
É significativo que a Pixar tenha escolhido Red: Crescer É uma Fera (Turning Red, 2022) para ser seu 25º longa-metragem de animação. Atração da sessão Cinema 26 da RBS TV nesta sexta-feira (2), às 22h25min, o filme da diretora Domee Shi é mesmo um marco na história do estúdio, diferenciando-se de todos os anteriores e os posteriores.
Antes de falar dos motivos oficiais, cabe ressaltar uma particularidade brasileira: nenhum desenho do estúdio ganhou uma tradução tão infeliz. Turning Red, o título original, quer dizer "ficando vermelho" — será que a Disney, dona da Pixar, ficou com receio de haver alguma interpretação política? Alguma associação com comunismo ou, já que em 2022 houve eleições presidenciais, com Lula? O fato é que manter em inglês a palavra Red não faz muito sentido — não é o nome da protagonista —, assim como Crescer É uma Fera mostra-se uma expressão truncada que contraria as formulações habituais (poderia ser Crescer É Dose, por exemplo, ou A Puberdade É uma Fera).
Mas enfim: Red foi o primeiro e até agora único longa da Pixar dirigido exclusivamente por uma mulher. Nascida na China, em 1989, e criada no Canadá (mais precisamente na cidade de Toronto, cenário da história), Domee Shi já tinha sido pioneira à frente do tocante Bao (2018), o primeiro curta-metragem do estúdio assinado por uma diretora — e que acabou conquistando o Oscar da categoria. Depois, Shi assinou Elio (2025) com Madeline Sharafian e Adrian Molina.
Red também foi o primeiro e até agora único longa da Pixar com elenco predominantemente asiático, dando sequência a uma série de produções da Disney: a versão com atores de Mulan (2020), ambientada na China antiga; Shang-Chi e a Lenda dos Dez Anéis (2021), estrelado pelo super-herói Marvel das artes marciais; e a animação indicada ao Oscar Raya e o Último Dragão (2021), que mistura em um território mágico referências de países como Camboja, Filipinas, Indonésia, Laos, Malásia, Tailândia e Vietnã.
E Red foi o primeiro título da Pixar a tratar de puberdade e menstruação — daí o "ficando vermelho", ora. Não é o único a abordar o tema da adolescência — depois veio Divertida Mente 2 (2024), mas esse filme não faz da experiência menstrual seu tema central.

A protagonista de 13 anos, Mei Lee, não é a primeira personagem principal feminina no histórico da Pixar. Antes, houve a princesa Merida, de Valente (2012), e a menina Riley, de Divertida Mente (2015). Mei Lee tampouco é a primeira adolescente a enfrentar a mãe — Merida tem 16 anos e se rebela contra a rainha Elinor. Mas Valente tem um tom mais fabular (até pela ambientação, na Escócia medieval) e dedica-se, como disse a psicanalista Diana Corso, a "inverter vários papéis das princesas dos contos de fadas tradicionais" — é um filme mais sobre representação das mulheres e diferenças de gênero do que sobre a adolescência em si.
Lançado uma década depois, Red, embora não abra mão do elemento fantástico nem seja estritamente contemporâneo (a trama se passa em 2002, quando Domee Shi também tinha 13 anos), avança na abordagem dos dramas, das alegrias, das paixonites e das transformações da adolescência.
Filha de Ming e Jin, Mei é ótima aluna e ajuda a mãe a administrar o templo da família. Ela tem três amigas inseparáveis: Miriam, Priya e Abby. As quatro são fãs obcecadas por uma banda tipo NSYNC e Backstreet Boys, a 4*Town (cujas canções foram compostas pelos irmãos Billie Eilish e Finneas O'Connell), que está para fazer um show em Toronto.
Aí está outro conflito presente em Red, o das tradições de uma família de imigrantes orientais versus as atrações do mundo ocidental. O foco, contudo, recai no duelo geracional entre Mei e sua mãe, deflagrado pela entrada da garota na puberdade.
Quando suas emoções ou seus hormônios falam mais alto, a protagonista se transforma em um enorme panda vermelho. É uma metáfora nada sutil, mas bem-vinda (raríssimas são as animações que abordam o período menstrual, e essa invisibilidade contribui para o tabu em torno do assunto) e divertida (a fera gigante vai desencadear uma série de confusões). E que, no fundo, não se restringe a questões ligadas à adolescência feminina: alude também, disse a diretora, a como lidamos com a herança imaterial passada de mães para filhas.
— Fazer o filme foi muito catártico — contou Domee Shi em entrevistas. — Porque durante minha vida toda fui encorajada a ser boazinha, sorrir, falar baixo, não ocupar muito espaço. E aqui há permissão para ser espaçosa, peluda, barulhenta, brava.
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