
Na virada deste sábado (3) para domingo (4) — mais precisamente, à 0h15min —, o Supercine da RBS TV vai exibir um filmaço para quem curte mistérios de detetive e histórias que lembram quebra-cabeças: Entre Facas e Segredos (Knives Out, 2019).
O título foi sucesso de público e de crítica. Nas bilheterias, arrecadou US$ 313 milhões, quase oito vezes o seu custo (US$ 40 milhões). Assinado pelo diretor Rian Johnson, o roteiro original concorreu ao Oscar e ao Bafta, da Academia Britânica. O filme entrou no top 10 do American Film Institute e recebeu três indicações ao Globo de Ouro: melhor comédia ou musical, ator (Daniel Craig) e atriz (Ana de Armas).
Não à toa, acabou gerando uma sequência. Glass Onion: Um Mistério Knives Out (2022) disputou o Oscar de roteiro adaptado e o Globo de Ouro nas categorias de melhor comédia ou musical e ator (de novo com Daniel Craig). Recentemente, saiu o terceiro filme, Vivo ou Morto: Um Mistério Knives Out (2025). Ambos são dirigidos por Rian Johnson e estão disponíveis na Netflix.
Nessa franquia, Johnson, depois de ser alvo da fúria dos fãs de Star Wars por causa de Os Últimos Jedi (2017), resolveu aventurar-se em outro universo que desperta o fanatismo: o de Agatha Christie (1890-1976). Mas o cineasta estadunidense não fez uma adaptação direta, apenas buscou inspiração — o detetive Benoit Blanc encarnado por Daniel Craig é excêntrico e arrogante como o célebre Hercule Poirot — e modernizou o tipo de história contada pela romancista inglesa em obras como O Assassinato no Expresso do Oriente, Morte no Nilo, Os Crimes ABC e E Não Sobrou Nenhum (anteriormente conhecido como O Caso dos Dez Negrinhos).
Embora eu sempre prefira assistir aos filmes no seu idioma original, devo dizer que a versão dublada de Entre Facas e Segredos, além de ter uma ótima qualidade técnica, pode até ajudar na apreciação da trama. É que os diálogos são muitos e exigem atenção plena, por causa de detalhes preciosos sobre o crime a ser investigado e sobre os personagens.

O ponto de partida, em uma mansão tão sinistra quanto brega, é a descoberta do corpo de Harlan Thrombey (papel de Christopher Plummer, morto em 2021), um famoso e milionário escritor de romances policiais, na manhã seguinte à comemoração de seus 85 anos. Tudo aponta para suicídio, mas o detetive particular Benoit Blanc, contratado por um cliente anônimo, logo vai perceber que todos na casa — dos filhos aos netos, do genro à nora, passando pelos empregados — tinham motivos para querer Harlan morto.
Descobrimos isso em uma sequência magistral, nos primeiros minutos de Entre Facas e Segredos. Sentado em uma poltrona ao fundo, Blanc observa dois policiais interrogarem os familiares do defunto, como a filha, Linda (interpretada por Jamie Lee Curtis), e seu marido, Richard (Don Johnson), o filho, Walter (Michael Shannon), o neto playboy, Ransom (Chris Evans), e a nora que ficou pela mansão após a morte do marido, Joni (Toni Collette). Cada um conta sua versão dos fatos, mas os flashbacks mostram uma história diferente.
É aí que o elenco de dubladores mostra que estudou muito bem o filme. Com uma sincronicidade impressionante, eles realmente encarnam os personagens e transmitem as nuances de interpretação. Carlos Campanile, que dubla Harlan, Cecília Lemes, que faz Linda, Garcia Júnior, o Benoit Blanc, e Adriana Pissardini, a Joni, fizeram valer sua experiência.

Guiado por suas vozes, pode ser mais fácil não se perder no labirinto narrativo engendrado por Rian Johnson, que a todo instante indica novos caminhos para a solução do enigma, apresenta novos pontos de vista, revisita cenas e cenários. O bom é que o diretor e roteirista não se contentou em oferecer apenas um jogo de detetive: entretenimento divertido e sofisticado, Entre Facas e Segredos também critica aspectos sociopolíticos dos Estados Unidos.
Os Thrombey, todos brancos, simbolizam os cidadãos refratários aos imigrantes — representados por Marta, a enfermeira do escritor, encarnada pela cubana Ana de Armas. Exploram-na, desconfiam e, ao mesmo tempo, não dão valor a ela, demonstrando como arrogância rima com ignorância: uma hora dizem que a família de Marta veio do Equador, outra hora, do Paraguai, depois, do Uruguai, e até a chamam de brasileira. Carregam às costas a faca da ambição, pois só têm olhos para o dinheiro de Harlan, enquanto ela — o diretor não faz segredo — carrega no peito a bússola moral do filme, pois é puro coração.
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