
Vai ter frevo em Hollywood! Dirigido pelo pernambucano Kleber Mendonça Filho e ambientado no Recife de 1977, O Agente Secreto recebeu nesta quinta-feira (22) quatro indicações ao Oscar: melhor filme, melhor ator, com Wagner Moura, melhor longa-metragem internacional e melhor elenco (Gabriel Domingues é o concorrente na nova categoria da premiação). Os vencedores serão conhecidos na cerimônia marcada para o dia 15 de março, no Teatro Dolby, em Los Angeles.
Ainda em cartaz nos cinemas do país, onde ultrapassou a marca de 1,5 milhão de espectadores, O Agente Secreto superou o número de indicações de Ainda Estou Aqui (2024), que conquistou o troféu de longa internacional da Academia de Hollywood e disputou os de melhor filme e melhor atriz, com Fernanda Torres.
Também igualou o recorde de uma produção brasileira no Oscar. Em 2004, Cidade de Deus (2002) competiu em direção (Fernando Meirelles), roteiro adaptado (Bráulio Mantovani, a partir do romance homônimo de Paulo Lins publicado em 1997), fotografia (César Charlone) e edição (Daniel Rezende).
Na 98ª edição do Oscar, o Brasil também pode comemorar a indicação do diretor de fotografia paulista Adolpho Veloso, por seu belo trabalho em Sonhos de Trem, filme disponível na Netflix.
Confira, a seguir, como está a corrida de O Agente Secreto e de Wagner Moura na busca pelas estatuetas douradas.
"O Agente Secreto" no Oscar de melhor filme

Os 10 indicados ao Oscar de melhor filme são:
- O Agente Secreto, de Kleber Mendonça Filho (em cartaz nos cinemas)
- Uma Batalha Após a Outra, de Paul Thomas Anderson (HBO Max)
- Bugonia, de Yorgos Lanthimos (disponível para aluguel em Amazon Prime Video, Apple TV e Google Play),
- F1: O Filme, de Joseph Kosinski (Apple TV)
- Frankenstein, de Guillermo del Toro (Netflix)
- Hamnet: A Vida Antes de Hamlet, de Chloé Zhao (em cartaz nos cinemas)
- Marty Supreme, de Josh Safdie (em cartaz nos cinemas)
- Pecadores, de Ryan Coogler (HBO Max)
- Sonhos de Trem, de Clint Bentley (Netflix),
- Valor Sentimental, de Joachim Trier (em cartaz nos cinemas)
A presença de O Agente Secreto na lista dos indicados já é uma tremenda conquista. Afinal, na quase centenária história do troféu, somente duas vezes a Academia de Hollywood entregou seu principal prêmio para um filme que não tivesse seus diálogos predominantemente em inglês: em 2012, para o francês O Artista (2011), que era mudo, e em 2020, para o fenômeno sul-coreano Parasita (2019).
Como vem acontecendo, o título brasileiro não é o único estrangeiro entre os 10 concorrentes. Também concorre o norueguês Valor Sentimental. Em 2025, houve dois também: Ainda Estou Aqui e Emilia Pérez. Em 2024, havia o francês Anatomia de uma Queda e Zona de Interesse, produção britânica falada em alemão.
Em 2026, acho que a briga vai mesmo se concentrar entre os dois líderes em indicações: Pecadores, novo recordista na história do Oscar, com 16 (bateu as 14 de A Malvada, de Titanic e de La La Land), e Uma Batalha Após a Outra, que soma 13.
Wagner Moura no Oscar de melhor ator

Os rivais do brasileiro Wagner Moura, de O Agente Secreto, no Oscar de melhor ator são:
- Timothée Chalamet (por Marty Supreme, que estreia nesta quinta nos cinemas)
- Leonardo DiCaprio (de Uma Batalha Após a Outra, disponível na HBO Max)
- Ethan Hawke (de Blue Moon, que pode ser alugado em Amazon Prime Video, Apple TV, Google Play e YouTube)
- Michael B. Jordan (de Pecadores, também presente no menu da HBO Max)
Protagonista do thriller político de Kleber Mendonça Filho, que continua em cartaz nos cinemas, Wagner Moura chega ao Oscar com boas chances. Graças às minúcias cataclísmicas de seu personagem, o baiano de 49 anos foi premiado no Festival de Cannes e conquistou o Globo de Ouro de ator em drama. Nessa categoria, tinha entre os rivais Michael B. Jordan. A lista de vitórias do brasileiro inclui o Silver Hugo, do Festival de Chicago, e o troféu da mais antiga associação de críticos dos Estados Unidos, o New York Film Critics Circle (NYFCC).

Contra Wagner, pesa a ausência entre os candidatos ao The Actor, o novo nome da premiação do Sindicato dos Atores dos EUA (SAG), e ao Bafta, da Academia Britânica (ambas as entidades congregam muitos eleitores do Oscar). Mas vale lembrar que o SAG vem priorizando interpretações em inglês. Entre todos os concorrentes deste ano, incluindo as listas de melhor elenco, melhor atriz e melhores coadjuvantes, ninguém atua em outra língua.
Por sua vez, a Academia de Hollywood vem buscando se mostrar mais globalizada, como mostram as sucessivas indicações de produções estrangeiras ao Oscar de melhor filme e a presença, em 2025, da brasileira Fernanda Torres (Ainda Estou Aqui) e da espanhola Karla Sofía Gascón (Emilia Pérez) na disputa pela estatueta de melhor atriz.
Primeiro brasileiro indicado na categoria, Wagner Moura pode ser o primeiro sul-americano a vencer o Oscar de melhor ator, que já foi entregue a um porto-riquenho: José Ferrer, em 1951, por Cyrano de Bergerac — mas esse era um filme em inglês. Aliás, Wagner também é o primeiro sul-americano concorrente ao prêmio. Já no troféu de melhor atriz, tivemos as brasileiras Fernanda Montenegro (Central do Brasil) e Fernanda Torres (Ainda Estou Aqui) e a colombiana Catalina Sandino Moreno (Maria Cheia de Graça).
Apenas dois atores conquistaram o prêmio por títulos não falados em inglês: o italiano Roberto Benigni, em 1999, por A Vida É Bela, e o francês Jean Dujardin, em 2012, por O Artista (que era sem diálogos).

Um dos maiores rivais de Wagner é o estadunidense Timothée Chalamet, 30 anos, que encarna um jogador de tênis de mesa ambicioso, trapaceiro, sedutor e narcisista em Marty Supreme (2025), filme vibrante e caótico dirigido por Josh Safdie e ambientado na década de 1950.
No papel de Marty Mauser, personagem inspirado na trajetória de Marty Reisman (1930-2012), Chalamet já venceu o Globo de Ouro de melhor ator em comédia ou musical e o Critics Choice, concedido pela associação dos críticos de TV, internet e rádio dos EUA e do Canadá. Ele disputa o The Actor e está na pré-lista do Bafta, que revelará os candidatos no dia 27. Esta é a terceira indicação de Chalamet ao Oscar. Antes, disputou por Me Chame pelo seu Nome (2017) e por Um Completo Desconhecido (2024).

Outro competidor de peso é Ethan Hawke, texano de 55 anos indicado por Blue Moon (2025). Nesta comédia dramática, ele interpreta o célebre letrista da Broadway Lorenz Hart (1895-1943), que tinha de lidar com o alcoolismo e a depressão. O diretor Richard Linklater retrata Hart enquanto ele reflete sobre si mesmo na noite de estreia de Oklahoma!, um novo musical de seu ex-colega Richard Rodgers.
Hawke recebeu o prêmio da National Society of Film Critics e está concorrendo pela quinta vez ao Oscar. Antes, disputou duas vezes como ator coadjuvante, por Dia de Treinamento (2001) e Boyhood (2014), e duas na categoria de roteiro adaptado, por Antes do Pôr do Sol (2004) e Antes da Meia-Noite (2013).

A candidatura de Michael B. Jordan, estadunidense de 38 anos, é impulsionada pelo novo recorde de indicações ao Oscar estabelecido por Pecadores: foram 16, incluindo melhor filme e melhor direção (Ryan Coogler).
Nesta mistura de drama sobre o racismo nos EUA dos anos 1930, musical blues e terror com vampiros, Jordan interpreta irmãos gêmeos, Fuligem e Fumaça, que tentam abrir um clube noturno em uma cidadezinha do Mississippi. O ator concorre pela primeira vez ao Oscar.

A lista de indicados se completa com uma figurinha carimbada. Californiano de 51 anos, Leonardo DiCaprio já venceu por O Regresso (2015) e competiu por O Aviador (2004), Diamante de Sangue (2006), O Lobo de Wall Street (2013) e Era uma Vez em... Hollywood (2019). Também concorreu como coadjuvante por Gilbert Grape: Aprendiz de Sonhador (1993).
Na pele de Bob, um ex-revolucionário que precisa voltar à ativa para salvar a filha das garras de um militar obcecado em Uma Batalha Após a Outra (2025), de Paul Thomas Anderson, DiCaprio venceu o prêmio da National Board of Review.
As chances do Brasil no Oscar internacional

Os cinco indicados ao Oscar de melhor filme internacional são:
- O Agente Secreto (Brasil) — em cartaz nos cinemas
- Foi Apenas um Acidente (França) — em cartaz nos cinemas
- Sirât (Espanha) — estreia nos cinemas em 26/2
- Valor Sentimental (Noruega) — em cartaz nos cinemas
- A Voz de Hind Rajab (Tunísia) — estreia nos cinemas em 29/1
Na comparação com a campanha de Ainda Estou Aqui, O Agente Secreto chega ao Oscar de melhor filme internacional com mais força. Não só por ter recebido mais indicações, mas sobretudo por ter conquistado prêmios robustos e por não haver um franco favorito na categoria, ao contrário do que aconteceu com o filme de Walter Salles, que tinha pela frente o musical Emilia Pérez, campeão de indicações na premiação do ano passado.
O thriller político de Kleber Mendonça Filho traz no currículo os troféus de melhor direção e melhor ator no Festival de Cannes; o Globo de Ouro de melhor filme em língua não inglesa; o Critics Choice de longa em idioma estrangeiro; e os prêmios da National Society of Film Critics e do New York Film Critics Circle.
Uma questão que pode ser crucial é o trabalho da Neon, a distribuidora de O Agente Secreto nos EUA. Trata-se da mesma empresa que atuou nas campanhas vitoriosas de Parasita (2019) e de Anora (2024), ambos ganhadores do Oscar de melhor filme. Neste ano, a companhia também emplacou mais três candidatos na categoria de longa internacional: Foi Apenas um Acidente, do diretor iraniano Jafar Panahi (mas que representa a França), o espanhol Sirât, de Oliver Laxe, e Valor Sentimental, do norueguês Joachim Trier, o mesmo realizador de A Pior Pessoa do Mundo, que concorreu em 2022.

Pelo número de indicações, o principal rival é Valor Sentimental, que tem nove, incluindo melhor filme, direção, atriz (Renate Reinsve), ator coadjuvante (Stellan Skarsgård) e atriz coadjuvante (Elle Fanning e Inga Ibsdotter Lilleaas). Este drama sobre um cineasta veterano que busca, aos trancos e barrancos, uma reconciliação com as filhas foi o grande ganhador na premiação da Academia Europeia. Mas não tem vencido nos troféus dos EUA. Aliás, também ficou de fora do The Actor, concedido pelo Sindicato dos Atores.
Se a Academia de Hollywood inclinar-se a filmes mais politizados, acho que o grande competidor de O Agente Secreto é Foi Apenas um Acidente, sobre um grupo de ex-prisioneiros políticos que encara um dilema ao — supostamente — reencontrar um antigo torturador. Aliás, o filme brasileiro e o filme iraniano correm na mesma raia.

Os dois filmes podem ser definidos como um thriller político. Os dois retratam a vida sob um governo autoritário, sempre impregnada pelo medo. Os dois mostram como a memória e a verdade podem ser turvas ou até manipuladas. Os dois abordam a dificuldade de lidar com um trauma que é tanto pessoal quanto coletivo. Os dois têm personagens estranhos uns aos outros que se reúnem por uma causa comum. Os dois pontuam a tensão e a violência com momentos cômicos. Os dois começam na estrada, acompanhando a viagem de um carro, e os dois terminam com uma cena que convida a refletir sobre seu significado.
Acho que, por seu epílogo poderoso, Foi Apenas um Acidente fica um degrauzinho acima de O Agente Secreto — aliás, no Festival de Cannes levou a Palma de Ouro. E o momento de altíssima turbulência no Irã, onde a repressão já provocou menos 3 mil mortes durante protestos contra o governo, pode influenciar sobremaneira os votantes da Academia de Hollywood. Ainda mais que Panahi é um notório opositor do regime teocrático iraniano.

Outro forte concorrente é A Voz de Hind Rajab, que recebeu o Grande Prêmio do Júri no Festival de Veneza, onde foi aplaudido durante 22 minutos. O filme reconstitui a história real de Hind Rajab, uma menina palestina de cinco anos que fica sozinha após seus familiares morrerem dentro do carro no qual tentavam fugir de Gaza durante ataque de tanques israelenses. A diretora tunisiana Kaouther Ben Hania é a mesma de O Homem que Vendeu sua Pele (2020), que concorreu ao Oscar internacional, e de As 4 Filhas de Olfa (2023), indicado ao Oscar de melhor documentário.
Fechando a lista, Sirât já foi apontado pelo jornal The New York Times como o filme mais indescritível e aterrorizante de 2025. Extremamente sensorial, a narrativa acompanha a busca de um pai por sua filha, desaparecida em uma rave no sul do Marrocos. Ao lado do filho caçula, ele segue uma jornada angustiante pelo deserto, acompanhando um grupo de festeiros em meio a um contexto de guerra.
Melhor elenco, a nova categoria do Oscar

Os cinco indicados ao prêmio de melhor elenco, a nova categoria do Oscar, são:
- Gabriel Domingues (O Agente Secreto)
- Cassandra Kulukundis (Uma Batalha Após a Outra)
- Nina Gold (Hamnet: A Vida Antes de Hamlet)
- Jennifer Venditti (Marty Supreme)
- Francine Maisler (Pecadores)
Como esta é uma categoria estreante, não há jurisprudência, não sabemos exatamente o que será mais valorizado pelos membros da Academia de Hollywood. O trabalho de um diretor de elenco incluir descobrir novos talentos, reunir atores com uma química específica ou gerenciar um casting grande e complexo em diferentes locais ou de faixas etárias.
Responsável pela escolha do elenco de O Agente Secreto, o paulista Gabriel Domingues comentou: "Eu estou muito orgulhoso dessa indicação. Acho que o filme é muito representativo dessa vontade do Brasil de se ver em sua potência e sua complexidade. Fico muito feliz com o reconhecimento do casting do filme, porque tem atores incríveis em diferentes estágios da carreira, de diferentes origens e diferentes formações. Ver todo mundo reunido na tela e ter esse reconhecimento para mim é uma alegria gigantesca".
Torço bastante por O Agente Secreto, mas acho que Pecadores larga em vantagem. Não só por suas virtudes, como a sintonia do elenco, mas porque, talvez, a Academia de Hollywood não tenha a mesma sensibilidade para saborear os sotaques e os regionalismos dos personagens do filme brasileiro nem o conhecimento de como Domingues harmonizou uma turma tão heterogênea.
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