randy Ramseyer são dois promotores públicos que querem investigar e levar a empresa ao tribunal. (Disney+, 8 episódios)
7) Mare of Easttown (2021)

Fascinada com o "quem foi" da minissérie criada por Brad Inglesby, a atriz Kate Winslet ressaltou que embarcou no projeto porque "não é só a história de um crime". De fato, o crime descoberto no primeiro capítulo é chocante e misterioso, mas serve sobretudo como catalisador dos dramas pessoais e familiares em cidadezinha dos EUA.
A morte traz à tona relações e segredos guardados em vida, imagem reforçada pela ambientação numa estação fria, que obriga os personagens a se esconderem atrás de casacos, mantas e gorros. E — até o final — todos têm o que ocultar ou algo do que não gostam de falar. A detetive Mare Sheehan, por exemplo, viveu um episódio traumático na família. Sua amiga Beth (Chinasa Ogbuagu) já não sabe como lidar com o irmão viciado em drogas. O diácono Mark Burton (James McArdle) foi transferido de paróquia em circunstâncias mal esclarecidas. (HBO Max, sete episódios)
8) Missa da Meia-Noite (2021)

Criada, dirigida e editada por Mike Flanagan, se passa na fictícia e minúscula (tem somente 127 habitantes) Ilha Crockett. Lá, desembarca Paul Hill (papel de Hamish Linklater, absurdamente esnobado no prêmio Emmy), um padre que vai substituir o monsenhor Pruitt, afastado temporariamente por causa de um problema de saúde. Sua chegada coincide com o retorno de Riley Flynn (Zach Gilford), que viu sua carreira no mundo das startups ruir quando, ao dirigir embriagado, matou uma adolescente.
Riley passou quatro anos na prisão e tenta recomeçar sua vida, contando com o apoio da mãe, Annie (Kristin Lehman), mas enfrentando a relutância do pai, o pescador Ed (Henry Thomas), reencontrando sua namorada dos tempos de escola, a professora Erin Greene (Kate Siegel, esposa do diretor), e revendo, todas as noites, o fantasma da garota atropelada. Esse não é o único evento fantástico na ilhazinha, mas não convém avançar muito na trama de Missa da Meia-Noite, em que Flanagan costura sua educação no catolicismo, seu subsequente ateísmo e sua paixão pelo horror. (7 episódios, Netflix)
9) The Underground Railroad (2021)

Aqui, a beleza convive lado a lado com o horror. Concebida por Barry Jenkins, diretor e roteirista do oscarizado Moonlight (2016) e de Mufasa: O Rei Leão (2024), The Underground Railroad: Os Caminhos para a Liberdade é a adaptação do romance homônimo escrito por Colson Whitehead e ganhador, também em 2017, do prêmio Pulitzer. A trama se passa na metade do século 19, antes da Guerra Civil nos EUA (1861-1865), que tinha como principal causa a escravização da população negra — a maioria dos Estados do Sul queria manter, o Norte era contra.
Sua protagonista é Cora (interpretada pela sul-africana Thuso Mbedu), uma jovem escrava que, após relutar, tenta fugir de uma fazenda na Geórgia na companhia do íntegro Caesar (Aaron Pierre). Os dois buscam a Underground Railroad do título, uma rota de fuga que de fato existiu, mas não da maneira que é apresentada na ficção. No seu encalço, partirá o caçador Arnold Ridgeway (Joel Edgerton, do filme indicado ao Oscar Sonhos de Trem), tendo ao lado um surpreendente ajudante: Homer (Chase W. Dillon), um menino negro. (Amazon Prime Video, 10 episódios)
10) Watchmen (2019)

Damon Lindelof pegou elementos da clássica história em quadrinhos de Alan Moore e Dave Gibbons (a chuva de lula, personagens como Ozymandias e Dr. Manhattan) e cria uma trama central totalmente nova e absolutamente atual. Os novos heróis, como a Sister Night (Regina King) e o Looking Glass (Tim Blake Nelson), lidam com a violência contra negros nos EUA. O inimigo é uma organização racista, a Sétima Kavalaria.
Desde a abertura, que reencena o Massacre de Tulsa, em 1921, durante anos apagado da história oficial, Watchmen mostra como os traumas da escravidão passam de geração a geração. Foram 11 troféus no Emmy, incluindo melhor minissérie, atriz (Regina King), ator coadjuvante (Yahya Abdul-Mateen II) e trilha sonora (Trent Reznor e Atticus Ross). (HBO Max, 9 episódios)
Bônus: Adolescência (2025)

Não poderia deixar de fora o fenômeno de audiência e de repercussão do ano passado. De prêmios também: Adolescência ganhou oito troféus no Emmy, quatro no Globo de Ouro e quatro no Critics Choice. Com quatro episódios dirigidos pelo britânico Philip Barantini, cada um em um único plano-sequência, a minissérie tem como ponto de partida a prisão de um garoto de 13 anos, Jamie Miller (em uma interpretação assombrosa do estreante Owen Cooper), que é acusado de assassinar uma menina.
Adolescência ilustra o abismo que há entre os adultos e os adolescentes, que têm urgências, inseguranças e explosões de hormônios e sentimentos potencializadas na era do Instagram e do TikTok. Mostra como o bullying digital e as expectativas sobre a masculinidade podem criar situações de perigo — ou algo pior. A trama permite a pais e professores espiarem pelo buraco da fechadura. Ao mesmo tempo, oferece um espelho: na vida atribulada, distante e remota dos tempos atuais, estamos conseguindo dar amparo e orientação para nossos filhos? Estamos sendo um exemplo positivo? (Netflix, 4 episódios)
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